Antes de visitarmos Bonito, no Mato Grosso do Sul, que contei na coluna passada, ficamos uma semana no Pantanal e foi outra experiência poderosa. Já no primeiro dia no Refúgio da Ilha Ecolodge, observando uma garça inanimada sobre um tronco no meio do nada, tive um insight. Começou com um estranhamento, afinal, era, no mínimo, um recurso visual totalmente dispensável ali no Delta do Rio Salobra, tão pródigo de formas vivas. Somado à visão do verde predominante, em qualquer ângulo a que se direcionasse o olhar, o estranhamento atingiu o limite da dúvida. Fui, então, caminhando até ela, conjecturando se, afinal, não seria uma garça de verdade, apesar da sua pose pétrea por todas as horas desde que chegáramos ali. Foi só quando me aproximei a uma distância de uns três metros que a “estátua” arremeteu um voo lindo, largo, sem sobressalto, pura plasticidade. Nos dias seguintes, observei que os outros bichos também apreciavam esse modo estátua. Os jacarés, à beira do rio por onde passeamos num pequeno barco, igualmente permaneciam imóveis, indiferentes ao barulho do motor, a nós ou a qualquer interferência. Capivaras e aves diversas também quietas, em concentração plena, cabeças direcionadas ao céu. E mesmo quando se colocavam em movimento, todos os animais não demonstravam alarde. Os tamanduás, aliás, se moviam num ritmo devagar quase parando, independente de se chegar muito perto deles.
Talvez a origem geológica do Pantanal – choque de duas placas tectônicas, há 500 milhões de anos, resultou num mergulho ao magma da Terra e na formação da Cordilheira dos Andes (1) – tenha influência nessa magnetização intensa dos animais na atmosfera. O núcleo interno do nosso planeta, formado de ferro sólido, é envolvido por metais líquidos na profundidade de 2.800 km (o magma quente) que, ao girar a uma velocidade maior que a da superfície, produz o campo magnético com dois polos opostos, próximos aos Norte e Sul geográficos. Este campo se espalha por toda a superfície do planeta com intensidade menor do que a de um ímã de geladeira e diminui ainda mais no topo da atmosfera, mas é tão poderoso que funciona como um escudo para partículas altamente carregadas vindas do sol e do espaço profundo, que poderiam fulminar os seres vivos ou mudar drasticamente as formas de vida como as conhecemos. O magnetismo faz funcionar bússolas e, nos seres vivos, opera através dos mecanismos biológicos. Aves migratórias, tartarugas marinhas e certos tipos de bactérias, entre muitos outros, podem dispor da força magnética como uma espécie de sistema de navegação integrado. Nos humanos, o magnetismo pode ser sentido em um nível inconsciente, segundo evidências experimentais documentadas pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (EUA), provavelmente vestígio de nosso passado mais primitivo. A percepção magnética nos humanos foi sendo enfraquecida possivelmente devido a gerações sucessivas vivendo em centros urbanos, o que nos apartou da sutileza dos sons, das impressões visuais, das sensações térmicas na pele, das texturas no toque, de tudo o que na natureza aguça os nossos instintos e sentidos. (2)
Nos alheamos ao campo magnético da Terra e à dimensão do Todo do qual fazemos parte. A totalidade/magnetismo, no entanto, é passível de ser percebido a nível consciente através de uma experiência individual ou em um evento coletivo. Sentados ao pé de uma árvore, contemplando o horizonte, ou escalando uma montanha, por exemplo, nos magnetizamos na atmosfera, nos entregamos para a alma do universo, entramos no Divino. Num grupo de meditação, independente do quanto se consiga “desligar a mente”, em um determinado momento deixamos de ser uma parte, um indivíduo, e nos entregamos para a alma do grupo. Em rituais coletivos – o preparo para uma caçada em tempos remotos, um campeonato esportivo ou um espetáculo de música nos tempos atuais – não é preciso consentir a energia majestosa que envolve todas as pessoas, simplesmente acontece. O magnetismo opera, nos conecta ao Todo, entramos no Divino.
“A expressão ‘Sois deuses’ significa que todo o espírito imortal que se irradia sobre um ser humano é um deus – o Microcosmo do Macrocosmo, parte e parcela do Deus Desconhecido, a causa primária de que ele é uma emanação direta. Possui todos os atributos de sua fonte original. Entre eles estão a onisciência e a onipotência. Dotado de tais atributos, mas incapaz de manifestá-los enquanto está no corpo, durante cujo período são obscurecidos, velados e limitados pelas faculdades de natureza física, o homem habitado pela divindade pode elevar-se”, pontua a escritora H.P. Blavatsky. (3) No momento de sua comunhão com o Divino, o homem percebe e se enlaça à força do Todo, que passa a se manifestar de diversas maneiras. A possibilidade dessa percepção faz a magnitude do ser humano, pois a seiva está em nós, na garça e em todos os seres vivos, mas nós a podemos sentir e traduzir, diferentemente da garça, que só a pode sentir.
