“Quando estive em um evento em São Luís, no Maranhão, quando entrou a delegação do Rio Grande do Sul no salão do evento, ouvi alguém resmungar no canto: chegaram os patrões. E eu, há 30 anos, não conseguia entender exatamente o que significava aquilo ali. Mas alguma coisa me coçou as tripas. Seria o choque de culturas? Mas depois percebi que o RS representava o olhar do colonizador sobre as culturas dos descendentes de africanos e de povos originários.” Este foi um dos diversos retornos (na verdade, nem consegui contar) sobre a coluna https://sler.com.br/o-que-ainda-me-orgulha-de-ser-gaucha/ da semana passada, que tratou dos vários lados de se ter orgulho de ser gaúcha. Acima, é parte da mensagem que recebi de uma líder do movimento negro da minha cidade natal, Cachoeira do Sul.
Como ainda estamos em setembro, ouso continuar a levantar poeira sobre esse tema. E como surgiram diversos tipos de observações, escolhi algumas para engrossar o caldo do debate sobre esse assunto. Afinal, é interessante saber que há várias posições sobre algo que pode nos fortalecer ou nos tornar mais vulnerável diante da tamanha diversidade de brasileiros.
Um desenvolvedor de software, que não conheço, integrante de um dos grupos que postei minha coluna confessou: “… sempre fui piá de apartamento a vida toda e sempre rejeitei ferozmente a cultura gaúcha e o tradicionalismo. Os punha numa posição conservadora no pior sentido, na posição arquetípica de defensor dos donos de estância, dos brancos arrogantes e ‘grossos’, que se achavam europeus, sem respeito por minorias ou preocupação com o que diziam, inflamados por um orgulho vazio de uma suposta superioridade – tanto moral como de competência. Foi só quando comecei a me aproximar da agroecologia que aos poucos fui descobrindo a cultura gauchesca, a nativista de verdade, e sendo inspirado por uma das poucas culturas que cantam o campo com carinho e orgulho, ao invés de apenas sofrimento (como ocorre em outros cantos populares do Brasil), e o fazem de maneira rica, de muitas influências e misturas, cantando em orgulho a união de diferentes povos brancos, pretos e indígenas, dos sem terra que querem um canto pra viver e produzir, que não abaixam a cabeça pra autoridades; cantando contra as ditaduras, e por aí vai.
E mais importante: eu acredito que a cultura gaúcha tem potencial libertário, de incentivo ao êxodo urbano, a outras formas de organização social que retoma o rural, e defendendo uma identidade produzida e profundamente vinculada (ou ‘afetada’, de profundo afeto) a um território (feito de muitos territórios e comunidades) e não a uma fronteira política. Estamos – e eu vivo isso – absolutamente alienados da base material de recursos da qual dependemos – nossa terra, nossa fauna e flora, nosso ecossistema, e o potencial de relação regenerativa que podemos ter, vivendo integrados nesse ambiente. Então, hoje, não me orgulho de ser gaúcho por nada que venha da urbanidade – mas pelo que vêm e, ainda mais, pode vir do campo.”
Uma colega jornalista que há muitos anos foi trabalhar em São Paulo, se manifestou dizendo que os gaúchos são muito bem vistos em SP. “Fui extremamente bem tratada quando cheguei, pois carregamos a fama de trabalhadores incansáveis, além de dedicados. Mas já tive colega do Mato Grosso extremamente implicante com gaúchos por causa da invasão por lá. Acho que a monocultura da soja e a aquisição de terras na região com a introdução da cultura e do orgulho devem ter contribuído para a tal revolta. Tenho um pouco de orgulho de ser gaúcha. Mas procuro não demonstrar porque os paulistanos são mais low profile e não muito ligados em regionalismo. Porém confesso que das últimas vezes que estive no RS, fiquei extrema irritada pela falta de perspectiva ou porque vi muita gente ganhando emprego por ter padrinhos (as). Não que essas coisas não aconteçam em SP. Mas quando eu cheguei, o mercado era, repito, era enorme no início dos anos 90. Eu não conhecia ninguém, consegui trabalhar como freelancer na Agência Estado na primeira semana que cheguei.”
Em um grupo de zap, um amigo de muitos anos comentou: “o gaúcho foi um fenômeno na década de 1950, invadindo oeste de Santa Catarina e Paraná, e depois o centro oeste, Mato Grosso, desmatando e construindo o agro brasileiro como é hoje. Para o bem e para o mal”. E outro retrucou: “de 1950 em diante também, e ainda continua, no oeste baiano, no sul do Maranhão e Piauí, Tocantins”.
Creio que essas opiniões possam nos ajudar a refletir sobre o nosso comportamento. Até porque, por muito tempo, achava lindo falar com o sotaque gauchês entre os amigos de outros Estados, pois isso fazia parte do meu linguajar. Pois hoje, sinto vergonha por tabela de tanta coisa que os conterrâneos andam fazendo por aí… Sem falar do declínio dos nossos veículos de comunicação… mas isso é conversa pra outro momento.
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