Em The Prize, o escritor e historiador americano Daniel Yergin argumenta que boa parte dos movimentos estratégicos dos nazistas na Segunda Guerra Mundial foi determinada por uma obsessão: garantir petróleo suficiente para manter as máquinas de guerra em funcionamento.
Primeiro, avançaram sobre os Bálcãs para assegurar o acesso aos campos da Romênia. Como aquilo não bastava, foram para o norte da África. Quando estavam prestes a perder a batalha no deserto, invadiram a União Soviética — com o objetivo inicial de tomar os campos de petróleo de Baku, no Cáspio. Foi a fixação de Hitler por Moscou que desviou a rota, e esse desvio acabou sendo decisivo na batalha de Leningrado, que mudou os rumos da guerra.
O petróleo não foi apenas combustível para os tanques.
Foi o combustível da própria geopolítica.
Oitenta anos depois, o roteiro não mudou tanto quanto se poderia esperar. Os atores mudaram; a lógica, nem tanto.
Os movimentos recentes do governo Trump no cenário internacional têm sido justificados com argumentos variados — o combate ao narcotráfico no caso da Venezuela, a ameaça nuclear no caso do Irã. Mas há um fio que atravessa todas essas ações, e esse fio tem cheiro de refinaria. Por trás das declarações e das sanções, o que se vê é a velha busca por garantir linhas de suprimento de petróleo e, no caso atual, dificultar as da China, seu principal rival estratégico.
É uma visão de segurança energética que, como pretendo mostrar, já está ultrapassada — e que continua custando vidas.
Essa obsessão secular pelo petróleo tem um preço que raramente aparece nas planilhas das petroleiras: interferências na política interna de países soberanos, destruição de infraestrutura civil, décadas de instabilidade em regiões inteiras e o sofrimento de populações que nunca viram um barril de petróleo de perto, mas pagam com a própria pele a conta da dependência energética dos mais poderosos.
A pergunta que se impõe, então, é simples e perturbadora: isso ainda é necessário?
Os dados mais recentes sugerem que não. Ou, pelo menos, que a janela para uma saída finalmente se abriu — e que estamos demorando demais para atravessá-la.
O mundo consome hoje cerca de 186 mil terawatts-hora de energia primária por ano. Desse total, combustíveis fósseis — petróleo, carvão e gás natural — respondem por aproximadamente 86%. As fontes renováveis, somando hidrelétricas, solar, eólica e outras, cobrem pouco mais de 8% da energia primária global. Estamos, portanto, muito longe de qualquer transição completa.
Mas o que os números do passado recente revelam é uma aceleração que poucos previram até poucos anos atrás.
Em 2000, a capacidade solar instalada no mundo inteiro era de apenas 1,3 gigawatt — energia suficiente para abastecer uma cidade de médio porte. Em 2024, esse número chegou a 1.865 gigawatts. Não é um crescimento linear: é uma curva que dobra sobre si mesma a cada poucos anos — uma taxa de expansão anual superior a 30% mantida ao longo de duas décadas.
Apenas em 2024, foram instalados 452 gigawatts de nova capacidade solar — mais do que toda a capacidade instalada no mundo havia dez anos. A energia solar e a eólica, que juntas respondiam por apenas 0,2% da geração elétrica global em 2000, chegaram a quase 15% em 2024.
No setor elétrico como um todo, fontes limpas — renováveis mais nuclear — atingiram 40% da geração global pela primeira vez na história.
A Dinamarca já obtém 88% de sua energia de fontes renováveis e caminha para 100% até 2030. Portugal ultrapassou 75%, com a geração solar crescendo 440% em apenas sete anos. Djibouti, um pequeno país africano que praticamente não tinha renováveis há cinco anos, chegou a 67% — e mira 100% até 2035.
A China, descrita por analistas como o “primeiro electroestado”, instalou em 2024 mais energia solar e eólica do que todos os outros países juntos. O Brasil, por sua vez, gera 88% de sua eletricidade de fontes renováveis — quatro vezes menos carbono por unidade de energia do que a média mundial.
Se considerarmos que esse avanço ocorreu em meio a décadas de subsídios bilionários aos combustíveis fósseis, de lobbies agressivos contra políticas de transição e de resistência institucional de toda ordem, a velocidade do crescimento renovável é ainda mais impressionante. Com políticas energéticas mais determinadas, a substituição completa da matriz elétrica global até 2050 não é apenas possível — é tecnicamente viável.
Mas há um argumento que os defensores do petróleo sempre reservam para o final do debate — como se fosse um trunfo irrespondível: o petróleo não serve apenas para mover carros e gerar eletricidade. Ele está em tudo. Nos plásticos, nos fertilizantes, nos medicamentos, nos tecidos sintéticos, nos lubrificantes, nos solventes, no asfalto.
