“Não importa o quão estreito seja o portão, quantas punições ainda sofrerei, sou a senhora do meu destino, sou a capitã da minha alma.” Tomei a liberdade de adaptar a última estrofe do poema Invictus, de William Ernest Henley, que inspirou Nelson Mandela em sua luta contra o regime do apartheid e, depois, se tornou o título do filme, estrelado por Morgan Freeman, no papel do histórico líder mundial e presidente da Áfica do Sul.
Julho é um mês de luta, de celebração e de afirmação. O Julho das Pretas é um chamado para reconhecer, valorizar e fortalecer o protagonismo das mulheres negras em todos os espaços.
Minha jornada como mulher preta em espaços de construção e decisão não é diferente de tantas outras que lutam para sair da invisibilidade. Começou de forma mais intensa em 2015, quando, após pedir demissão para cuidar das minhas filhas, deparei com a falta de acolhimento do mercado de trabalho com o gênero feminino e a maternidade. De acordo com pesquisa realizada em 2023 pelo portal Empregos.com.br, 56% das mulheres foram demitidas ou conhecem quem foi desligada após a licença maternidade. Para não sucumbir à estatística, decidi me reinventar. A caminhada foi (e ainda é) dura, mas cheia de propósito, conexões e aprendizados diários.
Transformei desafios em ação e criei a minha empresa, Gurizada Faceira, um espaço kids voltado para casamentos, um setor geralmente elitizado e com muitas particularidades, mas que consegui adaptar e fazer acontecer. Posso dizer que levei o trabalho de recreação a outro patamar no RS. Com a pandemia, em 2020, atuei como gestora de projetos e gestora de comunidade em quatro turmas de um programa de aceleração na B2Mamy, plataforma que conecta mães empreendedoras por meio de educação, networking, saúde e bem-estar, oferecendo ferramentas para o desenvolvimento pessoal e profissional.
Por quase dois anos estive em um dos maiores hubs de inovação do país, o Instituto Caldeira. Fui articuladora do ecossistema de inovação na Odabá, mentora de startups e palestrei no TEDx, uma experiência marcante na minha história. Atualmente, sou head de Empreendedorismo e Inovação na Central Única das Favelas (CUFA) para o projeto Expo Favela Innovation,
Não falo aqui como representante única desses espaços, mas como parte viva de uma rede de mulheres negras que, juntas, transformam territórios, narrativas e destinos.
Honro as gerações de pretas anteriores à minha, como minha mãe e minha avó, que lutaram para eu chegar até aqui. Sou movida pela força delas e pela certeza de nossa existência como um ato de resistência. Resisto desde os meus dois anos de idade, quando fui adotada para sobreviver.
Amo a vida e luto por ela diariamente, feliz com minha construção na maternidade, criando duas mulheres fortes, minhas filhas Fernanda e Júlia, sabedoras da sua importância no mundo. Sou curiosa, gosto de observar o que poucos veem e sempre busco estar onde ninguém está indo. Assim, abro caminhos, não só para mim, mas para tantas outras, pois caminhamos juntas.
Ocupar espaços de decisão e liderança é garantir essa projeção a outras meninas e mulheres negras, permitindo-as se ver, se reconhecer e se fortalecer. É romper silêncios, erguer vozes e abrir caminhos, mesmo quando tentam fortemente nos silenciar. Cada passo dado é coletivo.
Minha dica para cada mulher preta é direta: potencializem seus nomes, falem em voz alta e em tom firme de onde vieram e o que fazem. Cada uma de nós carrega em si uma história de força, coragem e resistência.
Que neste Julho das Pretas a gente celebre cada vitória, mas também renove a força para seguir construindo. Vamos trabalhar pelo protagonismo de mais mulheres negras na cultura, na política, na arte, na educação ou na inovação, para que cada uma seja farol para outra.
Ser mulher preta é ser raiz, é futuro e, sobretudo, ser referência viva para transformar os lugares por onde passa!
Lu Brito (@lu.brito.790) é mãe, empreendedora há mais de nove anos e CEO do espaço kids Gurizada Faceira. Atua como gestora de projetos e comunidade no ecossistema de inovação, gestora de projetos na B2Mamy e mentora de startups. Também é líder de inovação e articulação na Odabá - Associação de Afroempreendedores do RS. Recentemente, se tornou TEDx Speaker, falando sobre os desafios e conquistas do empreendedorismo feminino negro.
Todos os textos dos membros da Odabá estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

