Eu sou uma miscelânea das leituras que faço. Nunca consegui fazer listas de livros concluídos porque sempre li de forma fragmentada. Eu leio vários ao mesmo tempo, demoro para concluí-los e gosto dessa mistura de todos, como fiz no título desse texto, usando palavras dos títulos que recentemente estou lendo.
Entendo, inclusive, que as escolhas simultâneas nunca são aleatórias.
Nesse momento, estou com: em primeiro lugar, o incrível “O amor é um monstro de Deus”, de Luciana de Luca, (Arquipélago, 2025). A história de um vilarejo assolado por moscas, fantasmas zumbis e essa personagem tentando se encontrar e encontrando-se com um amor em turbilhão e inusitado é profunda, labiríntica, escrita em capítulos curtos e contundentes. Do jeito que eu gosto.
Uma semana depois de ter começado esse amor, entrei de cabeça – e, a meu ver, muito tardiamente – na “Oração para desaparecer”, de Socorro Acioli (Companhia das Letras, 2023). Foi interessante como em muitos momentos eu confundi essas duas narrativas na minha lembrança, já que Socorro nos traz a história de uma mulher resgatada do fundo da terra, desmemoriada, tentando lembrar quem é. Achei as histórias com pontos de costura muito interessantes e peculiares.
Eu adoro essa mistura, adoro abrir livros aleatoriamente e caçar trechos que entendo que se mostram para mim e encontram eco em temas que estudo ou me interesso.
Não bastasse esses dois que estão quase no fim, atravessou-se em meu caminho a potência de Leda Cartum e seu “O porto” (Iluminuras, 2016), onde trechos curtos e não necessariamente encadeados falam poeticamente de partidas, partos, águas e seus portos, o tempo e seus mistérios.
Essas são as minhas três leituras de junho e julho, e não quero que acabem porque tenho medo de perder esses livros. Gosto de andar com os que ainda não foram terminados. Gosto dessa bagunça literária e poética na cabeça porque isso me agrega metáforas e imagens, me obriga a uma capacidade de síntese e de separação de cada história ao mesmo tempo que promove uma integração onde todas essas leituras viram uma única grande leitura de obras que me desacomodam.
Vivo em um poliamor literário que não me obriga a nada. Posso trair esses meus três amantes de julho com um novo que atravessar meu caminho. Mas todos são eu e passam a se acoplar no meu repertório de vocabulário, temáticas e reflexões.
Ando sentindo dificuldade em escrever crônicas, confesso. Toda a multiplicidade de reflexões e ideias que me inundam com minhas leituras e me dão ideias para vídeos ou poemas parece sumir quando penso no que escrever aqui. Entendo a crônica identificada com o mestre Rubem Braga que a definia como “se não é aguda, é crônica”. E eu, uma aguda por natureza, recheada de urgências e associações, nunca me dei muito bem com o crônico. Mas talvez seja essa a lição da cronicidade das coisas, da escrita e da leitura. Sem pressa, na contramão da vida linear que me pede para ler um livro de cada vez, do início ao fim.
Eu sou leitora crônica e escritora aguda.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

