Esta semana assisti ao filme “Plano 75”, dirigido por Chie Hayakawa. A história imagina um futuro próximo no Japão, onde o governo cria uma política pública que incentiva os cidadãos com mais de 75 anos a optarem voluntariamente pela eutanásia. A justificativa é para reduzir os custos de uma população considerada “improdutiva” e aliviar o sistema social. Para tornar a decisão mais aceitável, o programa oferece um prêmio para a pessoa gastar como quiser e assistência no processo.
Ao sair da tela e olhar para a realidade, o cenário não é menos assustador. Em 2025, o Japão já tinha cerca de 30% da sua população com mais de 65 anos, muitos vivendo em profundo isolamento social. Em 2022, o político japonês Taro Aso declarou que os idosos deveriam “se apressar a morrer” para reduzir os custos médicos. Quando este tipo de pensamento aparece no debate público, a distância entre a ficção e a realidade começa a diminuir perigosamente.
Não vou dar spoiler do filme, mas trazer esta discussão para mais perto de nós. Vivemos um paradoxo cruel. Por um lado, a medicina permite que as pessoas vivam cada vez mais. Por outro lado, a taxa de natalidade cai, a seguridade social estremece, e a pergunta que surge é: “Quem vai pagar a conta?”
O desafio já é visível em vários países. Na Alemanha, cerca de 23% da população tem mais de 65 anos. Em Mônaco, este percentual ultrapassa 35%. O Brasil ainda é um país relativamente jovem, mas envelhece rapidamente e pode chegar a 25% de idosos até 2050. A questão não é se enfrentaremos esse debate, mas quando e como.
A verdade é que, nessa lógica perversa, a vida passa a ser medida pela utilidade. Quando o corpo cansa, a mente falha ou a produtividade cessa, surge a sugestão, disfarçada de política pública, de que talvez seja hora de “partir”. E, claro, o alvo nunca são os ricos. Para esses, há planos de saúde robustos, cuidadores particulares e uma velhice com dignidade comprada. O “incentivo” à morte é para os pobres, para os que “pesam” no orçamento público.
Quando penso nisso, lembro dos meus avós e dos meus pais. Eles envelheceram cercados pelos filhos e netos e partiram com dignidade, acompanhados pela família. Aquilo que sempre foi um gesto natural de cuidado pode se tornar, no futuro, um privilégio. Fico me perguntando como serão os últimos dias da nossa geração. Será que um dia alguém sugerirá, com uma “justificativa técnica”, um tipo de “PDV” (Plano de Despedida da Vida)?
O filme “Plano 75” mostra idosos sobrevivendo no isolamento social, alguns morrendo sem que ninguém sinta a sua falta. Para que distopias como a abordada no filme não se tornem realidade, precisamos cultivar boas relações e enfrentar o problema com coragem e humanidade. Passamos recentemente por uma reforma da previdência, mas será insuficiente. É preciso repensar o financiamento da previdência. Agora me diga, se a Inteligência Artificial e os robôs substituem trabalhadores que pagam impostos, não seria razoável taxá-los para financiar o bem-estar de quem dedicou a vida à construção do país?
Quem será contra? Os donos dessas tecnologias, claro. Os mesmos que, coincidentemente, nunca precisarão de um “PDV” porque terão recursos para envelhecer com conforto, longe dos olhos do Estado e perto do conforto que o dinheiro puder comprar.
No fim das contas, “Plano 75” não é apenas um filme sobre o Japão do amanhã, mas um espelho do que podemos nos tornar se permitirmos que a lógica do descarte substitua a do cuidado. Porque quando uma sociedade começa a tratar seus idosos como fardo, ela não apenas os condena à solidão, ela perde um pedaço de si mesma. Envelhecer não é uma falha, é uma conquista. E acolher quem envelhece não é caridade, é humanidade. Que possamos, como geração, escolher ser lembrados por tudo o que fomos capazes de abraçar.
Nota:
Filme “Plano 75” (2022) disponível na Amazon Prime Video e na Apple TV. Trailer do filme aqui.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Divulgação

