Sou fascinado por oportunidades perdidas – talvez porque vivamos em um mundo em que elas são mais frequentes e abundantes do que as chances aproveitadas. Me interessam as ficções em que uma única peça caindo fora do lugar muda tudo, porque acho esse tipo de especulação bem plausível – e aqui não estou tentando martelar a ideia defendida por coaches picaretas (perdão pelo pleonasmo) de que você “tem de estar pronto para agarrar a oportunidade que só passa uma vez”. Não, porque, diferentemente do que acham os idiotas da falsa meritocracia, as oportunidades do mundo real são como os dados de Mallarmé, jamais abolirão o acaso. Às vezes tudo está ali, à mão, e um lance imprevisto que pode ou não ser culpa sua manda tudo pelos ares – acho que isso resgata uma dimensão trágica que anda meio distante na vida cotidiana sofrida que levamos nesta quadra desumana do Capitalismo tardio.
Fascinado que sou pelas oportunidades perdidas, dizia eu, penso muito nelas e no quanto são variados os seus tipos. Existem as que afetam uma vida, espalhando consequências dolorosas por anos adiante. Outras, talvez, tenham afetado drasticamente a vida de alguém sem que essa pessoa jamais venha de fato a saber ou a ter o completo entendimento disso. O primeiro tipo é remoído diariamente por milhares de pessoas nos consultórios de psiquiatras. O segundo costuma ser a matéria da especulação inventiva de muita ficção, boa ou ruim (já escrevi, aliás, sobre esse tema específico aqui).
História
Também varia muito a natureza de quem perde a oportunidade. Na maioria das vezes, indivíduos perdem – e às vezes aproveitam – oportunidades grandes e pequenas todos os dias. O telefonema que você não atendeu. Os sinais de flerte e encantamento daquela pessoa interessante que você conheceu em uma ocasião social e não soube interpretar. A entrevista de emprego para a qual você se atrasou. A reunião online que você perdeu porque ficou sem internet. A oferta que você não viu, o prazo que você calculou errado, os exemplos são inúmeros.
Há oportunidades que sociedades inteiras perdem, como resultado das ações conflitantes de atores sociais em disputa. Cada vitória recente da extrema direita no mundo é um exemplo trágico de oportunidade perdida, porque, em vez de avanço, essas coisas sinalizam retrocesso. Algo que foi visto no Brasil também, onde uma chusma de eleitores sem noção decidiu em 2018, sem nenhuma evidência, que um oligofrênico sem experiência administrativa e sem histórico de verdadeira representação política seria apropriado para ocupar a presidência da República. Para além de todas as oportunidades que se perderam porque o trabalho do soldado/soldador foi o da destruição sistemática, também sofremos a perda da oportunidade de ter no comando do país uma figura minimamente humana e eficiente na gestão das consequências da pior pandemia em um século, com o resultado trágico que se viu. Um pouco é disso que trata o livro Passeio com o Gigante, do Michel Laub, aliás, que eu resenhei para a publicação acadêmica Brasil/Brazil (leia a resenha neste link aqui).
Oportunidades históricas são perdidas e a trajetória de reinos inteiros e de boa parte da humanidade são alteradas. Se, no Brasil, Tibiriçá fosse menos lacaio dos portugueses e se juntasse à Confederação dos Tamoios em vez de declarar sua lealdade a eles, por exemplo. Ou, na Grã-Bretanha, se Boadiceia, a rainha dos Icenos, não tivesse se contentado com as primeiras vitórias contra os romanos que ocupavam o território, mas perseguido os colonizadores em fuga antes que eles pudessem se reorganizar…
Cenários hipotéticos
E, claro, há oportunidades que não são realmente oportunidades, são cenários hipotéticos que você forma na sua cabeça sem a menor possibilidade de que pudessem se concretizar, e quando de fato eles não se concretizam você pensa “que pena, teria sido legal”. São oportunidades que, por nascerem de devaneios, não têm repercussões reais no mundo concreto, me parece.
