Quando os anos 60 fecharam, com o fim da era Beatle, uma semente fora plantada: tudo poderia ser experimentado na música, desde que com criatividade e alma. E não importava o discurso, o importante seria a fantasia de que, em acordes, a tal revolução venceria com as armas da tolerância. Um de seus representantes poderia, inclusive, se autoproclamar Príncipe das Trevas. Assim era Ozzy Osbourne, que ao compartilhar um personagem único, que misturava euforia e alguma melancolia existencial, inaugurou não apenas um novo estilo de música, mas fez a gurizada da época canalizar a rebeldia em canções de peso instrumental.
“Se você contar uma piada, eu suspiro. Aí você ri e eu choro. Felicidade! Não consigo te perceber. O amor, para mim, segue tão irreal...” Versos duros do menestrel roqueiro Ozzy, na canção Paranoid. Mas que abriram os olhos, alertaram para a constatação de que, decididamente, não estamos sozinhos. E precisamos ajudar uns aos outros. Em seu último show, em Birmingham, sua terra natal, Ozzy disse adeus arrecadando US$190 milhões para ações de caridade.
Sabe aqueles dias ruins? Estresse no trabalho, a pauta que furou, o editor que cobrou uma matéria quase impossível e o entrevistado que fugiu das perguntas com respostas evasivas? No meu caso, quando chegava em casa, colocava a rodar um Black Sabbath no toca-discos. Era a minha sessão de descarrego das coisas ruins. Ozzy alimentou seu personagem com tanto ardor que chegou a ser convidado a participar de cultos satânicos. Claro que recusou. Ele era do bem, tanto que mordeu um morcego no palco, achando que era de plástico. De um fã das trevas ninguém está livre.
Seu parceiro de banda, o guitarrista Tony Iommi, embora sem os mesmos problemas de bebida e drogas, também passou por momentos difíceis antes do sucesso. Trabalhava numa fábrica e, ao substituir um colega, teve decepadas as pontas dos dedos anelar e médio da mão direita, por uma guilhotina que cortava placas de aço. Estaria condenado para a música? Pois ele mesmo improvisou próteses que o levaram à consagração como guitarrista.
O acidente o fez criar um jeito único de tocar e de tirar o som que, com o tempo, passou a se chamar Heavy Metal. Quem disse que tudo vem de graça nessa vida? E, ao contrário do marketing das trevas criado por Ozzy, anjos muito bons os protegiam. Por isso, mesmo achando que poderia ter vivido mais, Ozzy cumpriu sua missão. Foi um sonhador por dias melhores, como diz a canção que escreveu inspirado em John Lennon, “Dreamer“. Aliás, vale muito ouvi-la agora, definitivamente, como um verdadeiro réquiem.
Ari Teixeira é porto-alegrense, formado em Comunicação Social pela PUC/FAMECOS. Iniciou sua carreira nos jornais da extinta Caldas Júnior - Folha da Manhã e Folha da Tarde - posteriormente Zero Hora e freelancer para os jornais Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e outros. Atuou também em assessorias de comunicação do Governo do Estado e na Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Recentemente participou da coletânea "Crônicas para ler com calma!, da Editora Escuna.
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