Nem bem chegamos a processar tudo que foi falado sobre as mudanças climáticas no Fórum Internacional de Meio Ambiente (Fima), promovido pela Associação Riograndense de Imprensa (ARI), nos dias 26 e 27 de março, e algumas cidades, entre elas a capital, já sentiram mais uma vez os efeitos dos eventos extremos. Na segunda, dia 31 de março, novamente fomos pegos por um temporal intenso, que trouxe vários problemas em diferentes situações na região metropolitana, principalmente.
Segundo o professor Francisco Aquino, um dos palestrantes do Fima, o que ocorreu foi algo similar ao de 29 de janeiro de 2024 (lembram? Ou já nem consegue guardar devido ao aumento de frequência de chuvaradas?). Houve um encontro de massa de ar quente, com uma frente fria vinda do Mar de Weddell, que formaram sistemas convectivos de mesoescala. Esse contexto cria células de tempestade alinhadas, que avançam junto com a frente fria, trazendo intensa chuva, vendaval e tempestade. Também caiu granizo em algumas partes de Porto Alegre.
Dessa vez, várias pessoas conseguiram registrar por vídeo células se desenvolvendo no Guaíba. Foram nuvens cumulonimbus (que têm uma grande extensão vertical, são densas e favorecem a ocorrência de raios e trovões) que geraram trombas d’água (tornado que se forma na água). O professor classifica o evento como uma tempestade provocada por uma supercélula, pois também demonstrou estar girando em altitude.
Na quarta-feira, dia 2, ainda tinha gente sem energia. Para variar, os geradores de algumas estações de tratamento de água do DMAE também pararam. Então, parte da população ficou sem água e luz. É claro que vem à cabeça a pergunta fatídica: mas e quando seremos de fato resilientes? Por que ficamos à mercê de uma companhia de energia, a CEEE Equatorial, que tem demonstrado incapacidade de atender às demandas? Por que o governo, o Ministério Público, sei lá quem mais, não toma alguma atitude em defesa da população?
Não vou ficar descrevendo as desgraças do factual. Só que dessa vez, não dá para deixar de citar o caso do caminhão que virou devido aos fortes ventos em plena ponte nova sobre o Guaíba. O motorista disse que, quando começou a subir na elevação, nem estava chovendo, só para ter uma ideia do quanto tudo aconteceu muito rápido.
Antes mesmo desse episódio, que deixou um rastro de estragos onde moro e na vizinhança, já estava programada para escrever sobre clima, pois foi um dos temas do FIMA. O Fórum é concretizado por jornalistas veteranos, todos voluntários, e já foi realizado em vários espaços da capital. As palestras do dia 26 de março iniciaram com o tema: “Clima: história e impacto das mudanças no Pampa”, com os professores Jefferson Cardia Simões e Francisco Eliseu Aquino, ambos do Centro Polar e Climático da UFRGS.
Eles mostraram de vários ângulos o quanto todo vivente deste Estado, castigado por desastres, precisa se dar conta do que significa morar por aqui.
O encontro foi riquíssimo. Farei dois textos sobre questões que foram levantadas por lá sob o mote “Bioma Pampa: Clima, Conservação e Atividades Econômicas”. Não posso deixar de saudar a organização da empreitada pela turma de colegas que se desdobraram para fazer um fórum participativo e recheado de presenças de áreas e posições diversificadas.
Pampa é porteira aberta para o clima extremo
O bioma querido pelos gaúchos, repleto de ecossistemas que atravessam em parte do Rio Grande do Sul, é cheio de peculiaridades, muitas vezes desconhecidas ou subjugadas pelos brasileiros. Conforme o professor Simões, o Pampa é muito importante também devido à circulação atmosférica que passa por ele. Os pesquisadores do Centro Polar e Climático da UFRGS têm constatado que têm aumentado os ciclones subtropicais e extratropicais no bioma. O glaciologista alertou o quanto o Estado é influenciado pelas correntes de ar e marítimas que vêm da Antártica. É urgente saber mitigar e se adaptar a esses novos tempos.
As informações meteorológicas começaram em 1911. E já se sabe que a temperatura média mundial já subiu mais de 1,5º em aproximadamente 150 anos devido ao agravamento do efeito estufa. Isso se deve às emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs), só para recapitular. Mesmo que nós, aqui do Pampa, não tenhamos colaborado tanto quanto os norte-americanos e chineses para deixar o planeta mais quente, nós estamos sentindo na pele, na cabeça, no bolso, por todos os poros, o significado das alterações climáticas.
Faço esse preâmbulo, também para adiantar para meus queridos e queridíssimas leitoras (elas são a maioria) que, diante desse contexto, teremos voos mais turbulentos. Confesso que não tenho andado acima das nuvens (só em sonho), mas muita gente que me lê frequenta aeroportos. Então, essa informação também é relevante saber. É mais um item que faz parte do cenário das mudanças climáticas. Atmosfera mais instável é mais turbulenta, observou o professor Aquino.
E mesmo que chova horrores em uma região, em outra, estamos sofrendo com uma seca violenta. Tchê, já que esses meus conterrâneos gostam de hipérboles e superlativos, vale lembrar que até pouco tempo atrás o maior raio do planeta era nosso. O Aquino acredita que logo, logo, nós voltaremos a figurar no topo desse pódio novamente.
Mas há um quesito em que somos campeões: no número de ocorrências de granizo! De 2006 pra cá, demos um salto! E não só em qualidade (no tamanho das bolas de gelo), mas em quantidade! Isso porque também cresceu o volume de trovoadas e tempestades na região Sul. E nós ultrapassamos Santa Catarina e Paraná nesse aspecto.
Afinal, para ser residente e nativo desse estado mais “taura” do Sul do mundo, não podemos nos mixar. Desconfio que é por isso que há tanto gaúcho espraiado pelo Brasil afora. Afinal, se consegue viver no calorão de quase 40 graus, ou abaixo de “chuva de canivete”, é porque que tá cheio de indivíduos que sabem lutar para sobreviver. “Não tá morto quem peleia,” diz o ditado, lá das bandas do meu pago na Depressão Central.
Estou apelando para a linguagem dita gaudéria, que é pra ver se os conterrâneos acordam para esse momento da história. Como bem comentou o professor Jefferson, as pessoas podem ter toda informação sobre um determinado assunto, mas o que define suas atitudes são suas crenças, seus valores e também o que cada um quer acreditar.
Por muito tempo, se achou que o Patrão do Céu teria dito que os homens, ou melhor, o Homo sapiens, eram donos do mundo. Só que a Ciência, milhões de pesquisadores de todas as partes do universo, há horas, dias, semanas, meses, anos, décadas vêm avisando: a natureza é quem manda, nós é que temos que nos adaptar ao que ela nos impõe. Ou tu vais num fandango de chinelo sabendo que todo mundo vai pisar no teu pé?
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Foto da Capa: Acervo da Autora