Como é óbvio para vocês que já acessaram o link desta coluna, me chamo Carlos André, uma combinação que usa dois nomes bastante comuns (segundo o IBGE, Carlos é o sexto nome masculino mais comum no Brasil, enquanto André é o 27º) para criar um nome composto que não é raro, mas também não é tão comum quanto outras variações envolvendo ambas as denominações, como Luis Carlos, Carlos Alberto, Carlos Eduardo, Luis André, André Luís etc. Nunca conheci pessoalmente outro Carlos André (embora tenha sido colega na faculdade de uma Carla Andréa), mas já recebi como resultado de algumas egosearches no Google a informação de que existem outros “Carlos André Moreira” espalhados pelo Brasil: um professor de História em Montes Claros (MG); um técnico em eletrotécnica em Curvelo (MG); um tatuador em Betim (MG – chego à conclusão de que “Carlos André” deve ser um nome mais popular em Minas do que aqui); um contador residente no Rio e vinculado à Ancine.
Logo, não sou imune, como ninguém é, à surpresa de topar com um ou mais homônimos aqui ou ali. A experiência, contudo, que acho verdadeiramente curiosa, porque nunca tive essa oportunidade, é a de ser homônimo de alguma coisa ou objeto.
Guilhotinas e boicotes
São vários os casos de objetos do mundo concreto nomeados em homenagem a um nome próprio, quase sempre uma referência ao criador/descobridor/objeto de interesse do termo em questão. É algo muito comum no mundo da culinária, por exemplo, em que o sanduíche ganhou seu nome por supostamente ser a comida que John Montagu (1718-1792), o quarto Conde de Sandwich, mandava trazer à mesa de carteado para não perder tempo de jogatina com as complicadas refeições completas das casas nobres do século XVIII, ou o estrogonofe, cuja origem tem várias versões envolvendo a nobre família russa Stroganov.
Há outros casos longe do mundo da mesa, contudo, como a guilhotina, que ganhou o nome de seu idealizador, o médico Joseph-Ignace Guillotin, que a propôs no Parlamento francês como uma forma “científica” e humanitária de cortar a cabeça dos condenados, já que carrascos bêbados tinham o hábito de errar o golpe do machado, provocando um espetáculo grotesco de dor e sangue.
Até o hoje muito mencionado “boicote”, evocado à esquerda e à direita para tentar aplicar uma sanção econômica a percebidas transgressões ideológicas, é um nome vinculado a uma figura histórica, um tal Charles Cunningham Boycott, agente de terras britânico que administrava com mão de ferro as terras de um nobre na Irlanda. Sua recusa em amenizar as cobranças e condições de vários camponeses passando por dificuldades, pelo contrário, insistindo em ordens de despejo, foi alvo de uma campanha de mobilização pela Liga Nacional Irlandesa da Terra conclamando que todos os contratados e subordinados de Boycott se recusassem a fazer a colheita nas terras administradas por ele – a campanha também se estendeu a lojas que se recusavam a atendê-lo, fosse por adesão voluntária à causa seja pela coerção dos ativistas.
Boycott tornou a campanha pública escrevendo para o jornal The Times em 1880 uma carta na qual narrava as intimidações que vinha sofrendo. Sendo a imprensa o capacho habitual do poder que sempre foi, a campanha foi retratada como um ultraje a um “par da Inglaterra”. Devido à repercussão do caso, o governo inglês forçou a colheita na marra, mandando para o território o exército para fazer o trabalho e garantir a segurança e o transporte da colheita. Segundo a historiadora Joyce Marlow, a Inglaterra gastou 10 mil libras da época (algo como um milhão e um tanto hoje) em uma operação para salvar uma colheita avaliada em 500 libras (umas 65 mil libras hoje em dia). Além do legado do episódio para a luta fundiária internacional, o caso também nos deixou a palavra “boicote”.
Patrícias e Maurícios
Mas eu aqui neste texto não estou falando desse tipo de homonímia, o de um personagem que gera um termo de uso corrente com significado de outra coisa. Falo é dos casos em que você tem um nome comum que também é historicamente usado para denominar outra coisa – e que, assim, tem até outro nome técnico, eponimia.
