Descobri esses dias, em um desses vídeos de pessoas de fora que o Instagram às vezes acha por bem me mostrar, compartilhando a estranheza de morar no Rio Grande do Sul, a informação de que há um “chimarródromo”, com esse nome mesmo, em algum ponto de Nova Petrópolis. É basicamente uma torneirinha ligada a uma tubulação de água quente em um suporte de madeira em uma área de descanso – por pesquisas que fiz depois, vi que está localizada na Praça das Flores. Já fui a Nova Petrópolis mais de uma vez, mas não me lembrava de ter reparado nisso.
Achei a informação curiosa, já que eu não ouvia falar de chimarródromo praticamente desde que saí de minha cidade natal, São Gabriel, ainda nos anos 1990. E porque sempre tive a impressão – que não consegui comprovar com pesquisas porque, na verdade, nem tentei – de que a própria São Gabriel fosse o local do “Chimarródromo original” do Estado. E porque – como penso desde os anos 1980, acho esse termo hoje amplamente disseminado “chimarródromo” de um absurdo artificial meio cômico.
Monumentos
Numa rápida consulta ao Google para fins deste texto, descobri que não existe só “chimarródromo” em Nova Petrópolis, mas também em Alvorada, Cassino, Gramado, Igrejinha, Ijuí, Santo Antônio da Patrulha, Sarandi, Tabaí e Triunfo, entre vários outros municípios. Numa olhada rápida, me parece que sim, todos esses são posteriores ao de São Gabriel, fundado nos anos 1980 – alguns foram inaugurados ainda este ano.
Mesmo na cidade que se autointitula a “Capital do Chimarrão”, Venâncio Aires, o chimarródromo é de 2002. Também encontrei uma notícia em que o idealizador do Chimarródromo local, Leo Büllow, admite que se inspirou ao saber da existência do de São Gabriel.
A maioria desses espaços é pouco mais do que uma torneira na parede ou num quiosque que parece máquina de vender salgadinhos, mas há duas diferenças que se ressaltam: o de Alvorada é construído como um monumento em que versões gigantes de uma cuia marrom e de uma chaleira preta ocupam dois pedestais grossos instalados lado a lado. O de Venâncio também é parte de um monumento em forma de cuia gigante. A diferença para a maciça cuia de Alvorada é que a de Venâncio Aires é transparente, composta de metal e – talvez – acrílico ou vidro (não sei, não fui lá).
Não sei se todos esses lugares estão com seus “chimarródomos” em atividade (vi um vídeo recente em que um pessoal tentava usar o de Alvorada e não conseguia porque não tinha água). O de São Gabriel foi instalado em algum momento dos anos 1980 (eu seria capaz de apostar que foi entre 1985 e 1987), quando se fez na mesma obra um calçadão em uma das ruas centrais da cidade.
Eu me lembro disso porque meu pai, político de oposição na época, era uma das vozes que declarava que o calçadão era uma péssima ideia por questões de trânsito e acesso ao comércio em uma cidade em que não havia tanta necessidade assim de um calçadão logo em frente a uma já ampla e bem arborizada Praça da Matriz. Sorrio ao lembrar que esse entendimento enfim se tornou consenso ali pelo início dos anos 2010, quando o calçadão foi aberto e o Chimarródromo removido para permitir a passagem de ambulâncias. Uma réplica muito semelhante foi instalada anos mais tarde justamente na… Praça da Matriz, onde talvez sempre devesse ter estado. Garantem-me meus irmãos mais afeiçoados à cidade que está funcionando a pleno, com torneiras de água fria e quente e até com Wi-Fi.
Simbologia
Quando eu morava em São Gabriel, achava o Chimarródromo visualmente um tanto ridículo, mas, vendo os outros exemplares espalhados pelo Estado, sou obrigado a reconhecer que ao menos tinha uma concepção menos óbvia. Era (a réplica ainda é) uma larga coluna de concreto com as torneiras para água, uma de cada lado, encimada por uma estrutura em madeira que emulava uma roda de carreta – remetendo tanto ao simbolismo da cidade como “Terra dos Carreteiros” quanto ao próprio chimarrão como uma “pausa na jornada”, seja a das carretas, seja a da vida.
