“Toda vez que passo na porta do Hospital Santa Mônica meu coração bate assim: minha mãe morreu, minha mãe morreu aqui, minha mãe morreu, minha mãe morreu aqui. (Ai, Edite, Edite, isso já faz vinte anos, você parece que não cresceu?!). Às vezes, a Voz fala comigo. Ralha, mima e depois me bota para dormir.”
Outro dia, assisti a uma entrevista de Elisa Lucinda (foto da capa) sobre ‘Livro do avesso, o pensamento de Edite’. A escritora, que também é atriz e transita por múltiplas formas de criação, comentava o nascimento da personagem a partir dessa passagem do capítulo 10 do romance. Ao explicar a escolha do nome da protagonista, Elisa disse que ele surgiu ao acaso quando escrevia o trecho em que a personagem se refere aos seus sentimentos ao passar em frente ao lugar onde a mãe morreu. Edite, neste caso, refere-se ao verbo editar, sugerindo que a Voz que ela escuta lhe impõe a tentativa de ressignificar um acontecimento distante no tempo, mas ainda ativo na memória. Assim que o vídeo acabou, procurei o livro na minha estante e o reli com a voracidade de quem o lia pela primeira vez, depois de cinco anos, agora interpretando de forma diferente cada palavra escrita.
Eu entendo o sentimento de Edite. Quando passo em frente ao hospital onde meu pai morreu, há cinco anos, a memória me devolve sempre às semanas de internação ou à madrugada em que ele partiu. A dor retorna como se o tempo não tivesse avançado. Revivo a agonia de atravessar corredores de hospital em plena pandemia, acompanhando um pai que definhava diante de um câncer incurável. Depois da morte, vieram o vazio, a incerteza sobre a vida sem ele, a preocupação com minha mãe, com minha irmã grávida, com meu filho tão ligado ao avô. E, por fim, a burocracia que não permite aos familiares viverem o luto em paz.
Uma dor não superada, por mais difícil que seja, costuma ser previsível. Eu sei quando vou senti-la e posso mudar o meu trajeto ou fingir não ver a fachada que tanto me incomoda. Mas há dores que não sabem esperar. Há dores que surgem de repente, sem respeitar horários ou rituais. Sem pedir licença, elas invadem os poros, tomam o corpo e desmontam, em segundos, qualquer vontade mínima de seguir adiante.
Há dores impossíveis de serem disfarçadas, que nos encontram vulneráveis, indefesos e sem forças para nos defender. Quando esse tipo de dor nos envolve, nada nos resta a fazer senão buscar ajuda. Foi assim com o senhor que, no meio de uma missa, buscou o consolo do padre. O vídeo que circula na Internet comove não apenas pelo desespero do avô que chora a morte do neto, mas pela atitude do sacerdote que interrompeu o rito da comunhão para acolhê-lo. Na maioria das vezes, um abraço, um olhar carinhoso ou um gesto de empatia são suficientes para acalmar um coração que sofre. E quando a dor é antiga, como no meu caso e no de Edite? Tanto eu quanto a personagem de Elisa Lucinda buscamos consolo na escrita e eu garanto que não somos exceção.
Anabela Kohlmann Ferrari, escritora residente em São Leopoldo, também transforma a própria dor em palavras. Foi lendo as suas crônicas ‘Perfume’ e ‘Carta ao amor’, do livro ‘A crônica poesia da vida’, que eu tive uma maior empatia pela dor da minha mãe. Ali, o ponto de vista não é o da filha que perde o pai ou a mãe, mas o da esposa que aprende a conviver com a ausência do marido enquanto o procura nos pequenos vestígios da casa. É a dor vista pelo ângulo da mulher que sonhou com um grande amor e o viveu até que a morte o interrompesse, e que hoje precisa reaprender a existir sozinha, reorganizando a vida a partir do vazio.
As crônicas deste livro tratam de temas sensíveis e atuais ao mesmo tempo em que nos convidam a olhar para as coisas simples e belas da vida. Talvez seja essa a melhor maneira de minimizar a dor: escrever como faz Anabela e seguir o conselho da Voz à Edite e editá-la. Escrever não cura, mas ajuda a organizar o caos que forma dentro de nós, abrandando o peso dos dias e nos devolvendo, pouco a pouco, a capacidade de seguir vivendo.
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Foto da Capa: Elisa Lucinda / Divulgação

