Ainda bem que, mesmo com o passar do tempo, eu não perdi a vontade de aprender.
Acredito mesmo que todos os dias tem algo que se soma ao que já temos de experiência ou conhecimento.
E, por isso, fora da vida profissional (em relação à qual eu ainda procuro manter essa dedicação), eu continuo tentando entender a vida de uma forma mais amena e poética.
Apareceu uma oportunidade e inscrevi-me em um minicurso de poesia.
Está sendo uma experiência excelente.
A primeira aula já me trouxe muita coisa que quero colocar em prática.
A mais interessante delas até agora foi entender uma técnica que eu conhecia de alguma forma, mas que não compreendia como algo que é tão de dentro de nós que, talvez por isso mesmo, nos provoca tão profundamente.
Chama-se estranhamento.
Aprendendo um pouquinho sobre isso, consegui entender de uma maneira mais clara porque fui tomada pela necessidade de terminar com rapidez a leitura de “A metamorfose”, de Kafka, ou porque queria tanto ler “As intermitências da morte”, de Saramago.
Ambas as leituras me provocaram a seguir adiante, justamente porque eu queria entender o que aqueles avessos de normalidade teriam a dizer ao final.
Eu não sou daquelas que leem o final da história para saber se querem saber o início dela.
Eu leio em sequência, mas ansiando pelo final.
Mas, até o momento de ouvir o professor falar, de forma tão clara e simples, sobre o quanto o estranhamento é uma fonte para extrairmos poesia das coisas ao nosso redor ou até de nós mesmos, não sabia o porquê de querer devorar um livro ou assistir com ansiedade pelo final de uma série que me incomoda de alguma forma que nem eu sei o porquê.
Acho que a estranheza que se revela nas páginas escritas ou nas imagens e sons que fazem o cinema/streamings circula fortemente pelas minhas próprias incertezas e cutuca meu ambiente interno.
Imaginar a morte que não chega, mesmo que a morte seja sempre algo tão doloroso de encarar, é estranho para o meu pensamento.
Assim como ler que uma pessoa dedicada a tantos, menos a si mesma, torna-se um inseto e, a partir disso, passa a ser objeto de nojo e desejo de extinção, fere a pureza que ainda existe (meio escondida) em mim.
Mas, de fato, mais do que tudo, me instiga.
Me conduz a confirmar que, nos meus cadernos do dia a dia, até uma página rasgada ou manchada de lágrima vai, em um futuro qualquer, me revelar os estranhos ensinamentos que senti.
Justamente por reconhecer que eles existem e que são a parte de mim que me provoca a seguir adiante.
Mildred Lima Pitman - sou Mulher, Mãe, Advogada. E agora, na maturidade, venho buscando, por meio da escrita, uma melhor versão de mim mesma.
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Foto da Capa: Freepik

