Recordar, repetir e elaborar é um dos textos freudianos que nos mostra como, a cada tanto, visitamos nossas origens, queiramos ou não. Lembramos em alguns casos, repetimos nos piores e, nos melhores, elaboramos. A análise ajuda a tocar alguns mitos dessas origens na elaboração. Contudo, é preciso falar.
Uma vez assisti a um trabalho em que a autora perguntava, parafraseando o velho ditado, com quantos paus se faz uma psicanalista? Peço desculpas, mas não lembro quem era, já que faz, pelo menos, uns 20 anos que isto aconteceu. À época, tratava-se de um pensar sobre os pilares fundantes da atividade: estudo teórico, análise pessoal e supervisão – o famigerado tripé psicanalítico – somado à prática e partilhas entre pares. Preferencialmente, esses pares deveriam estar alocados em uma instituição psicanalítica. Essa era a consigna.
Apesar de estar incerta da autoria, sei que este trabalho compunha o marco de um fim de especialização na Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS. Esta lembrança me acessou, justamente, neste final de semana. É que participei, de modo remoto, de um evento desta que tenho como uma de minhas casas de formação. Um de meus lugares de origem como psicanalista. A Clínica da UFRGS é um lugar possivelmente desconhecido de muitos, mas absolutamente formador do caldo cultural psicanalítico de Porto Alegre, atravessando quase cinco décadas formando terapeutas, muitos dos quais se tornam psicanalistas. Durante mais de 30 anos, esteve sob a direção da meritória e obstinada professora Martha Brizio – falecida em 2018 – que soube garantir um lugar psicanalítico e, ao mesmo tempo, multi e transdisciplinar a uma instituição universitária, uma clínica-escola, que, a rigor, tinha apenas o papel de autorizar e manter a regularidade do curso de Psicologia. A CAP-UFRGS, no entanto, foi bastante além dessa encomenda, tornando-se referência na rede de atenção à comunidade de Porto Alegre e arredores, enquanto privilegiava uma gestão atravessada pela psicanálise.
A iniciativa de resgate histórico se deu por interesse dos atuais alunes do curso de especialização que realizaram um projeto de extensão sobre a história da Clínica da UFRGS. Essa especialização teve seu currículo renovado e seu ingresso balizado por ações afirmativas, na direção de uma escuta mais plural e interseccional. O projeto é louvável porque, se bem, a clínica se beneficia – e muito! – por todas as discussões importantes sobre gênero, raça e sexualidade, é verdade que, em sua história, a CAP-UFRGS sempre esteve ocupada com o seu lugar político na cidade. Quer na interlocução tensa – porém constante – com os rumos da psicologia e do movimento psicanalítico da cidade e do estado, quer nas articulações com a rede de atenção psicossocial, nas ousadias de participar de eventos como o saudoso Foro Social Mundial, além de promover eventos com convidados e convênios internacionais.
O maior barato da Clínica, para mim, é sua enorme capacidade de gerar transferências (cuidado: termo, no máximo, parecido a vínculos) com uma diversidade enorme de pacientes e colaboradores. Isto foi propiciando, ao longo dos anos, formas ampliadas de escuta e intervenção. Problemas? Assim como as bruxas, siempre los hay, mas contar as histórias ajuda no tal do elaborar, esse trabalho tão freudiano.
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Foto da Capa: Reprodução Instagram /Evento do projeto História da Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS.

