O alcaide andava atormentado. Precisava dar resposta a uma situação dramática que a cada dia aumentava em urgência. Orientado por seus assessores, entre os quais os da área de Remoção do Ambiente Natural, finalmente chegou a uma decisão:
Contratar uma empresa e pagar bem, muito bem,
para ela se encarregar de ponta a ponta do
Problema do lixo.
O problema do lixo. Este grande tormento. A sujeira da cidade. Que tanto aflige o povo, provocando reclamações de toda ordem. Intermináveis reclamações. Por que não repassar a uma única empresa a administração da encrenca toda?
Sim, por que não? Muito bom. Proposta de fato tentadora.
Mas, como hoje mesmo principiantes na arte da Administração costumam alertar, como já é voz corrente entre diferentes tipos de estudiosos,
não existe solução fácil e única
para problemas complexos.
Se o alcaide ao menos se dignasse a perguntar à Núbia, ela certamente o orientaria na direção de abordagens muito mais efetivas.
Reciclagem, uma caravana
Núbia Vargas, presidente da Cooperativa de Educação Ambiental e Reciclagem Sepé Tiaraju, localizada no bairro porto-alegrense de Navegantes, ministrou uma aula no primeiro sábado deste mês de junho. E que aula, senhoras e senhores!
Um grupo animado, cerca de trinta pessoas, reuniu-se na cooperativa, participando de uma iniciativa que se inaugurava naquele dia, a Caravana da Reciclagem Popular. Muitos dos que nunca tinham estado numa central de reciclagem talvez tenham sido surpreendidos pelo ambiente na área social da Sepé Tiaraju. Limpo, organizado, acolhedor, cheiro de café quente na manhã fria. Isso que o local foi um dos que submergiu na enchente de maio de 2024.
Mas logo passaríamos por uma imersão na realidade nada acolhedora vivida pelos profissionais da reciclagem, as catadoras e os catadores de materiais recicláveis. Junto com os demais cooperados da Tiaraju e de entidades coirmãs, o grupo de visitantes dirigiu-se da área social para a área de serviço. Começando pela esteira onde é feita a catação e indo até o pátio nos fundos da unidade, onde chegam os caminhões do DMLU com cargas para reciclagem. Impossível resumir em poucas linhas o que todos acompanharam, concentradíssimos, ao longo de três horas.
Núbia Vargas começou por um comentário sobre um cheiro característico: o da mistura de material orgânico com resíduos sintéticos. Disse lembrar-se deste cheiro desde a infância, que ela passou em cima de uma carroça, junto com a mãe, que sustentava a família coletando recicláveis. A mãe, dona Basilinha Vargas dos Santos, que hoje trabalha na esteira de triagem da cooperativa Sepé. Moravam antigamente na região das ilhas do Guaíba, na Ilha dos Marinheiros, mas trabalhavam em diferentes pontos da capital. A lembrança – não do trabalho duro, mas da infância que não teve, sem escola nem brincadeiras – trouxe lágrimas aos olhos de Núbia. Contidas lágrimas.
Depois de explicar como se consolidou sua vasta experiência com reciclagem, tornando-se também uma espécie de autodidata, que pesquisa muito na internet, que descobre tudo sobre todo tipo de material na internet (porque, afinal, faz parte das funções dela buscar interessados nos materiais que a cooperativa disponibiliza), depois de evidenciar sua expertise, Núbia se pôs a desafiar o conhecimento dos presentes sobre o que é de fato reciclável ou reciclado. Ela consegue distinguir plástico aproveitável de plástico sem valor comercial até pelo barulho que faz quando apertado com as pontas dos dedos.
Observando a esteira e as mãos ágeis dos cooperados que fazem a triagem (todas protegidas por luvas), logo se vê que muito daquilo que a gente em casa supõe que será reciclado acaba indo, na verdade, para o tanque dos rejeitos fim-de-linha. Ou seja: é material de mão única, foi fabricado sem preocupação com logística reversa nem possibilidade real de reciclagem – a exemplo dos sachês de mostarda, maionese, queijo ralado. Parte disso até poderia ser reciclada, mas não encontra interessados no mercado comprador. De modo que todo este rejeito, volume enorme, volta para o ambiente. É de novo carregado e transportado para os assim chamados aterros sanitários.
Quando se visualiza a montanha que se ergue no pátio onde os caminhões da coleta seletiva despejam suas cargas, é impossível não se perguntar se os responsáveis pela produção e uso de embalagens – e mesmo muitos dos profissionais que atuam no estabelecimento de políticas ambientais – alguma vez pisaram num centro de reciclagem. Pois basta uma visita a uma única central para dar-se conta de que, coletivamente, não temos noção do volume de lixo que produzimos. Quando se pensa não em termos abstratos – ah, são tantas mil toneladas/ano – mas se olha para a imperdoável carga de resíduos poluentes que despejamos no ambiente a cada dia, percebe-se que soluções como aterros sanitários, por exemplo, são no máximo paliativos, opções para curtíssimo prazo. Um paliativo, além de tudo, por demais oneroso: num só mês, março/2025, a prefeitura de Porto Alegre gastou R$ 4.645.694,21 com aterro!