Pegue o caso do Novembro Azul, por exemplo. Eu sou velho o bastante para me lembrar de quando a campanha Outubro Rosa começou a se disseminar no Brasil, no início dos anos 2000, como um mote para a conscientização e a propagação do autoexame entre a população feminina, como ferramenta para um diagnóstico precoce de possíveis alterações mamárias, por exemplo. Durante os primeiros anos de divulgação do Outubro Rosa, não havia ainda a sua contraparte masculina, algo que seria fixado como o Novembro Azul que nós conhecemos hoje apenas no início dos seguintes anos 2010. Então eu, particularmente, pensava que, como uma campanha masculina semelhante precisaria propagar a necessidade do exame de próstata, minha cabeça, então muito mais jovem, achava que o mote perfeito para essa campanha deveria ser o Maio Marrom.
Muito sensatamente, quem realmente estava cuidando dessas coisas recusou essa abordagem meio humorística-escatológica e consolidou-se o Novembro Azul que temos hoje. Não tenho muito com o que defender a proposta que eu achava válida naquele tempo, a não ser com o argumento de que, por escrachado e patife que seja, o Maio Marrom recusa a careta binariedade de atribuir o azul ao masculino em oposição ao rosa-feminino. Vai saber qual teria sido o discurso da Damares se tivéssemos endereçado essa questão uns 15 anos atrás…
Feminismo e cinema
Em situações mais recentes, também contemplei alguns exemplos de oportunidades perdidas que só incomodaram a mim mesmo, mas que eu considero engraçadas o bastante para partilhar nesta crônica (que é uma comédia, no fim das contas, se ninguém aí percebeu ainda).
Bell Hooks (1952-2021) é uma das intelectuais mais discutidas da contemporaneidade. (Tecnicamente, é “bell hooks”, letra minúscula, porque a autora queria que fosse dada “ênfase à sua obra, e não à sua pessoa”. Acho isso uma afetação dispensável quando o nome, mesmo com letras minúsculas, ocupa hoje dois terços de todas as capas de seus livros no projeto gráfico da editora que publica sua obra no Brasil, a Elefante. Então vou usar as maiúsculas de nosso idioma, se vocês não se incomodam. Hooks é uma das principais vozes a articular a necessidade de que as reivindicações feministas se expandam do político para serem disputadas em uma reforma abrangente e radical do sistema de educação, sistema esse estruturado para fazer perdurar a visão patriarcal da sociedade.
Preconceitos de gênero são aprendidos, não inatos, e pautam as relações em todos os demais aspectos da vida, então que sejam combatidos em todos esses aspectos, incluindo na construção de uma educação antirracista e contra a hegemonia do patriarcado. Ela também é uma das principais vozes a deslocar a pauta do feminismo para as questões de raça e classe – é graças à discussão mais ampla de toda a sua obra nas últimas décadas que hoje parte do feminismo (tanto no Brasil quanto nos EUA, por exemplo) reconhece que muitos avanços conquistados nas ondas anteriores do movimento não contemplaram as mulheres negras, mantidas em condição subalternizada.
Tendo Bell Hooks uma obra de potencial revolucionário e transgressor tão grande, sempre achei uma pena que não se tenha criado uma editora específica para publicar seus livros que atendesse pelo nome de… Hell Books. Falo sem ironia, acho que seria uma grande ideia que acabei de dar a qualquer um aí que me leia, de graça.
Em outro tópico, está chegando aos cinemas um filme estrelado por Paul Mescal no papel de William Shakespeare (1564-1616). Chama-se Hamnet e é baseado no romance de mesmo nome da autora irlandesa Maggie O’Farrell, que aborda a relação entre o dramaturgo inglês e sua esposa antes e depois de um evento traumático (e um dos não muitos fatos documentados da vida de Shakespeare): a morte do filho do casal, Hamnet. Muito já se escreveu e se especulou o quanto o fim precoce do garoto, aos 11 anos, influenciou seu pai a escrever a tragédia de Hamlet. O menino Hamnet foi sepultado em 1596. Seu pai escreveu a peça entre 1599 e 1601, então a pura cronologia torna a hipótese possível. Mas existem alguns percalços para essa interpretação.
