Nós, pretensos cientistas no Brasil e pelo mundo afora, não somos imunes a dizer bobagens, às vezes muito graves (haja vista o poder de formação de opinião de que dispomos). Mas se somos cientistas de verdade, espera-se que tenhamos um mínimo de zelo pela transparência do processo de geração do conhecimento, e sobretudo tentemos honestamente lutar pelo respeito aos Dez Mandamentos do Cientista, e pela evitação dos Sete Pecados Capitais na Academia. Para além (ou aquém) do nosso usual raciocínio lógico-argumentativo, recorro aqui ao proselitismo catequético, destinado, como leitura obrigatória, a meus jovens discípulos graduandos e pós-graduandos, sobre os quais me resta, ainda, algum poder de impingir textos supostamente formativos.
Em primeira instância, a nossa Tábua da Lei Pós-Mosaica, dedicada a discípulos e confrades na academia:
1. Não falsificarás dados de pesquisa deliberadamente (mais ou menos equivalente ao “não matarás” judaico-cristão…).
2. Não roubarás dados do colega (parecido com o “não desejarás a mulher do próximo”, nessa mesma tradição…).
3. Corolário A de 2. Não roubarás dados de menores de idade – alunos e orientandos em geral.
4. Corolário B de 2.: Não copiarás textos de terceiros (nem os teus próprios) sem a devida referência.
5. Não transformarás teu laboratório num bordel, onde o conflito de interesses seja transmutado em ação entre amigos – notadamente nos pareceres em artigos científicos dos chamados pares.
6. Corolário A de 5: Respeitarás, acima das demais conveniências, a centralidade da busca da melhor verdade provisória possível.
7. Corolário B de 5: Buscarás discernir os Bezerros de Ouro e os Falsos Brilhantes da Academia dos valores que contam – de nada adianta publicar (toneladas de banalidades) por obediência a bezerros produtivistas e modistas. Fugirás da mediocridade bem-remunerada.
8. Jamais perderás de vista que, além do compromisso da ciência em produzir conhecimento, a ciência presta conta a demandas societárias públicas e valores como a ética, o respeito à cidadania e aos direitos humanos e o respeito à democracia republicana como organização política necessária para o fazer científico.
9. Corolário A de 8: Zelarás todo o tempo pelas três atitudes do cientista – na labuta de pesquisa e na formação de novos cientistas: independência de pensamento, livre desenvolvimento da pesquisa, inteira liberdade de expressão (cf. diretrizes expressas nas Missions du Service Public de l’Enseignement Supérieur– França).
10. Não cederás à vaidade e à veleidade de uma nossa suposta superioridade de PhDeuses – nosso mérito passa necessariamente pela compreensão e apreço por nosso trabalho, pelo qual podemos e devemos nos orgulhar. Muitos de nós trabalharão décadas em nossos laboratórios em completo silêncio midiático; muitos de nós sacrificaremos a privacidade e o justo usufruto do ócio contemplativo pelo cumprimento de metas impostas ; muitos de nós somos de fatos mais um segmento do conjunto de trabalhadores submetidos aos ditames tayloristas do trabalho sequestrado de seu sentido mais produtivo. Mas ainda assim temos o justo apreço pelo que fazemos e pelo que somos. Não ficarás aquém e nem além disso.
Uma vez entregue a Tábua das Leis e Princípios Recomendados, passemos aos Sete Pecados Capitais a evitar, aqueles caminhos de danação da alma:
[1] GULA: do latim gula, é o desejo insaciável por abarcar tópicos demais e ler sempre mais um artigo, encomendar mais um livro na Amazon Books. É combatido pela Temperança, pelo foco na linha de pesquisa que está escrita em Lattes devidamente atualizado.
[2] AVAREZA: do latim avaritia, é o apego excessivo e descontrolado pela quantidade, em detrimento da qualidade. O avarento não abre mão de acumular muito salame fatiado, ao invés de conquistar e se contentar com uma pequena porção de material de impacto honesto.
[3] LUXÚRIA: Ih!… Do latim libidine, diz respeito ao desejo incontrolado pelo prazer corporal, dirigido, em escala de gravidade pecaminosa ascendente, a colegas de departamento (pecado venial), orientandos (mortal) e alunos de graduação (inferno direto de cabeça para baixo, depois do devido procedimento administrativo conduzido pelas instâncias acadêmico-institucionais).
[4] IRA: Conhecido também como cólera, é sobejamente conhecido por gestores acadêmicos quando ousam desclassificar projetos de vacas sagradas. Ou por coordenadores de programas de pós-graduação, quando reclamam acidamente dos colegas em tempos de coleta Capes-Sucupira…
[5] INVEJA: do latim invidia, se traduz pela sensação de angústia, ódio e mal-humor sempre que o colega publica em revista internacional com alto impacto.
[6] PREGUIÇA (frequentemente associável à PROCRASTINAÇÃO): do latim priguitia, ocorre sempre no início das jornadas de trabalho, desencadeadas pelo primeiro caneco de café e/ou primeiro cigarro, ao qual se seguem incursões pelos Insta, Facebook, Zap, Twitter, tomada de posição quanto ao derradeiro auê em pauta, quanto ao sentido da vida e nova dieta, revisão de texto sobre os sete pecados capitais na academia, até que a manhã finalmente termine.
[7] VAIDADE (do latim vanitas) ou SOBERBA (do latim superbia), está associado ao orgulho, arrogância; tão grave e frequente na academia e fora dela, segundo São Tomás de Aquino, que deveria receber atenção especial, por ser “(…) locomotiva (…) capaz de levar consigo os outros vagões”. Diz-se que, na academia, vaidade é como sandália havaiana: todos têm, e de preferência num tamanho maior que o pé. Diz-se ainda que pesquisador sem vaidade é aquele que caiu na vala comum da dedicação desapegada às aulas na graduação (pura maldade, mas com algum fundamento).
Enfim: contra dados de pesquisa e conhecimentos estabelecidos , o caminho são outros dados de pesquisa alternativos, e não fake news e fake theories. Isso garante alguma satisfação não propriamente salvífica, mas antídoto suficiente contra a mediocridade e a má-fé dos que queimarão nos sete Círculos do Inferno de Dante para todo o sempre.

Inferno
Ponha a mão na consciência e peça vênia a Jean-Paul Sartre: não são sempre os outros. A não ser quando arrombam sua porta. É a pereba de sua existência, sua danação já aqui.
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Foto da Capa: Mais antiga "Tábua dos 10 mandamentos" - Reprodução do Youtube