No entanto, no projeto de Parceria Público-Privada que a Prefeitura de Porto Alegre está apresentando, até mesmo o lixo orgânico, em vez de ser compostado, continuaria a ser despejado em aterros durante mais sete anos. Além do prazo tardio, prevê métodos que devem acarretar a contaminação da matéria orgânica por fragmentos plásticos. Enquanto isso, multiplicam-se pelo país exemplos de bem-sucedidas estratégias de coleta de orgânicos e sua transformação em matéria-prima para cultivos agrícolas.
Assim como a compostagem, a Educação Ambiental não é considerada prioridade na PPP. Também aconteceria somente a partir do sétimo ano da concessão. E não ficam estabelecidas para a concessionária nem metas de investimentos nem de resultados esperados.
Este projeto de PPP, diga-se de passagem, veio a público sem ter antes passado pelo Conselho Deliberativo do Departamento Municipal de Limpeza Urbana da própria prefeitura.
Um bom projeto alternativo
A inadequação à realidade da PPP do Lixo da Prefeitura foi uma das razões que levou à criação da Frente pela Gestão de Resíduos Sólidos Participativa. A Frente, por sua vez, é responsável pela promoção da Caravana da Reciclagem, que até julho de 2026 pretende visitar cooperativas e associações em diferentes bairros da cidade – a próxima parada será no bairro Restinga, na Zona Sul de Porto Alegre, no mês de julho.
Como alertaram os cooperados da Sepé e das demais entidades presentes na primeira Caravana, a situação em outras Unidades de Triagem (Uts) da capital frequentemente é ainda mais crítica do que aquela que se pode constatar no bairro Navegantes. O auxílio mensal destinado pela prefeitura, cerca de R$2 mil ao mês, mal cobre despesas operacionais fixas, como água e energia. De qualquer maneira, por disposição do contrato entre a prefeitura e as entidades gestoras das UTs, este valor não pode ser usado para pagamento de catadores. A remuneração dos trabalhadores, portanto, depende exclusivamente da venda dos materiais catados, sendo que apenas meia dúzia de itens, como plástico branco e papelão, encontram compradores regulares. As latas de alumínio, valiosas, chegam lá em pouca quantidade. Todo o resíduo restante, na prática inaproveitável, é pesado e… descontado da verba destinada à UT! Cabe ao pessoal da UT lidar tanto com as demandas do mercado quanto com a extraordinária falta de educação ambiental efetiva na comunidade, áreas sobre as quais hoje não têm nenhum controle. Para completar, a quantidade de resíduos aproveitáveis que chega às Unidades de Triagem está em queda, por fatores como menor empenho na separação por parte dos consumidores e zero estratégia oficial para disciplinar o trabalho dos catadores de rua.
Aliás, estes últimos mereceram consideração à parte nas falas da Núbia. Não por representarem um problema para as UTs, mas por também estarem no rol dos excluídos. A população em geral os confunde com catadores eventuais em busca de um trocado, quando na realidade os catadores profissionais trabalham duro e são arrimo de milhares de famílias. Sua capilaridade deveria ser aproveitada, pois favorece o recolhimento de resíduos até em ruas e condomínios de difícil acesso, além de permitir coleta limpa, sem uso de veículos pesados. O trabalho deles pode e deve ser orientado e otimizado, inclusive com adoção de triciclos com carreta, do tipo já em uso em muitas cidades brasileiras. Mas, em vez disso, os catadores de rua hoje são criminalizados, penalizados com multas e recolhimento dos seus carrinhos. E simplesmente não estão previstos na PPP da prefeitura.
A movimentação em torno desta PPP gerou uma iniciativa, sob todos os pontos de vista relevantes, por parte de estudiosos e centros universitários gaúchos, especialmente UFRGS e Unisinos. Tiveram tempo restrito para examinar o projeto, diante dos prazos estabelecidos, mas puderam elaborar uma proposta alternativa àquela que centralizaria em uma única empresa, a valores bilionários, toda a cadeia do lixo da cidade – durante 35 anos!!
Esta proposta alternativa precisa, com urgência, ser conhecida pelos interessados, ou seja, toda a sociedade de Porto Alegre.
Sr. Prefeito Municipal:
Examine-a, o senhor também. Verá que é um pré-plano muito bom e que tem tudo a ver com a tradição participativa da cidade de Porto Alegre.
Pessoalmente, chamou-me a atenção o modelo que foi proposto pelo grupo para a distribuição dos resíduos sólidos coletados: como habitante de determinada rua, bairro ou condomínio, eu saberei para qual unidade de triagem está indo o material que descarto. Terei acesso a contato direto com esta UT. Serei atendida por uma pessoa se ligar para buscar informação ou reclamar de alguma irregularidade, tipo lixo espalhado na calçada. Com certeza, é este o modelo que, como consumidora e cidadã, eu defendo e reivindico.
Quanto a isto, não preciso nem perguntar à Núbia.
Lilian Dreyer é jornalista, editora e escritora. Desenvolveu atuação profissional e militante em diferentes organizações ligadas ao cooperativismo e à ecologia. É autora, entre outros títulos, de Sinfonia Inacabada, biografia de José Lutzenberger, e Depois de Tudo, retrato biográfico de Augusto Carneiro.
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Foto da Capa: Edmar Chaperman / Funasa