Cerca de 8% de todo o petróleo consumido no mundo não é queimado — é transformado em matéria-prima para outros produtos. Eliminar os combustíveis fósseis da energia seria, segundo esse argumento, apenas metade do problema.
O argumento é legítimo. Mas a resposta que a ciência vem construindo, ano após ano, é que a natureza oferece alternativas para a maior parte dessas aplicações — e algumas delas já estão em escala industrial.
A cana-de-açúcar é o exemplo mais próximo de nós. O Proálcool, lançado em 1975 como resposta à crise do petróleo, transformou o Brasil no maior produtor de etanol de cana do mundo. O país produz cerca de 7 mil litros de etanol por hectare de cana — 70% mais eficiente do que o etanol de milho americano.
Em 2010, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos reconheceu o etanol brasileiro como biocombustível avançado, certificando uma redução de 61% nas emissões de gases de efeito estufa em relação à gasolina [Link 4]. E a cana não para no etanol: o bagaço gera eletricidade, a vinhaça vira fertilizante. É um ciclo quase sem desperdício, construído ao longo de cinquenta anos, que o mundo ainda não soube replicar na escala que merecia.
Além da cana, o cânhamo industrial — uma das plantas mais versáteis que existem — contém entre 57% e 78% de celulose em seus talos, proporção superior à da madeira. Essa celulose pode substituir polímeros derivados do petróleo em dezenas de aplicações, enquanto a lignina extraída do processo é promissora para a produção de fibras de carbono de base biológica.
O bambu, por sua vez, cresce em velocidade extraordinária e oferece celulose de alta qualidade. Pesquisadores da Northeast Forestry University, na China, manipularam a celulose de bambu em nível molecular para criar um material com a mesma resistência e durabilidade dos plásticos petroquímicos — mas que se decompõe completamente em 50 dias.
No Brasil, pesquisadores da UFRJ desenvolveram, em 2025, embalagens bioplásticas feitas de linhaça e chia que se desfazem em até seis meses. Microalgas, resíduos agrícolas, amido de mandioca e óleos vegetais completam o arsenal de matérias-primas que a agricultura e a bioquímica colocam à disposição de uma civilização que queira, de fato, se libertar do petróleo.
O mercado de bioplásticos já movimenta cerca de 26 bilhões de dólares por ano e cresce a mais de 10% ao ano. Ainda representa apenas 0,5% da produção global de plásticos — mas a trajetória é clara.
Nada disso significa que a transição seja fácil. Há setores que resistem com obstáculos genuinamente difíceis: a produção de aço, que depende do coque de carvão não apenas como combustível, mas como agente químico no processo de redução do minério de ferro; a fabricação de cimento, cujas emissões em parte independem da fonte de energia usada; a aviação, que consumiu cerca de 300 milhões de toneladas de querosene em 2024, enquanto o combustível sustentável disponível não chegou a 1 milhão de toneladas.
O hidrogênio verde, que poderia resolver boa parte desses problemas, ainda custa entre quatro e oito dólares por quilo — cerca de quatro vezes mais do que a meta necessária para ser competitivo. Projetos foram cancelados. O ritmo da transição, segundo o McKinsey Global Institute, avança a cerca de metade da velocidade necessária para cumprir as metas do Acordo de Paris.
Mas os obstáculos técnicos, por reais que sejam, não são o principal freio. O principal freio é político e econômico. São os subsídios que os governos do mundo ainda destinam aos combustíveis fósseis — estimados em trilhões de dólares anuais quando se incluem os custos externos não precificados. É a resistência de indústrias que construíram fortunas e impérios sobre o petróleo e não têm nenhum interesse em ver esse modelo desaparecer. É a inércia de sistemas energéticos que levaram décadas para ser construídos e que ninguém quer desmontar sem garantias de que o substituto funcionará.
Enquanto isso, as guerras continuam. As interferências continuam. O sofrimento continua. E a conta — climática, humanitária e geopolítica — só cresce.
A transição energética não é apenas uma questão ambiental. É uma questão de paz.
Cada gigawatt de energia solar instalado em um telhado, cada hectare de cana convertido em etanol, cada refinaria reconvertida em biorrefinaria é um passo em direção a um mundo em que nenhum país precisa invadir outro para garantir que seus carros andem e suas fábricas funcionem.
Não chegamos lá ainda. Mas os dados mostram que o caminho existe — e que já sabemos como percorrê-lo. O que falta, como quase sempre, é vontade política para enfrentar os que lucram com o status quo.
Os senhores do petróleo não vão embora por conta própria.
A mudança só acontecerá se for uma escolha da sociedade.
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foto da Capa: Gerada por IA.