O saudoso Moacyr Scliar tinha como seção eventual em suas crônicas de imprensa a lista dos “nomes que condicionam destinos”, nos quais prenomes e sobrenomes pareciam sugerir o caminho futuro pessoal ou profissional daqueles que os ostentavam – o Nilson Souza, numa crônica relembrando o Scliar, dá dois exemplos: um médico chamado Fernando Cura e uma cabeleireira chamada Leda Penteado. Leitores gostavam da brincadeira e escreviam para sugerir outros. Eu mesmo me lembro de sugerir a Scliar na redação de ZH uma menção a um médico urologista chamado Doutor Rabon, urologista, mas Scliar rejeitou a ideia por achar que – e sendo ele próprio médico, tive que reconhecer sua autoridade na matéria – a brincadeira só faria sentido se o doutor fosse um proctologista.
Para além dos nomes que condicionam destinos, há também os nomes com os quais gente que não tinha nada que ver com o assunto acabou compartilhando destinos – por muito ou pouco tempo.
Um caso que me vem à cabeça assim sem preparação ou pesquisa é o de Benjamin, nome próprio de origem hebraica (não à toa Bibi, o horrendo e criminoso genocida que hoje preside Israel, atende pelo equivalente judaico do prenome, “Bīnyāmīn“). Já achei várias versões etimológicas para a origem do nome tanto na internet quanto nessa coisa antiga que ainda uso, que são livros de papel: “filho da mão direita”, “filho da felicidade”, “filho preferido ou mais amado” – esse significado, aliás, está expresso no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de Antônio Geraldo da Cunha.
Encontrei em um ou outro site uma referência ao fato de que em hebraico a origem de Benjamin viria de um termo significando “junção”, o que explicaria por que também chamamos de “Benjamin” aquele dispositivo de conexão elétrica também conhecido por “Tê” ou “Extensão” em alguns casos – principalmente no Sudeste. Não sei dizer se é essa razão verdadeira porque não falo hebraico – se algum dos meus cinco ou seis leitores falar e, preste atenção, esta parte é importante, não for apoiador de Bibi, o perverso, e suas ações, pode mandar um e-mail comentando.
Lembram também quando havia um casal de termos muito específicos para se referir à gente jovem e sem noção integrante da elite social e financeira do país, Patricinhas e Mauricinhos? Aparentemente, “Patricinha” surgiu primeiro, com nome e endereço, a socialite carioca Patrícia Leal – chamada assim constantemente pelo colunista Zózimo Barroso do Amaral. “Mauricinho” é uma criação atribuída ao humorista Bussunda para satirizar um suposto colega de faculdade de jornalismo que, no meio do desmazelo natural da profissão, só usava roupas e mochilas de marca. Eu me lembro, de fato, do Casseta & Planeta usando muito o termo Mauricinho tanto nas publicações impressas quanto em seu posterior programa de humor na Globo, mas não tenho informação para cravar com certeza se essa história é real ou mito.
Conclusões apressadas
O que me lembro é que o termo “mauricinho” me provocou uma saia justa na qual me vi envolvido por pura inocência. Quando eu morava na Casa do Estudante na UFRGS, entre os anos 1993 e 1996, em parte desse período dividi o quarto com um estudante de Medicina chamado Marcelo. Mais de uma vez eu o ouvi comentar que ia sair para uma festa com um de seus colegas, a quem ele chamava de Mauricinho – eu estava presente mais de uma vez quando o ouvi chamando o cara assim, então deduzi, muito naturalmente, que o nome do sujeito era Maurício. Um dia, eu, na espera do elevador, o amigo do meu colega chega e, por educação, o cumprimento com um simpático “E aí, Maurício, tudo bem?” Ao que recebo um mal-humorado e meio agressivo “Maurício daonde, meu? Meu nome é… (sei lá qual era o nome, faz tanto tempo que me esqueci). Indignado, vermelho, veia saltando na testa, o sujeito simplesmente desistiu do elevador e subiu a escada.
Subi para o quarto e, encontrando lá o meu colega, inquiri sobre aquele episódio para mim meio surreal, ao que ouvi Marcelo contar, entre frouxos de riso, que o Mauricinho não se chamava Maurício, era o pessoal da turma deles na Medicina que o chamava assim porque ele andava sempre muito arrumado, e ele claramente detestava, mas não estourava com os colegas, e sim com outros otários desavisados que embarcassem no equívoco, como eu. Duas boas lições foram tiradas naquele dia e as levei pela vida afora: não tirar conclusões sem comprovação e não cumprimentar ninguém a não ser em resposta.