A necessidade de traduzir o que sentimos, o Divino além da sobrevivência, nos levou a desenhar nas paredes das cavernas, quando inauguramos a nossa maior forma de expressão, a arte. “Nas cavernas de Altamira, na obra de Picasso, nos frisos internos das pirâmides, a arte é o que nos dá o melhor vislumbre da realidade. A consciência se forma na arte. É a única coisa que conhecemos que cria a consciência humana”, diz o crítico de arte Jacob Klintowitz. “Para mim, compreender o artista era descobrir o segredo do mundo, mas acabei percebendo os mistérios do mundo, o que se dá na capacidade autônoma da matéria, que se estabelece em dimensões variadas da matéria que dá uma ideia do mecanismo que é o Todo, do qual você é parte e se faz possível entender pela consciência – essa coisa extraordinária – e que só se faz possível porque esse mistério está em você, se não estivesse em você não poderia ser entendido”, conclui Klintowitz.
Experimentos diversos já foram testados e atestados pela ciência – há farta literatura sobre o assunto, do mesmerismo à física quântica – e outros tantos testemunhados ao largo da ciência oficial, como em ritos religiosos. A física quântica verificou que, até mesmo por distâncias arbitrariamente longas, coisas aparentemente separadas podem estar conectadas e agir instantaneamente umas sobre as outras. É um conceito de totalidade da realidade física. “É possível que ondas eletromagnéticas possam interagir com as biomoléculas do cérebro, como a luz do sol interage com moléculas de clorofila transferindo a energia. O campo eletromagnético em torno de nossos neurônios armazena dados de maneira simultânea com as nossas crenças e experiências. Este campo pode ser capaz de transcender as bordas do organismo que emite as ondas, se integrando ao campo externo, e interagir com o campo de outra pessoa. Explorar e compreender o funcionamento destes campos eletromagnéticos pode ajudar a sintonizar nossas fontes naturais mais poderosas, recuperando a harmonia entre as partes e abrindo uma perspectiva para a exploração da consciência coletiva. Isso sugere que a humanidade pode se curar se formos capazes de nos sintonizar mais efetivamente com as fontes naturais da consciência, com os poderes naturais que vivem em nós”. (4) No éter universal existimos, nós, a garça, todos os seres vivos; na consciência do amor, permanecemos em paz.
(1) A placa tectônica onde se assenta o Brasil, Placa Sul-Americana, depois de se soltar da África se chocou com outra placa na direção contrária, Placa de Nazca (os mapas da época diferem radicalmente da geografia atual). Nesse choque, a placa mais pesada (de Nazca) afundou em direção ao magma quente da Terra. A placa mais leve (a Sul-Americana) sofreu com deformações, dando origem às grandes cadeias de montanhas e vulcões que conhecemos como a Cordilheira dos Andes, numa extensão de 7.000 km no sentido norte-sul, e de 700 km no sentido leste-oeste, com uma altura média de 4.000 metros. O peso da Cordilheira exerce uma enorme pressão sobre a borda da Placa Sul-Americana, e causa uma deformação muito parecida com o que aconteceria se dobrássemos com a mão um pedaço de borracha. Enquanto uma extremidade aponta para baixo, forma-se uma pequena elevação na parte imediatamente anterior. É nessa elevação da placa, chamada de ombreira, onde se localiza o Pantanal, sendo que o seu ciclo de vida é ligado aos períodos anuais de degelo no Leste da Cordilheira, caracterizando as épocas da cheia – quando a Bacia Hidrográfica do Rio Paraguai recebe grande volume de água – e da seca. (Revista Pesquisa Fapesp).
(2) The New Yorker (abril de 2021).
(3) Ísis sem Véu, de Helena Blavatsky (volume III, página 137). Escritora russa responsável pela sistematização da moderna Teosofia e cofundadora da Sociedade Teosófica. O termo teosofia (do grego, theos = deus, sofia = sabedoria) diz respeito a qualquer tipo de misticismo filosófico que pretende ser baseado matemática ou cientificamente. Na antiguidade, pode ser encontrado no pitagorismo, na filosofia neoplatonica e no gnosticismo.
(4) Poder do Eu Superior
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Foto de capa: montagem digital da autora, com foto de Jackie Ramirez