Hamlet fala de luto em família e melancolia, então talvez… Ao mesmo tempo, Hamlet está de luto pelo pai, enquanto Shakespeare havia perdido um filho. Hamlet busca vingança contra um tio ambicioso e fratricida, e não se sabem as circunstâncias da morte de Hamnet, o filho do autor, mas atribui-se a alguma das eclosões periódicas da peste que acossavam a Inglaterra daqueles tempos com regularidade alarmante (entre 1592 e 1594, por exemplo, poucos anos antes da morte de Hamnet, os teatros em Londres estiveram fechados por conta de uma das epidemias. Uns anos mais tarde, a própria coroação do rei James I, sucessor da famosa Elizabeth, foi adiada devido a um novo e agressivo surto).
Não parece, portanto, haver tantos elementos de conexão direta. Talvez a homenagem de Shakespeare na peça não tenha ido além de dar ao personagem um nome parecido ao do filho perdido, mas sobre isso já se gastaram rios de tinta sem que se chegasse a uma posição hegemônica, então não vou ser eu que vou bater o martelo.
Como eu dizia, Hamnet, o romance (e, imagino, por consequência, o filme, que eu não vi) transforma o episódio da morte do garoto em um marco da vida de Shakespeare e de sua esposa, chamada de Agnes no livro e na tela. Quem interpreta a esposa do dramaturgo é uma ótima e carismática atriz inglesa, Jesse Buckley (a versão jovem de Olivia Colman na boa adaptação de Elena Ferrante A Filha Perdida). Mas sabe o que me pega nesse filme em particular? Que “Agnes” é uma variação escolhida pela autora para evitar confusões num mundo contemporâneo cheio de idiotas, porque o nome da esposa de Shakespeare era, e imagino que a maioria dos meus leitores aqui do site saiba disso… Anne Hathaway.
Sim, Anne Hathaway, igual à estrela contemporânea de sorriso gigante (nada contra, sou fã) que já estrelou coisas como O diário de uma princesa e O diabo veste Prada. Sim, Shakespeare era casado com Anne Hathaway, e você fazer um filme sobre Shakespeare e desperdiçar a oportunidade de ter Anne Hathaway interpretando Anne Hathaway ficará para sempre entre os grandes vacilos do cinema. Alguém poderia argumentar que Anne é mais velha que Paul Mescal, que tem ali a idade mais próxima da que Shakespeare tinha quando seu filho morreu, uns 30 anos. Mas sabe outra informação interessante? Anne, a esposa de Shakespeare, era também mais velha do que ele, quase 10 anos, o que era uma diferença considerável naquela época. Veja bem a bola que a história estendeu para Chloe Zhao, a diretora do filme, e, sejam quais forem as circunstâncias, ela perdeu a chance de chutar!
O Inter, finalmente
E já que falei em chutar, também teve o Inter. Eu sei que falar do Inter em um texto sobre oportunidades perdidas agora, depois que, contrariando as expectativas, o time manteve-se na Série A após uma vitória sobre o Bragantino que ninguém esperava e uma combinação favorável de resultados com que poucos se arriscavam a contar (O Ceará levou virada do Palmeiras em casa, e o Fortaleza perdeu do Botafogo. Obrigado de coração aos botafoguenses. Mas a questão é que oportunidades perdidas foram o centro da campanha que quase levou o Inter ao desastre – e se o clube não se aperceber disso logo, deixará escapar a oportunidade mais significativa de todas.