Patricinha parece ter começado como uma degradante puxação de saco de um colunista às socialites cariocas, mas quando surgiu seu acompanhante “mauricinho”, ambos os termos já haviam sofrido a metamorfose definitiva em apelidos derrogatórios e pejorativos voltados a um tipo de jovem classe alta de cabeça vazia e interesses superficiais – o que não deixa de ser irônico, já que quase 40 anos depois o panorama das redes sociais transformou esse tipo mesmo de personagem, agora já sem o apelido, em uma espécie de padrão das plataformas.
No quesito “como o meu nome acabou batizando uma coisa dessas”, aqui no Rio Grande é também muito comum o uso do termo “miguelito” para denominar itens metálicos perfurantes, normalmente feitos de pregos retorcidos e entrelaçados, que são atirados nas estradas para provocar o estouro de um ou mais pneus, forçando a parada do motorista e facilitando o subsequente assalto. Não fiz pesquisa de datação ou nada do gênero (este texto é uma crônica humorística tentando encontrar um norte em pleno Carnaval, relevem), mas me lembro que ouvi essa acepção do termo pela primeira vez quando era repórter de polícia. Na mesma época, aliás, também trabalhava na mesma rede que eu o Miguelito Medeiros, a quem devo ter aporrinhado uma ou duas vezes perguntando se o “furo” mais recente da carreira dele era de reportagem ou de pneu. Desculpa aí, Miguelito.
O trauma de uma geração
E claro, temos o caso emblemático que traumatizou uma geração, o da campanha sem noção do Ministério da Saúde em 1995 na qual um homem aleatório (curiosamente, muito parecido com o visual da moda entre os jovens de hoje, camiseta regata, bigodinho de malandro) mantinha, em três vídeos, conversas diferentes tentando explicar a importância do uso da camisinha para o seu… bom, não tem outro jeito de dizer, vamos lá, pênis. A “ferramenta” não apenas tinha voz no comercial, como atendia pelo nome singelo de “Bráulio“. Isso mesmo, Bráulio, um nome que, embora não completamente absurdo como nomes mais antigos como Epaminondas ou Austregésilo, parecia raro o bastante para desagradar pouca gente. Ledo (aliás, como dizia o professor Fischer: Ledo Ivo) engano. Muitos cidadãos chamados Bráulio ingressaram na Justiça pedindo a suspensão do anúncio. Os que eram mais novos e em idade escolar tiveram uma temporada prolongada no inferno do bullying.
Com o barulho, o que menos se discutiu foi a mensagem da campanha, que era, naquela época e até hoje, muito “necessária” para usar o termo em seu contexto certo e canônico e não nesse da ensebação lacradora contemporânea. Eu cresci em uma época em que havia uma recusa masculina muito forte ao uso da camisinha (“isso é chupar bala com papel” era uma expressão que ouvi muito dita por meu pai e outros homens de sua geração quando o papo chegava nesse tópico). Todos os anos eram necessárias campanhas como aquela para tentar explicar aos homens reticentes o óbvio em tempos de escalada da AIDS – algumas foram até boas, mas a maioria hoje parece um filme de terror, resultando mais no alheamento e na marginalização dos infectados. Essa até ia para um caminho certo, nesse sentido, mas a repercussão negativa a torpedeou.
E sabe o que mais me impressiona ao relembrar desse fato? Com toda essa polêmica pelos motivos errados, “Bráulio” era um nome tão ruim para o… bem, instrumento, que caída a propaganda no esquecimento, sequer “pegou” como um apelido real para o… bem, vocês sabem.
Sabe aquela pesquisa que eu já citei aqui duas vezes neste texto dos nomes do IBGE? Se você for lá e procurar “Bráulio” (AQUI), vai ver que o nome, que nunca foi lá dos mais populares na nomenclatura brasileira, vinha ainda assim ganhando gradativa e consistente popularidade ao longo das décadas, numa curva ascendente que sofre uma interrupção abrupta a partir dos anos 1990. De 1730 nascidos e registrados com esse nome na década de 1980, encerrou-se a década de 1990 com 723, e uma nova queda na década de 2000, com apenas 92 registros. A propaganda não apenas abriu o flanco para a zoeira ampla e irrestrita com toda uma gama de gente que ostenta esse nome (um salve ao escritor Bráulio Tavares, aliás, um dos grandes nomes da literatura fantástica no Brasil), como, sozinha, com a força da ideia de jerico de um publicitário (perdão pelo pleonasmo), quase extinguiu o nome entre os brasileiros na década seguinte.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Ministério da Saúde

