Costumava me chamar de “Pai Kekerê”! Só depois tomei ciência de que babakekerê é a pessoa que assume o comando do terreiro na ausência do Babalorixá. Isso me deu uma noção mais precisa de quanta estima ele tinha por mim.
Cláudio Bispo, ou Claudinho, como era carinhosamente chamado por todos nós, foi meu aluno no mestrado profissional em filosofia, núcleo da Universidade Federal de Pernambuco. Eu costumava falar que ele era um combo de preconceito: negro, gay, gordo e homem de terreiro.
Desdenhava do dito. Não que não o incomodasse. Porém, pelo fato de ser um guerreiro, de afrontar todo e qualquer preconceito e de lutar incansavelmente contra todos eles. A primeira vez que esteve comigo, buscou informar-se do processo seletivo da pós-graduação. Eu estava saindo da sala da coordenação para ministrar aula. Pedi que esperasse e ficasse à vontade, que em meu retorno poderíamos conversar. Obedeceu ao que eu recomendei. Muito ansioso, comeu todos os biscoitos que havia para o lanche dos mestrandos nas aulas seguintes. Sorrimos muito do acontecido.
Era um sujeito alegre, crítico, proativo. Seu excesso de gordura não o impedia de fazer nada, nem de pular horas seguidas no carnaval de Salvador, tão apreciado por ele. Todos se dispunham a ajudá-lo porque era uma pessoa agradabilíssima. Parecia uma pajé nos intervalos e horários de refeição quando designava qual colega iria descer os quinze andares do Centro de Filosofia para fazer a compra de sua refeição.
Teve uma infância marcada pela carência material e pelo preconceito. Dizem os amigos que foi sempre uma pessoa muito terna. Mas, como conversam alguns, a vida não deu moleza para ele. Um lutador pertinaz, desde sempre. Um militante decidido. Era um admirador incontestável dos bispos católicos Dom Hélder, Dom Pedro Casaldáliga e Dom José Maria Pires. Tinha grande veneração por Irmã Dulce dos Pobres, mesmo sendo, convictamente, um homem de terreiro.
Professor da Escola Estadual Jornalista Paulo Costa, em Aracaju/SE, José Cláudio Bispo, realizou seu mestrado em sintonia com sua luta pelos direitos, a dignidade e o respeito, produzindo uma dissertação sobre “O ensino de filosofia na perspectiva da afroperspectividade”. O trabalho abordou a identidade da filosofia africana, levando o propósito de favorecer uma aprendizagem que tinha como base o filosofar no ensino médio. Quis analisar as propostas de educação em relação à presença de temas étnico-raciais do ensino de filosofia referente à lei 10.639/2003, na questão da promoção do ensino da história e cultura afro-brasileira, oferecida pela rede estadual de Sergipe.
Preocupado com o crescente aumento do racismo, que historicamente está presente na sociedade brasileira, considerava que o espaço escolar deveria ser, no contexto da humanização, um ambiente de equidade étnico-racial. Pois, na maioria das vezes, nas suas relações sociais, carrega práticas racistas no ensino e na aprendizagem, onde ocorre a construção da identidade do aluno. Acreditava ser muito importante averiguar a filosofia africana para mostrar como a mesma é capaz de proporcionar a descolonização epistêmica da atividade filosófica. Assim, para ele, o campo da afroperspectividade representou uma alternativa de empoderamento dentro da sala de aula na construção da subjetividade do aluno, no reconhecimento da sua identidade étnico-racial e na descolonização de uma mente eurocêntrica e colonialista. Para tanto, explorou o pensamento de três afros diásporos sergipanos: Maria Beatriz Nascimento, Raymundo Souza Dantas e Severo D’Acelino, pela equidade étnico-racial na proposta do ensino de filosofia afroperspectivista.
José Cláudio se referia à cultura afrodescendente, focando uma cultura que foi repassada por nossos ancestrais trazidos do continente africano de forma brutal, no contexto de colonização. Segundo José Cláudio, ao abordar a África, um continente com mais de 30 milhões de quilômetros quadrados, é importante considerar que dentro desse território existem dezenas de países e diversos povos com culturas e línguas singulares. O berço da humanidade está na África, um lugar da origem de nossa ancestralidade brasileira, por isso, é relevante citar os povos africanos que participaram da formação do brasileiro, como: Congoleses, Bantos, Malês, Sudaneses, Iorubás e Hauçás.
A sociedade brasileira, de maneira geral, produziu o preconceito velado que existe contra os descendentes africanos que tiveram e têm uma significativa importância na construção de nosso país. Não obstante, a Constituição do Brasil de 1988 estabeleceu a democratização das relações sociais, determinando que é objetivo fundamental da República. A aprovação da Lei 10.639/2003 não foi suficiente para a construção de uma sociedade mais justa e isenta de todas as formas de preconceito, sendo imprescindível a participação de todos no combate à discriminação e na valorização das relações étnico-raciais.
Claudinho questionou que democracia é essa na qual terreiros de religiões de matrizes africanas são destruídos, ocorre genocídio de jovens negros nas periferias das cidades, há salários baixos para as mulheres negras e abandono nas políticas de saúde para os negros. A máxima de que o Brasil é um país que convive em paz com todas as raças não é verdadeira. Claudinho recordou que o racismo é crime imprescritível e inafiançável. Por isso, ele deve ser denunciado, seja ele praticado em qualquer uma das suas modalidades.
É impressionante que este guerreiro obstinado tenha dedicado seu melhor e maior tempo a denunciar desigualdades, preconceitos e racismo com total convicção e galhardia. Ele promovia jornadas, encontros e seminários para a formação de jovens estudantes com seus próprios recursos, embora fosse um homem de quase nenhuma posse. Agora, dança num terreiro para além dos nossos olhos. Certamente, não renunciou a seu samba, a sua festa e a sua alegria. Faz falta! Mas deixou seu nome escrito na resistência daqueles e daquelas que não abaixam a cabeça às ordens do senhor capital.
Estive em Aracaju, a convite de um amigo da Universidade Federal de Sergipe, para palestrar em um evento sobre Ensino de Filosofia. Na ocasião, Claudinho fez questão de me apresentar ao Quilombo da Maloca, em uma extensa área situada junto aos bairros Cirurgia e Getúlio Vargas. Lá se localiza um grande e importante símbolo de resistência e preservação da cultura e da identidade da população negra de Sergipe: a comunidade da Maloca.
Na sua dissertação, escreveu: “Ao Prof. O Professor Doutor Junot Cornélio Matos, reconhecido por demonstrar que a esperança e a resistência contra a opressão dos marginalizados e oprimidos ainda existem no coração de quem sonha com uma educação libertadora.” Sei que tamanha homenagem não é um merecimento meu. Entretanto, devo registrar a honra de ter sido e convivido com este amigo que espero encontrar na Festa Maior.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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