Mas o que realmente me chama atenção no Chimarródromo não é tanto sua existência, inadvertida para meus distraídos interesses de citadino, mas o quanto esse nome, que eu considero ter visto nascer, “pegou” e se espalhou pelo Estado.
Como a construção do Chimarródromo em São Gabriel ocorreu logo depois da inauguração do primeiro Sambódromo do Brasil, no Rio, para mim é clara a inspiração do ponto turístico carioca no batismo do “ponto do chimarrão” gabrielense. Merecia um estudo à parte saber se, a partir daí, o termo se disseminou, tendo surgido primeiro em São Gabriel, ou se a própria cidade já o havia apropriado de alguma outra comunidade que usou a palavra primeiro. Fica aqui minha sugestão de trabalho acadêmico para vocês, porque a minha vida é, infelizmente, muito curta pra eu me dedicar a isso.
Não sou eu o cara que vai dizer que “Chimarródromo” está errado, uma vez que todo mundo usa. O que me interessa é como essa “inspiração” no original carioca “sambódromo” criou uma espécie de ornitorrinco linguístico representando o contrário do que deveria. Assim como o ornitorrinco, a palavra existe e está aí, mas não deixa de ser bizarra para cacete.
Etimologia
Sambódromo é uma palavra composta, obviamente, dos elementos /samba/ e /dromo/. Samba vocês todos sabem o que é. Para “dromo”, uso a definição do Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de Antônio Geraldo da Cunha: “elemento comp. do grego drómos ‘ação de correr, corrida, lugar de corrida’, que se documenta em alguns vocábulos eruditos, introduzidos nas línguas modernas a partir do século XIX”. Um desses vocábulos citados no verbete, é claro, é “autódromo”, e seu parente hoje menos conhecido de inspiração francesa, “velódromo”, nomes usados para designar pistas de competição em velocidade das modernas máquinas automotivas. Sem falar, é claro, do hipódromo, que tem existência mais antiga documentada e é composto da mesma forma para definir as pistas em que correm os cavalos.
Logo no início de sua poética, Aristóteles aventa uma correlação etimológica de origem entre o termo “dromo”, que não seria apenas “corrida” em grego, mas “movimento”, e a palavra “drama”, usada para espetáculos cênicos que representavam seres e pessoas “em movimento”. Essa especulação de Aristóteles, para a qual ele não oferece mais fontes do que um “dizia-se antigamente”, hoje é vista com muitos senões, mas serve para dar a ideia de como, ao longo da história, “dromo” designou “movimento”, muitas vezes célere. Assim, chamar a Passarela do Samba de Sambódromo pode exagerar um pouco na comparação, mas não foge da lógica, uma vez que por ali o samba se move: passistas dançam, baterias ritmizam, alas evoluem, carros alegóricos se movimentam (quando não quebram, pensando bem). O samba em movimento é um neologismo a princípio estranho, mas que tem muito a ver com o espírito da coisa.
Ornitorrinco
Aí chegamos ao Chimarródromo e, como vocês já puderam deduzir, a situação fica meio maluca.
Chimarródromos são espaços de convivência e descanso. O original de São Gabriel (que vou continuar chamando assim até que vocês me provem que estou errado) mantém em seu desenho mesmo um conjunto de banquetas de concreto espalhadas à volta da torre da água, para que os transeuntes encham as térmicas, sentem-se e compartilhem na roda (de chimarrão, gurizada, vocês me entenderam).
O chimarrão com esse caráter de reunião é tomado nas visitas sociais, na conversa ao redor do fogo, depois que os trabalhos do dia foram encerrados. Seja a marcação do gado, seja a faxina na casa. Chimarrão, como fenômeno social, é exatamente o contrário de movimento, então essa exótica (em mais de um sentido) palavra que significa textualmente “chimarrão em movimento” ter se popularizado para definir lugares de relaxamento em que objetos imóveis fornecem água quente me parece totalmente absurdo. Alguns ainda poderiam defender dizendo que o significado é simbólico, e eu entendo, falei isso antes, e reconheço que, como fenômeno linguístico, o termo é um sucesso, já que foi adotado e se disseminou.
Como eu disse, não vou dizer que o bico do ornitorrinco não é de pato. Só me reservo o direito de apontar que, com bico de pato e cauda de castor, ornitorrinco ainda é ornitorrinco.
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Foto da Capa: Prefeitura de São Gabriel

