O projeto se chama Adote um escritor. Participo faz mais de 30 anos, ou seja, desde que nasceu. Como escritor, eu acho que nasci com ele. A logística é simples: uma escola pública escolhe um autor, depois trabalha as suas obras e, finalmente, há o encontro. Parece um momento sagrado, e é. Mas também será. Para sempre, talvez. A Nina, por exemplo, tornou-se professora de literatura, depois de encontrar o escritor Caio Riter. Aqui, houve traços do que acontece num encontro desses. Nem sempre há, mas sempre pinta a certeza de que, a cada leitura, a cada encontro com livros e um escritor, o futuro comparecerá.
Hoje estive na Escola Municipal Vila Monte Cristo, em Porto Alegre. É onde trabalha a Nina, mas também as Mônicas, a Carol, a Fabi e uma equipe competente que acolhe mais de mil crianças. Elas estavam lá me esperando, com as reações às suas leituras. E vieram com um arsenal de perguntas feitas por aquelas bocas, abaixo daqueles olhos vivos, brilhantes, curiosos, na frente de um cérebro em franco funcionamento. Por que escrever? Quantos livros? Desde quando? O predileto? Com que idade aprendeu a ver as horas? Amarrar os tênis? Pra que time torce? Dá dinheiro? Vale a pena? Filhos?
A Monte Cristo tem uma gata de estimação. Chama-se Lua. Apareceu por lá e foi adotada também. A comunidade escolar, literalmente, ocupa-se dela. Água, ração, veterinário e, sobretudo, carinho. Muito carinho. Dona do pedaço, ela me acompanhou durante quase toda a visita. A sua inteligência emocional deve ter captado a presença de um irmão adotado como ela. Não houve rivalidade fraterna, talvez por ela saber que eu ficaria só por um dia, ao contrário dela, presença vitalícia. Em todo caso, fiscalizou-me desde a entrada até a saída.
A Secretaria Municipal da Educação banca o projeto, por isso merece aplauso. Por outro lado, empertiga-se uma vaia, pois a mesma Secretaria vem estreitando os horários das disciplinas das humanas, em detrimento das exatas. Considerou essas mais importantes para o futuro daquelas crianças. “Se desejarem empreender, se buscarem uma profissão concretamente afivelada no mercado, vão precisar mais da matemática do que da filosofia.” Felizmente, eu fui uma criança leitora como as da Monte Cristo. E tenho mil e uma perguntas destinadas à Secretaria. Uma delas: consideram exata a vida humana?
Não aguardo resposta. Pergunto só para me mostrar combativo e questionador como as crianças da Monte Cristo. O mundo precisa de nós, caso contrário termina. As respostas eu tenho na ponta da língua portuguesa: uma filosofia não vale menos do que uma física, uma literatura não vale menos do que uma química, um teatro não vale menos do que a matemática. Afinal, não há matéria sem pensamento que a embase. Não há pensamento sem literatura que a alicerce. E, fora do universo de um leitor, só há cordeiros que nada questionam. Uma última pergunta: é por isso?
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Foto da Capa: Acervo do Autor

