Pode ser um preciosismo chato. E acho, até, que já escrevi sobre o assunto aqui. Mas uma coisa que me incomoda é o uso dos pronomes demonstrativos este, esse, aquele. Quando leio ou ouço alguém escrever, dizer, esse país para se referir ao Brasil, fico em dúvida. De onde, de que lugar ele está falando?
Se estivesse falando daqui mesmo, diria este país. Pelo menos, aprendi lá no século passado – bem lá – que quando alguém se refere a alguma coisa, algum lugar, alguma pessoa próxima de si, deve usar este, esta.
Quando a referência é para alguém ou algo próximo do interlocutor, o pronome correto – diziam minhas professoras e professores de português – a ser usado é esse, essa. Agora, se a referência estiver distante de quem fala ou escreve e de quem ouve ou lê, o demonstrativo correto é aquele, aquela.
Eu até dou um desconto quando o discurso ou artigo é de alguns governantes, políticos com mandatos e candidatas e candidatos. Afinal, elas e eles vivem num país diferente do nosso, pobres e mortais eleitores.
Na vida deles, o salário não atrasa nunca, o carro está sempre de tanque cheio, não precisa chamar o motorista, têm passagens aéreas e estadia pagas com o dinheiro deste Brasil (que sai do seu bolso na forma de impostos) para visitar esse lugar onde você vive e vota e, melhor que tudo, têm estabilidade de quatro anos que pode ser estendida indefinidamente quando são vereadores, deputados e senadores e até 8 anos para prefeitos, governadores e o presidente da República.
Estabilidade, essa, que só você pode quebrar deixando de votar nesses que se referem a este Brasil ainda tão desigual como esse país…
Vivendo naquele lugar maravilhoso – onde só precisam se preocupar com jornalistas xeretas e policiais metidos – por que eles se preocupariam com este país onde vivemos com medo do desemprego, da demissão, da falta de escola – nem digo boa escola – para as crianças, do assalto na esquina e até da tentativa de golpe daqueles que elegemos para governar democraticamente este país?
Então, eles se referem ao país de todos nós como esse Brasil, que eles enxergam de longe e prometem mudar “tudo isso que está aí… “
Mas, este ano, a gente pode trocar esses políticos que nos olham de longe, por outros que vivam aqui neste Brasil. Preste atenção nos discursos. O uso que eles fazem dos demonstrativos não demonstra falha no aprendizado do português, desmascara o descaso com que tratam estes que os elegem… Será o inconsciente traindo?
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Foto da Capa: Gerada por IA.

