Dias atrás, fui informada sobre a procura crescente no mundo e no Brasil, num dos principais portais de pornografia do mundo, o Pornhub, por vídeos do gênero “MILF, ou, mother I’d like to fuck”, em português “mães com quem eu gostaria de transar”. Isso me causou estranheza e, confesso, desconforto.
Particularmente, não curto esse tipo de conteúdo. Já assisti a vídeos pornôs, muitos, e fiz de conta que estava curtindo. Performei. Mas esse tempo passou. Já não me pertence mais.
Mas sou uma criatura curiosa, sobretudo, e fui me aprofundar para compreender esse movimento, especialmente porque coloca a mulher mais velha no centro.
Bom, vamos por partes… Iniciei minha pesquisa tentando entender o que era o tal gênero MILF, lendo um artigo científico, publicado na Revista Mídia e Cotidiano, em 2020. Nele, a partir de três vídeos do YouPorn, que faz parte do site Pornhub, os pesquisadores realizam uma análise a respeito das questões que envolvem cultura, feminilidade e envelhecimento neste gênero.
De onde surgiu o termo MILF
O termo surgiu por conta do filme American Pie, em 1999, quando Jennifer Coolidge deu vida à personagem “Stifler’s mom” (mãe do Stifler). Uma mulher madura, extremamente sexual, sempre vestida com roupas justas e elegantes. Em uma das cenas, ela acaba seduzindo um dos amigos de Stifler, que tem uma queda por mulheres mais velhas, e transam em uma mesa de sinuca.
Quem é a MILF, “mother I’d like to fuck”?
No imaginário coletivo, MILF é uma mulher ligeiramente mais velha, em torno de 40 a 65 anos, segura, cheia de si e muito desejada, a “mãe gostosa”. Elas são marcadamente heterossexuais, brancas, de classe média alta. Alguém de quem se espera algum cuidado com o corpo e significativa proeza sexual, dada a idade que possui.
O uso do termo MILF tem se espraiado para fora dos filmes pornôs e mulheres como Madonna, Sofia Vergara, Alessandra Negrini, Eliana, Jennifer Lopez e Demi Moore são alguns exemplos de “mães gostosas” admiradas.
Como é o desenrolar dos vídeos
Nesta categoria, os filmes seguem a lógica do “role play” – ou seja, da interpretação de papéis específicos que indicam dinâmicas de poder, principalmente. Geralmente, as MILFs são madrastas que dão em cima de enteado ou enteada, mães que seduzem amigos do filho, alunos e até chefes que transam com funcionários.
Tem sua origem na fantasia dos homens mais jovens que enxergam nessas mulheres uma figura que carrega o conhecimento de quem sabe o que quer e o potencial para ensinar suas preferências na cama. Interessante observar que os vídeos, na sua grande maioria, são realizados sob o ponto de vista masculino (apesar de eles pouco aparecerem, são os que seguram as câmeras, no geral), sempre se encerrando quando ocorre o gozo do homem.
Os vídeos têm as características atuais da pornografia em ascensão, do amadorismo, ou a aparência dele, com o uso de pessoas “comuns” nas atuações, qualidade de imagem, enquadramento, iluminação, edição. Importante salientar que quem faz a classificação sobre a categoria “amadora” do filme são os próprios consumidores, não os produtores do conteúdo.
Quem consome vídeos pornô?
Entre os países que mais consomem vídeos pornôs do portal Pornhub, recentemente divulgou-se que nos primeiros lugares estão: 1º EUA, 2º França, 3º Filipinas, 4º México, 5º Grã-Bretanha, 6º Alemanha e o 7º Brasil.
Há um estudo muito interessante divulgado na edição de nov/2025 na publicação “Computers and Human Behaviors”, que apresenta uma análise detalhada do consumo de pornografia online por meio de uma análise multivariada, permitindo examinar as principais dimensões do envolvimento com pornografia, incluindo frequência de visitas, engajamento do usuário, variações demográficas e alinhamento ideológico em cinco países diferentes — França, Alemanha, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Sugiro acessar.
