Na correria da vida urbana e com meu pai no hospital, chamei um carro por aplicativo para voltar ao trabalho. Ocupada, conversando pelo celular, entrei no banco da frente e só percebi, alguns minutos depois, que o motorista me olhava de lado, com um sorriso discreto. Era o antigo zelador do prédio do meu sogro. Lembrei de quando ele vivia ali, com a esposa e três filhas, em apenas 40 m² — mas em uma das melhores localizações de Porto Alegre. Perguntei pelas meninas e, orgulhoso, me contou: “Estão todas formadas”.
Alguns dias depois, uma outra história atravessou o noticiário. Vitória, 17 anos, voltava do trabalho à noite. Pegou o ônibus, desceu e ainda tinha uma longa caminhada até sua casa, por estrada de chão, mal iluminada e com trechos pouco habitados. Para aliviar o medo, mandava áudios a uma amiga. Mas, naquele trajeto, foi sequestrada, violentada e morta. As irmãs, inconsoláveis, não acreditavam que para ela, tão cheia de vida: “Acabaram seus sonhos de futuro”.
Dois destinos, dois territórios. Os diferentes desfechos das duas histórias têm relação direta com a localização. De um lado, uma família humilde, situada em área central, onde a proximidade das escolas, do transporte e de equipamentos públicos ofereceu às filhas mais oportunidades de ascensão. Ainda, o convívio com distintas classes sociais lhes fez compreender que o caminho do crescimento era estudar e buscar uma formação. Do outro lado, Vitória, vítima da precariedade periférica, da falta de transporte, da ausência de iluminação, da distância do trabalho e da insegurança urbana. Embora o crime tenha um autor, sua raiz é coletiva. É também produto da desigualdade territorial que aprendemos a naturalizar.
Neste caso, nos indignamos somente com a violência contra as mulheres, mas não vislumbramos e, portanto, esquecemos de denunciar o absurdo que é enfrentar longos e difíceis trajetos entre casa e trabalho. Esse e outros crimes são fruto da ausência de gestão urbana e da falta de um planejamento que proteja trabalhadores e trabalhadoras — aqueles que, afinal, fazem a cidade funcionar.
Infelizmente, quando nos manifestamos e saímos às ruas, ainda é por partidos políticos. Saíamos por causas mais nobres! Por nossas causas comuns!
A moradia é a base da cidadania. Mas não basta garantir um teto: é preciso associar casa com acesso à alimentação, saúde, educação, lazer, trabalho e mobilidade. Tudo isso já existe no centro urbano, que segue esvaziado, desperdiçando nossos recursos coletivos. Quando priorizamos apenas a lógica de mercado, pagamos caro: expandimos periferias, ocupamos áreas ambientais, criamos demandas de transporte e infraestrutura em territórios cada vez mais distantes e inviáveis. O resultado? Bairros inseguros, precários e violentos, em que a falta de qualidade de vida se impõe.
Há caminhos alternativos. A urbanista Jane Jacobs já defendia a mescla econômica e social como motor da vitalidade urbana. Países europeus mostraram que é possível: ao invés de vender índices construtivos para empreendedores, exigem contrapartidas de até 30% das unidades destinadas a aluguel social, 20% à renda média e 50% ao livre mercado. Assim, oportunizam moradias aos trabalhadores e evitam guetos de pobreza onde o endereço determine, por si só, as poucas chances de conseguir um emprego. A mistura socioeconômica estimula a vida urbana. Na nossa cidade, podemos ver isso em bairros como Bom Fim, Cidade Baixa ou Menino Deus.
Em um país marcado por tantas desigualdades, o acesso à moradia não pode ser tratado como pauta secundária: deve ser compreendido como um dos temas mais sérios e urgentes a mobilizar sociedade e planejadores. Isso exige romper com a lógica simplista de imaginar que produzir mais unidades reduzirá o valor dos imóveis. Em Porto Alegre, há décadas temos números superiores a 50.000 domicílios vagos, sem que tenham significado qualquer alteração no mercado imobiliário.
É prioritário associar às pautas defendidas por empreendedores – de menor regulação urbanística, de maior potencial construtivo e de maior densidade – o compromisso de avançar para um pacto de solidariedade urbana que estabeleça cotas obrigatórias de habitação de preço acessível, compatível com a realidade de compra da população local. Cabe destacar que 73% das famílias gaúchas possuem ingressos abaixo de seis salários-mínimos, com média da renda domiciliar per capita de R$ 2.304 (IBGE, 2023) e que, portanto, não podem se comprometer com os atuais valores dos imóveis. Neste caso, as políticas habitacionais e o Plano Diretor são instrumentos fundamentais de justiça territorial, capazes de reequilibrar a cidade e de garantir a presença de diferentes grupos sociais em áreas centrais.
A cidade nos desafia a ir além do desenho, pois a maior parte dela já está aí, construída. O Plano Diretor deve ser debatido como instrumento de gestão para reconectar o tecido urbano e garantir o direito de viver com dignidade. Ousemos olhar o futuro com coragem, buscando enfrentar nossa cidade real, formada por um universo de cidades que se materializam em uma só.”
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Foto da Capa: Marcelo Camargo / Agência Brasil