O Inter teve, ao longo do ano de 2025, um time que nunca teve dificuldades para criar oportunidades ou chegar à frente da área adversária, mas quando a bola alcançava esse terreno, era aí que se materializava o sentido bastante comum que “oportunidade perdida” tem no futebol: o de criar uma chance de gol no ataque que é desperdiçada por falta de habilidade, foco e até sorte na conclusão. Há um meme que circula em que uma bola é chutada contra um latão de lixo na frente de um gol e, ricocheteando, vai algumas vezes para a rede. Depois, um perna de pau qualquer tenta chutar com o gol vazio e erra. Não vou dizer que Borré seja um perna de pau, mas ao longo de 2025 eu desejei muitas vezes que alguém fizesse a experiência de colocar uma lata de lixo ou mesmo um cone de treino parado à frente do gol adversário. Provavelmente teria a mesma efetividade do jogador a quem o Inter paga mais de um milhão por mês e que consta entre os mais altos salários do futebol brasileiro atual…
Mas a questão a partir de agora não são as chances que o Inter perdeu ao longo do ano, mas as que pode perder na forma como reage à oportunidade improvável que aproveitou. Primeiramente, há a inegável mudança de espírito que Abel Braga imprimiu ao time e que permitiu ao Inter fazer o básico, ganhar o seu jogo. É um fato verificável que, sem isso, o Inter teria caído. Ao mesmo tempo, Abel poderia ter feito exatamente tudo o que fez e ainda assim ter caído devido à combinação dos resultados. O Inter foi eficiente quando precisou no último momento, mas contou com uma sorte absurda. (Sobre isso, um parêntese: o discurso histérico de gremistas tentando desvalorizar a permanência do Inter devido a isso, quando o próprio tricolor se escora há anos no mito da própria “imortalidade”, que mistura raça e acaso, me mostra que, assim como em política, não existe adversário razoável no outro lado da polarização esportiva. Fecho o parêntese)
Todo mundo flauteou, inclusive jornalistas esportivos hoje identificados com o clube (algo que, para mim, forjado na velha escola em que esse tipo de vinculação era escondida ou negligenciada, me dá uma certa urticária, talvez um dia eu escreva sobre isso). Todo mundo elogiou Abel por seu comprometimento com o clube, etc., mas o que se descortina à frente do clube na próxima temporada que logo começa é uma necessidade de reformulação urgente de processos e de ideias. Dou o benefício da dúvida porque o clube já anunciou, enquanto escrevo, uma mudança drástica em todo o departamento de futebol, o que parece sinalizar que eles também perceberam isso.
Ao mesmo tempo, o Inter parece alguém que decide mudar de vida, mas que, premido pelas circunstâncias, volta de imediato aos padrões antigos – em uma situação de desespero, voltou-se para o mesmo Abel de incontáveis passagens pelo clube. Deu certo, mas poderia não ter dado. Parte do mérito da permanência do clube na Série A é do acaso, e isso deve ser levado em conta, não para diminuir o que Abel e os jogadores fizeram em campo, mas para ter a consciência de que a circunstância do último fim de semana é irrepetível, e o clube não deve se permitir chegar nem perto daquilo de novo. A flauta é do jogo – principalmente contra gremistas, que são arrombados por natureza mesmo quando são as melhores pessoas do mundo –, mas o Inter precisa mudar não só de dirigentes, mas de mentalidade. Preparação e criatividade serão necessárias.
E não só no futebol, a propósito. Curiosamente (como eu já falei aqui), o futebol é um terreno que se pretende à parte da sociedade e no qual os resultados em campo justificam tudo. Passada a rodada, parece que as declarações canhestras e homofóbicas de Abel em sua apresentação sequer ocorreram. Em uma só tacada, Abel fez a política institucional do clube retroceder aos anos 1990, e agora é como se nada tivesse acontecido. Também isso deveria ser endereçado, não apenas as insuficiências em campo de seus jogadores.
Porque comemorar quando as coisas dão certo em um momento de urgência é merecido. Mas não parar para analisar como se chegou àquela urgência é, sim, perder uma grande oportunidade…
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Ricardo Duarte / Internacional