Sobre o perfil do consumidor brasileiro, encontrei uma pesquisa divulgada feita pelo instituto Quantas, e os achados dela são convergentes com o estudo mais recente citado acima, apesar de serem centrados em países e períodos diferentes. Esses achados desenham o perfil do usuário como predominantemente jovem, masculino e usuário de dispositivos móveis, com uma crescente participação feminina e brasileira no cenário global.
- Gênero: Historicamente masculino, com pesquisas indicando que cerca de 76% a 79% dos usuários que assumem o consumo são homens.
- Idade: O consumo é mais alto entre jovens e jovens adultos, com pico na faixa dos 30 anos, diminuindo com o envelhecimento. Adolescentes também representam uma parcela significativa, com estudos mostrando exposição precoce.
- Dispositivos: 80% dos acessos a plataformas de conteúdo adulto são feitos por smartphones.
- Religião: Estudos indicam que o consumo é alto mesmo entre grupos religiosos, mostrando que mais da metade dos homens cristãos entrevistados acessam pornografia mensalmente.
Qual é o tamanho desse mercado?
De acordo com o “Adult Entertainment Market Report 2026”, em termos mundiais, a indústria pornográfica irá dos U$71.63bi faturados em 2025 para U$78.1bi em 2026, chegando em 20230 a U$109.83bi. Os empresários não podem reclamar, né?
Aprendendo sobre esse contexto, aprofundando meu conhecimento. Confesso que meu desconforto não diminuiu. Ele aumentou.
Porque, apesar de o gênero se utilizar de mulheres mais velhas, na verdade elas continuam performando a juventude, que na nossa sociedade se transformou num “valor”, que sustentamos por meio de produtos (“anti-aging”, rejuvenescedor, por exemplo), serviços (tratamentos estéticos, atividades de “jovens” ou de “velhos”) e no “estilo de ser” (“jovial”, caseiro, festeiro…), o que também denota idadismo / etarismo.
Isso se comprova ao se ver o estilo de mulher apontada como MILF fora do mundo pornográfico: Alessandra Negrini, Sofia Vergara, Demi Moore, etc. Não são mulheres “comuns”, não sou eu nem você… há um padrão bem específico sob o qual, desde a infância, somos bombardeadas a alcançar. E que nunca conseguimos. Eu, ao menos.
Porque, como em todo filme pornô, nós, mulheres, somos meio, ferramenta para o gozo masculino. Tanto assim que todos os vídeos se encerram tão logo ele ocorre. As MILFs estão a serviço do ensino, aprendizagem, cuidado de homens jovens, talvez inseguros ainda para transarem com mulheres mais jovens e em busca de “conhecimento”. Então, elas não estão ali para serem agentes de seu próprio gozo e prazer.
Eu me pergunto até que ponto essas mulheres que se “pornografam”, permitindo-se consumir pelos homens que assistem seus filmes, entendem o quanto estão sendo objetos para manutenção de uma estrutura em que são os homens os que mantêm o controle. Ensinando a serem o “grande orquestrador” do corpo feminino, o ser superior que sabe “os truques” das mulheres, o grande macho. O que, aliás, é um fardo dificílimo de carregar.
Nessa ascensão do gênero, estamos assistindo, já no nome, a uma redução da mulher mais velha ao papel de “mãe”: MILF (“mother I’d like to fuck” ou mãe que eu gostaria de transar). Como se esse fosse o único papel que pudéssemos exercer, o de cuidadoras, amorosas, educadoras (a serviço de quem?). Como podem achar que nos colocar no papel de MILF é inovar? Please! Quero ir além e avante!
Justo quando estamos envelhecendo, querem nos limitar a sermos mães de marmanjos? Dá licença. Eu não acho isso bacana, muito menos celebro.
Agora, mais velha, é que quero me ver livre de amarras e encucações com meu próprio corpo. Aceitando-me como sou e não como querem que eu seja.
