A elaboração deste artigo foi motivada pelo bárbaro crime ocorrido, em janeiro deste ano, em um luxuoso restaurante de Alphaville, condomínio de alto luxo situado nos municípios de Barueri e Santana de Parnaíba/SP. Crime que não foi resultado de uma tentativa de assalto, mas de um desentendimento entre conhecidos, três médicos moradores de um mesmo condomínio que tem imóveis avaliados entre R$ 3 milhões e R$ 20 milhões, muitos deles ocupados por empresários, executivos e influenciadores digitais. Alphaville abriga também uma das maiores concentrações de sedes corporativas e escritórios de alto padrão da Grande São Paulo.
O fato ocorrido não é de estranhar, pois condomínios que são tratados comumente como investidos de artificialidade e superficialidade têm, também, de acordo com notícias recentes, o aumento de crimes: primeiro com pequenas desobediências de trânsito, consumo de drogas e, finalmente, desavença entre vizinhos, como neste caso recente.
Segundo contou-me um morador de um dos núcleos murados que compõem o condomínio, na década de 1980 houve uma proposição (felizmente não aceita) de transformar Alphaville em um município para que os impostos pagos por seus moradores não fossem utilizados para manutenção pública de outras áreas que não fossem, estritamente, as do condomínio, que hoje conta com mais de 40 núcleos murados, sendo que mais de 90% dos moradores do município moram em condomínios fechados, onde o espírito é de total isolamento.
Apesar de toda essa riqueza, é curioso que quase não exista a vida social em áreas públicas e nem mesmo uma boa convivência entre os seus moradores. Poucos são os comércios de rua e, mesmo as praças, são pouco usadas, talvez por significarem local de risco: o encontro com o diferente.
Santana de Parnaíba e Alphaville são apenas o caso mais visível de um fenômeno nacional, pois, segundo uma publicação de dados do IBGE, o número de condomínios fechados no Brasil cresceu mais de 300% nas últimas duas décadas.
Santana de Parnaíba é o retrato do Brasil dos muros altos de defesa, com cidades que se protegem escondendo-se de si mesmas. Uma cidade quase invisível que está escondida atrás de muros e guardada por portões automáticos com guaritas, e com policiamento, obviamente, privado. Lá dentro há conforto, lá fora ruas silenciosas e um vazio urbano que simboliza o Brasil atual — um país cada vez mais dividido socialmente. A “cidade invisível” é mais do que uma curiosidade: em verdade, mostra o quanto o medo, a desigualdade e a busca por exclusividade moldam o espaço onde vivemos atualmente. O fato preocupante é que este padrão de moradia possa moldar o futuro de muitas outras cidades brasileiras — fragmentadas, protegidas e cada vez mais distantes do resto da sociedade.
Atualmente, a arquitetura do medo espalha-se, também, pelos espaços públicos, transformando-os em lugares com controles de acesso e extremamente vigiados, muitas vezes reservados somente a quem pode pagar para frequentá-los.
A região que abriga o bairro de Alphaville é hoje um dos territórios mais ricos e também um dos mais curiosos do país. À primeira vista, tudo parece perfeito: ruas arborizadas, condomínios com casas avaliadas em milhões de reais, escolas bilíngues, hospitais particulares e um sistema próprio de segurança 24 horas. Mas, intramuros, especialistas enxergam um modelo de urbanismo que redefine o conceito de cidade e levanta dilemas sobre convivência, desigualdade e o futuro da vida urbana no Brasil.
Em recente declaração, um servidor público disse que o impedimento do policial membro da força pública presente em todo o evento fora do restaurante onde se deu o crime deu-se em razão do medo de ele, policial, ser penalizado, caso a situação saísse fora de controle e ele precisasse agir de forma mais severa. Seria isso o resultado de um sistema social desigual no qual a razão está geralmente do lado do que tem mais poder, prestígio social e recursos para se defender, impondo medo nas classes sociais de mais baixa renda?
Mas esse nível de segurança e conforto tem um preço: o isolamento urbano, um modelo em que o espaço público e a convivência entre diferentes perdem relevância. Assim, a cidade se torna um arquipélago de condomínios fechados, em que os de dentro vivem uma realidade diferente dos que estão fora e assim, como nos diz Bauman, vão gradativamente perdendo a capacidade de negociar não somente com o diferente que está isolado do outro lado do muro, mas também com os que estão dentro. Um triunfo do medo sobre a convivência, em que o convívio entre diferentes realidades praticamente desaparece. Enganam-se os que pensam que, por pertencerem à mesma classe social, devam pensar da mesma forma e compartilhar da mesma ideologia. A discordância entre “membros de dentro” pode soar mais estranha e ameaçadora.
A antropóloga Teresa Caldeira, autora do livro “Cidade de Muros”, considera Alphaville o caso mais emblemático da “privatização do espaço urbano” na América Latina. Ela descreve esses territórios como cidades invisíveis, que mantêm distância física e simbólica do restante da metrópole.
Para muitos habitantes, essa é a troca ideal — segurança e qualidade de vida em vez de diversidade e vida pública — mas, a longo prazo, esse modelo reduz a integração social e amplia o fosso entre ricos e pobres, gerando um tipo de cidade que é ao mesmo tempo rica e fragmentada.
Para alguns especialistas, esse é um retrato do país: metrópoles marcadas pela desigualdade empurram quem pode pagar para viver dentro dos muros, enquanto o espaço público se deteriora e perde vitalidade. O resultado é um país em que cada grupo social vive em territórios distintos, sem convivência nem interação real, mostrando o quanto o medo, a desigualdade e a busca por exclusividade moldam o espaço onde vivemos.
Estima-se que mais de 11 milhões de brasileiros vivam hoje em comunidades muradas, uma tendência que reflete a busca por segurança, mas também a crise de confiança nas cidades abertas.
Os muros definem a divisão entre nós e eles, entre a ordem e o caos; é o ápice da segregação urbana. Quanto mais as pessoas permanecem num ambiente uniforme e na companhia somente de pessoas como elas, sem enfrentarem a perturbadora necessidade de traduzir diferentes universos de significado, mais provável é que desaprendam a arte de negociar universos compartilhados, esquecendo-se de adquirir as habilidades necessárias a uma vida satisfatória em meio à diferença. Assim, o estranho, “os de fora”, tende a parecer cada vez mais assustador, desconhecido e incompreensível.
Carlos Ribeiro Furtado é arquiteto formado pela UFRGS/RS com especialização em planejamento urbano e regional na USP/SP, planejamento urbano e habitacional no Bown Centrun/Rotterdam, mestrado em economia urbana na UCL/londres e doutorado na UFRGS.Tem projetos de arquitetura, nas áreas comercial, industrial e residencial e Intervenções urbanas na instalação de hidroelétricas, mineração, recuperação urbana e loteamentos. Intervencoes de reassentamento habitacional em áreas rurais de várias cidades do Brasil.
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Foto da Capa: Alphaville - São Paulo / Marinelson Almeida / Wikipedia

