Começar a viagem por Tóquio e encerrá-la em Osaka teve algo de curva dramática. Não foi apenas uma mudança geográfica; foi uma mudança de atmosfera. Ainda que todas as cidades japonesas ofereçam tecnologia suficiente para que qualquer visitante se mova com relativa autonomia, tive a sensação curiosa de que a dificuldade aumentava à medida que avançávamos pelo território.
Tóquio, paradoxalmente a mais complexa, é também a mais generosa com o estrangeiro. Seus inúmeros distritos, suas linhas sobrepostas de metrô, trem e ônibus, tudo parece funcionar como uma engrenagem perfeitamente sinalizada — quase sempre com traduções em inglês que nos acolhem como quem diz: “não se preocupe, você chega”. Já Quioto exige mais paciência. Depende mais de ônibus, e a clareza nem sempre é imediata. Mas bastava abrir o mapa no celular e ensaiar um pedido de ajuda para que alguém, mesmo sem falar inglês, se desdobrasse em gestos e gentilezas. Há uma delicadeza persistente no Japão que independe da língua.
Em Osaka, porém, algo muda. Predomina o turismo oriental. O ritmo parece outro. A cidade que abriga o imenso Aeroporto Internacional de Kansai — porta de saída para nós — exibe com orgulho sua recuperação econômica. A aposta é clara: mergulhar de vez na oferta de um “Japão gastronômico e festivo”. É ali, entre letreiros, aromas e multidões, que se percebe com mais nitidez a força comercial que atravessa a sociedade local.
Abro um parêntese — daqueles que toda viagem pede.
Estando em Osaka, é perfeitamente possível fazer um bate-volta até Hiroshima e Miyajima. Mesmo a mais de 300 quilômetros, o trem de alta velocidade nos entrega ao destino em menos de duas horas. E ali, no oeste do Japão, às vésperas do recesso de ano-novo, vimos o poder do turismo oriental. Quase não se notavam ocidentais em pontos turísticos.
Visitar o Parque Memorial da Paz de Hiroshima é uma experiência que ultrapassa o turismo. É uma convocação silenciosa. Entre o museu, de valor simbólico, e o parque — marco zero da explosão — há uma beleza que não deveria existir, mas existe. O antigo Genbaku Dome, preservado em ruínas, sustenta sua cúpula ferida enquanto pássaros pousam sobre ela. A cena é de uma delicadeza quase cruel: natureza e memória dividindo o mesmo enquadramento. Saí de lá com a sensação de que há lugares que nos obrigam a recalibrar o olhar.
Miyajima é outra vibração. O icônico Santuário Itsukushima e seu portal vermelho parecem flutuar sobre a água como uma pintura em movimento. A travessia de ferry é curta, mas a paisagem — montanhas dominando o horizonte — amplia o tempo. No pequeno povoado de arquitetura tradicional, frutos do mar e doces locais acompanham a caminhada até o templo. Cervos circulam entre turistas com uma serenidade desconcertante. Observam-nos como se soubessem algo que esquecemos: desacelerar.
Talvez por essa atmosfera, pela primeira vez, parei para traduzir, com o Google Lens, as mensagens deixadas nas ema — pequenas placas de madeira onde visitantes escrevem seus desejos. Impressionou-me que a maioria pedia pela continuidade da paz entre Japão e China, pela irmandade. Num mundo em que líderes inflam discursos bélicos, pessoas comuns seguem pedindo o básico: paz. A história se repete e ainda não temos claro como ampliar a resistência pacifista.
Volto a Osaka.
Se em outros textos mencionei a força da cultura comercial japonesa — esse estímulo permanente ao pequeno comércio que mantém as ruas vivas — foi em Osaka que a sensação atingiu seu auge. A cidade saiu de crises apostando na requalificação urbana, na atração de turismo e no incentivo à inovação tecnológica. Diversificou, investiu, promoveu eventos. Deu certo. É reconhecida por sua gastronomia vibrante e ambiente acolhedor.
Mas há um outro lado.
A região de Dotonbori é quase uma metáfora urbana do consumismo contemporâneo e de um mundo instagramável. Letreiros gigantes, ruas cobertas, fluxo contínuo de gente. Entre eles, o famoso Glico Running Man — o corredor de braços erguidos que virou símbolo da recuperação econômica local e, ao mesmo tempo, ponto obrigatório para a foto postada nas redes. Caminhar ali é experimentar o cansaço que só as multidões eufóricas em zonas comerciais produzem. Confesso: depois de meia hora, minha energia começa a se esgotar. Ainda assim, saí com pequenas compras — roupas e cosméticos a preços muito inferiores aos do Brasil. Minha alma de urbanista precisou reconhecer: ao menos ali, – diferente dos shoppings – a concorrência acontece na rua, alimentando a vitalidade e segurança do espaço público da cidade.
Tanto em Osaka quanto em Tóquio, ficou evidente outra contradição: é possível sentir-se profundamente só no meio da multidão.
Chamou-me atenção a quantidade de jovens caracterizadas como personagens de anime, convidando homens para cafés, como o tradicional Maid Café. Vestidas com fantasias delicadas e chamativas, oferecem conversa, risadas e pequenas encenações. Não há promessa de sexo — uma das regras é justamente não tocar nas garotas. Obviamente, não frequentei nenhum, mas a repetição da cena nas ruas despertou minha curiosidade e minha alma de pesquisadora foi atrás de informação. Em um país onde a reserva social é quase regra, aquelas jovens sorrindo e chamando clientes pareciam uma inversão da norma.
Há também versões “familiares” destes cafés, por exemplo, oferecendo animais — gatos, cachorros, até lontras — onde se paga para ter direito ao contato. Em cidades densas, de apartamentos compactos, olhares mergulhados em celulares e ritmo acelerado, talvez falte o que aqui ainda consideramos banal: espaço, convivência espontânea e afeto.
E então penso no Brasil.
Se conseguíssemos combinar nossa abundância de conexão humana e contato cotidiano com animais e vizinhos com infraestrutura básica — água, esgoto, coleta de lixo — talvez estivéssemos diante de uma equação invejável. Aqui no Brasil, 4 de cada 10 moradias têm problemas de inadequação.
Entre um extremo e outro, sigo viajando — tentando entender que tipo de cidade, afinal, queremos construir.
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Foto da Capa: Glico Running Man / Reprodução de Redes Sociais

