Aos poucos, nossas calçadas foram se transformando em parques de estacionamento. Não faz tanto tempo assim, estacionava-se junto ao meio-fio. Não no centro de Porto Alegre, é verdade. Lá era impossível encontrar vagas nas poucas ruas em que era permitido estacionar. Isso explica a infinidade de edifícios-garagem que foram construídos.
Lembro do assombro, quando viajávamos ao Rio de Janeiro, ao ver suas calçadas tomadas por automóveis. Aqui não, dizíamos com certo orgulho. Pois não é que o Rio limpou a maioria das suas calçadas e nós as deixamos ser invadidas pelos automóveis? E, ao contrário do que acontecia lá – os jornais não davam trégua ao assunto -, parece que aqui ninguém se importa.
Você já reparou como os meio-fios foram sendo rebaixados de forma contínua para ficar fácil subir nas calçadas em qualquer ponto? E que vagas são demarcadas sobre elas para organizar o estacionamento? Você sabia que tem uma lei bem restrita quanto à largura e número de acessos, justamente para impedir a invasão dos automóveis às calçadas? Letra morta, como se diz…
Reparem em uma Quintino Bocaiúva, por exemplo: raro é o meio-fio que não tenha sido rebaixado para acesso dos carros à calçada. Tente andar a pé por ali e se aproximar de uma vitrine. Difícil. A maioria das nossas ruas já não tem passeios, elas têm acostamentos, como se fossem estradas.
Na Avenida Protásio Alves, depois da Carlos Gomes, o largo passeio, em vez de ser uma agradável calçada arborizada e caminhável, é tomado de automóveis. Preste atenção, os exemplos se multiplicam em quase todas as avenidas e ruas comerciais da cidade. E nem é preciso lembrar da aberração que são nossas farmácias. Caso único no mundo.
Você vai dizer, mas como poderia ser diferente? O comércio ia morrer! Bom, na Av. Santa Fé, uma das principais avenidas comerciais de Buenos Aires, ou na Av. Providência em Santiago do Chile e em tantas das muitas avenidas comerciais das cidades mais visitadas mundo afora, não se vê isso. Nem vou falar fora do contexto sul-americano. O que se vê nos demais países é uma loja ao lado da outra e ninguém pergunta onde estacionar porque se chega até elas a pé ou pelo transporte público. Normalmente, são comércios de vizinhança, essa é a diferença. Aqui ele é voltado para o cliente que não caminha e tampouco usa o transporte público, aliás, essa ideia de transporte de massas foi abandonada em Porto Alegre. Ou se anda de carro, quem pode, ou se é cativo dos cada vez piores ônibus.
E o que dizer da qualidade dos nossos passeios? Um atentado à saúde! Quem já não tropeçou e caiu em uma das nossas calçadas? Em alguns bairros, é verdade, elas são impecáveis. Bonitas de se ver e ótimas para passear. É porque há uma injustiça social na lei que transfere a responsabilidade da pavimentação dos passeios públicos para os proprietários dos imóveis. Bairros ricos, bons passeios, bairros pobres, péssimos ou inexistentes. O olhar casagrande/senzala é tão atávico que parece a coisa mais natural do mundo que a cidade seja assim dividida.
No Centro Histórico, a prefeitura ocupou um edifício comercial para sua sede administrativa e fez o quê? Primeiro, transformou a calçada em estacionamento para seus veículos, depois, não satisfeita, transformou grande parte da Zona Azul dos quarteirões próximos em uso exclusivo para seus veículos. Faz sentido? Por que não aluga ou compra uma das tantas garagens que existem por ali?
Não bastasse isso, os quartéis das imediações reservaram para si quadras e quadras para estacionamento exclusivo para os automóveis, suponho, dos militares que trabalham ali. Lembro que havia uma lei que proibia essa reserva de vagas por categoria profissional. Onde andará?
Dá para mudar esse quadro? Dá, só é preciso vontade e coragem de enfrentar interesses. Lembro de uma atitude equivalente, por motivos diferentes, que o prefeito Gilberto Kassab tomou em 2006 quando sancionou a Lei Cidade Limpa, limpando drasticamente a cidade de São Paulo de todo material publicitário. Limitando no tamanho, inclusive, letreiros com os nomes das lojas aplicados sobre suas fachadas.
O problema era outro, mas o incômodo similar. O choque inicial gerou protestos generalizados, mas o resultado se impôs. Foi como se uma gritaria tivesse chegado ao fim. A cidade ganhou silêncio visual. A publicidade em Porto Alegre é outro problema que está passando da conta. Merece uma coluna à parte.
Como comentei na coluna anterior, nossa cidade necessita de muitas inovações. No caso dos carros sobre as calçadas, é preciso mais do que isso, é caso para uma revolução!
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Foto da Capa: Google Maps