Também não quero sofrer com pressões e fantasias de que, por ser mais velha, saberei estratagemas, artimanhas especiais na cama. Sei nada! Se transar, quero troca, quero riso, quero igualdade, intimidade, aconchego, não quero me sentir numa sala dando aula.
Grace and Frankie
Voltei a assistir à série Gracie and Frankie, da Netflix, com Jane Fonda e Lily Tomlin. Gosto demais dela porque, de uma maneira leve e cativante, ela apresenta diversos temas como as novas configurações familiares, a importância da amizade feminina, os desafios do envelhecimento, as relações entre pais e filhos.
Em linhas gerais, para quem não conhece a série, iniciou em 2015 e terminou em 2022, possui sete temporadas e se trata de dois casais longevos de amigos que se separam porque os maridos saem do armário e resolvem assumir a relação extraconjugal que tinham.
Mas por que eu a trouxe à baila? Porque em um dos episódios da 4ª temporada, a Gracie, interpretada pela Jane Fonda, está namorando um homem bem mais jovem, o Nick, interpretado pelo Peter Gallagher. Ela reclama para a Frankie que, a cada vez que eles saem, ela gasta horas colocando tufos para aumentar o volume do cabelo, fazer o “make”, colocar um modelito bacana, e que sempre que dormem juntos, ela “precisa” acordar mais cedo para fazer a maquiagem, o penteado, colocar cílios, e voltar para a cama esperando ele acordar. Pra piorar, está com problemas no joelho direito, precisando utilizar uma bengala, que ele nem desconfia! Adiciona-se a tudo isso a descoberta de que o Nick se relacionou com a amiga de infância de uma das filhas, no passado distante.
Com todas essas questões rondando a cabeça e as pressões para se manter jovial, bela, perfeita, ela percebe que chegou ao seu limite. Acredita que não conseguirá levar essa relação por muito tempo. Então decide terminar com o Nick, homem que está tremendamente apaixonado por ela e ela por ele. Ele não aceita a decisão e pressiona. Como uma revelação, ela se desmonta frente a ele, retira todas as ferramentas que sustentam o que acredita serem as peças que mantêm sua beleza, os cílios, cabelo, toda a maquiagem, pega a bengala escondida e, finalmente, mostra sua dor, vulnerabilidade, medo e insegurança. Sem performance. Sem máscara. Ele a abraça, diz que a quer inteira e ficam juntos. A cena é linda.
Bridgerton, querido/a e gentil leitor/a
Foi lançada a primeira parte da 4ª temporada de Bridgerton, também da Netflix, que também assisti. É uma série de romance de época produzida por Shonda Rhimes, baseada nos livros de Julia Quinn. Ambientada na alta sociedade londrina do início do século XIX (Regência), a trama acompanha os oito irmãos Bridgerton em busca de amor e escândalos. Destaca-se pela diversidade no elenco, trilha sonora pop instrumental e a narração da misteriosa Lady Whistledown (agora, já revelada).
Nessa temporada, o foco é o romance do segundo filho Bridgerton com a filha ilegítima de um nobre, que trabalha como serva de uma outra família nobre, o que traz um tema pouco abordado à série, o cotidiano e as relações entre a classe trabalhadora e a nobreza. Mas não é essa trama que gostaria de trazer pra cá.
Adorei a trama da Violet, personagem interpretada pela Ruth Gemmel, a matriarca viúva da família Bridgerton. Nessa temporada, ela entende, com o apoio da grande amiga, que merece desfrutar do amor que sentia desde a temporada anterior. Ultrapassa seus medos, olha-se no espelho, enxerga suas marcas, segue em frente. Ela própria dá os primeiros passos em direção ao seu desejo, mesmo com medo, porque faz parte do jogo de se arriscar. Libertando-se do papel castrador que exercia sobre si mesma. Permitiu-se ir além do papel de mãe e assumir o de mulher desejante.
É tudo o que um filme pornô do gênero MILF não é.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Saeed Adyani/Netflix

