Faz alguns anos que estou trabalhando e discutindo em torno dos processos de ensino/aprendizagem com as filosofias no chão da escola básica. Temos chamado tal esforço de Filosofia e Ensino de Filosofia. Pareceu-me sempre uma imensa pretensão filosofar sobre as diferentes práticas pedagógicas com as experiências de ensinar/aprender desde um componente curricular. Em espírito de abertura e humildade, fiz, contudo, desse magistério um intenso processo de escuta, de abertura e aprendizado. Em tal contexto, além dos achados que foram formando minha docência, emergiram questões do debate travado/acumulado, significado, ressignificado, nessa trajetória. Encontrei na Filosofia uma forma de vida, de coragem, de enfrentamento. No dizer de Foucault (1982), uma dimensão política da liberdade de falar em busca de construir aquilo que possamos chamar de verdade. Não uma verdade absoluta, mas como ocupação de um lugar que cumpre o dever da palavra, ainda que ela possa constituir-se uma solidão, à exclusão, à execração pública. De fato, uma palavra contra a colonização do homem e da mulher nos tempos que construímos e chamamos hoje. Uma prática ética de dizer a verdade sem reticências, mesmo com risco pessoal, ligada à sinceridade do sujeito, à liberdade e à transformação de si mesmo e dos outros.
Fui concebendo mais e mais as filosofias como conhecimentos rigorosos cujo escopo é a formação da curiosidade, do espanto, do perguntar. É um conhecimento que dialoga com a vida e dela não se desgruda. Já ocorre aqui um debate importante: como problematizar algo do qual não me afasto? Vale dizer: fazer filosofia já é filosofar e filosofar é fazer filosofia? Penso não existir dicotomia entre processo e produto. Uma questão fundamental chama, porém, minha atenção: que coisa é essa chamada vida? Que contextos, textos e pretextos são esses que configuram o que eu chamo de realidade? Esses problemas são fundamentais, pois não concebo os filosofares como doutrina ou ciência que estão conclamados a oferecer respostas definitivas.
Meus alunos e alunas não cessam de ensinar-me ao demonstrarem organizar seu trabalho pedagógico da maneira mais honesta e competente possível. Muitas experiências que vivenciam são deveras inovadoras e revelam um componente muito efusivo de compromisso e engajamento com as redes de ensino e seus sujeitos.
Afaga nosso coração a convicção de que jamais nos moveu a pretensão de “melhorar” alguém, de decantar em verso e prosa a última verdadeira novidadeira, de oferecer receituários para uso em suas atividades garantindo efetivo êxito. Sim, não é de hoje que estamos desaprendendo certezas que pareciam albergar nosso competente pronunciar docente. O propósito de encontrar moços e moças de diversas idades, tempos/espaço de trabalho docente, concepções e práticas pedagógicas foi firmando-se cada vez mais como liderança (atitude que se tece coletivamente; no caso, no conjunto da relação professor/a-discente) da escuta, de vasculhar os achados, identificando as frustrações. Deste modo, acalentar-se de resultados possíveis e aprendizados transitórios. Instamos suas vidas como pessoas; suas trajetórias, como profissionais; seus propósitos, como cidadãos. Firmamos o pé numa construção perguntadora que temos chamado de filosofia e apontado a sua voz para o não-ser que dizemos ser a vida e seu impensado.
O pensamento sobre as experiências com o Ensino de Filosofia no chão da escola está ancorado na concepção das filosofias como perguntação. Assim, miramos filosofias ignorantes, que procuram, pela mediação do esforço despojado do indagar, aproximar-se de fenômenos cotidianos no afã de construir sentidos provisórios e saberes em diálogo. Trata-se de uma filosofia como arte que desembrulha no espanto a própria ignorância.
A inserção numa temática exaustivamente explorada por competentes colegas e pesquisadores/as deste país jamais desejou oferecer a “maior” ou “melhor” resposta [se é que há uma resposta e; se ela existe, que haja uma “maior” ou “melhor” que outra]. Enveredamos, entretanto, por tal caminho, como curiosidade, com a desconfiança no olhar sobre o que vem mesmo a ser essa coisa denominada por tanta gente de Ensino Filosofia [no chão da escola de educação básica]. Duas questões mereceriam uma reflexão atenta: a primeira, sobre a ensinabilidade da filosofia, aqui tomada como um dado a priori, considerando que o tema já remete à prática social do “ensino das filosofias”; a outra, volta-se ao enunciado mesmo da temática, ou seja, à filosofia [ensino das filosofias].
Não se visa a delimitar latifúndios do pensamento, nem propor monocultura ideológica ou doutrinação acadêmica, tampouco elogios ao atual estado das coisas. Abominamos a colonização das pessoas e dos saberes. A instituição acadêmica insiste em preservar seu excessivo rigor científico, sua elegância eurocêntrica, sua erudição excêntrica, suas personalidades arrogantes e peculiaridades. Além disso, destaca-se sua enfadonha repetição do mesmo, sua tentativa de assentar um solo inquebrantável na especialização em um autor e o infindável comentário de texto desse autor. Ensina-se uma filosofia da identidade (o mesmo), da representação (idêntico ao modelo), do conceito, da doutrina, eurocentrada e pretensamente detentora de uma verdade única.
A imposição de um estudo doutrinário (heteronormativo, branco e masculino) como condição para a formação filosófica é um expediente colonial que revela uma estrutura de poder por detrás dos parâmetros institucionais que definem o que seria legitimamente filosofia (A Filosofia fala grego, ou fala alemão, ou francês). As mulheres em geral e, sobretudo, mulheres e homens negros e indígenas, são excluídos dos cânones filosóficos. A educação escolar impõe como foco a manutenção do statu quo e dos interesses demandados pelo Estado, que é seu mantenedor.
Almejamos uma filosofia da diversidade, que se apoia na diferença e encontra nela sua riqueza maior. Por isso, busca superar o autocolonialismo e a colonização que imprimiram uma verdade ancorada na negação do outro. O outro é a própria condição da vida e da convivência, é o que nos ensina a filosofia da diferença. Nas praças ou avenidas, nos becos e vielas, no abrir os braços do dia ou em seu entardecer, sem os outros nada somos, apagam-se as possibilidades. E na escola? Trata-se de uma filosofia da Perguntação que busca deixar fluir a curiosidade sem prévios entendimentos e nem direcionamentos de resposta já preconizados. Uma filosofia da escutação que se coloca dialógica e dialeticamente em relação com o outro. Afinal, uma filosofia sem medo de dizer de si, de sair a si e de embrenhar-se nas malhas dos excluídos, aprendendo outros saberes e dialogando com outros sujeitos (falo do outro eu-tu).
Nossa proposta de uma filosofia em diálogo, ao mesmo tempo da perguntação/escutação, mira uma insurgência contra códigos e doutrinas que visam a somente encaixotar o ser humano naquilo que lhe cabe de mais original: a vida em permanente fazer-se e refazer-se, ou seja, a vida em seu fluir. Trata-se de uma filosofia que não impõe a última palavra. Desse modo, não é “Filosofia da” (da educação, da história, da cultura etc.). Ao contrário, é uma filosofia, que se constrói em diálogo com os demais saberes.
Não posso fugir à tentação de dizer do nosso compromisso social com a construção de uma sociedade baseada na luta da superação de estruturas visceralmente injustas e maldosamente excludentes. Professores e professoras, estamos convocados, pela natureza própria de nossa profissão, ao compromisso com o outro, na defesa de valores, princípios e conquistas irrenunciáveis, corroborar, por fim, na formação de um homem e mulher defensores da justiça e da paz.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

