Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão.
Da caridade de quem me detesta.
Cazuza
Num tempo em que não existia riqueza nem pobreza, lembro-me de catar florzinhas rosas, amarelas ou roxas. Florzinhas de capim que eram, literalmente, mato no bairro Humaitá da zona norte porto-alegrense. Nessa mesma época, no litoral gaúcho, catei girinos e coloquei-os em um vidro, sem saber – ou sem querer saber – que, logo mais, eles deveriam cumprir seu sapo destino. Também não pensava que as flores logo morreriam. São imagens de um tempo de infância pleno, com pouca sede de transformação.
Nessa época, talvez ainda não houvesse me encontrado com o racismo. Ou sim, porque muitas vezes ele surge na socialização, quer dizer, na pré-escola. Como tive uma família um tanto evitativa quanto ao tema, temo que esses tempos tenham se borrado mais do que o habitual. Mas agora lembro-me melhor de uma cena, essa sim, sem dúvida, na pré-escola. Encontrei a miséria racializada acompanhando uma cuidadora minha na Vila Pirulito. Eu não lembro quem me presenteou, mas eu tinha um falso reloginho que continha um creme perfumado. Lembro-me de que crianças – vale dizer, negras como eu ou mais escuras – vieram para cima de mim, ávidas por ver com as mãozinhas a minha roupa: um jaleco branco de jardim público com um gorro vermelho. Nada demais, mas, naquele universo tão precário, eu era quase como uma aparição do Papai Noel. Na sequência, abriram o reloginho para depois retirar um pouco desse perfume. Nessa hora, travei. Fiquei um pouco aturdida ali sem saber classificar nada, mas entendendo que, mesmo tão pequena e morando com minha família em um apartamento simples, era capaz de ter algo que os outros queriam.
Coisa diferente do que se passava entre mim e meus colegas brancos, que pareciam pouco ou nada esperar de mim, além do fato de que era muito falante, feliz e que todos os dias levava de lanche um pão com patê verde de fígado e espinafre, o qual me dava uma vergonha enorme, por não ser a bolacha recheada da moda. Mas hoje agradeço e reconheço nessa lembrança o amor e cuidado da minha mãe. Afinal, era eu uma anemicazinha com problemas para ganhar peso.
Pouco dessa narrativa faz ponte evidente com o texto que acabo de ler de Douglas Rushkoff sobre os ultra-ricos e sua agenda de controle do caos. Desesperança vendida como ideologia futurista e capitalismo de desastre. Demolições do mundo controladas pelo seleto clube dos bunkers e das mentes nas nuvens. Lamento, mas me refiro a nuvens de dados mesmo. Nesse caso, bilionária fosse, poderia me deleitar eternamente no catar florzinhas, enquanto a enorme maioria da população se dilaceraria pelo mínimo. Que nojo!
Criaram uma descontinuidade, uma falsa antítese de valores, e vamos precisar ser mais abrangentes para escapar dessa retórica da ultra seleção, que não tem nada de natural. Não deveríamos ter que escolher entre amizade ou comunidade, afinidade ou humanidade, caridade ou justiça social, bem-estar individual ou saúde coletiva, família ou coletividade. Se apenas pudéssemos – e creio que podemos! – deslocar o protagonismo para os segundos termos dessa enumeração, conseguiríamos deixar de alimentar essa lógica violenta que se sustenta de nossa credulidade.
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Foto da Capa: Freepik

