Dei para pensar em porcos. De todos os tipos. Mas principalmente nos bípedes disfarçados de humanos. Homens e mulheres. Maus pensamentos na maior parte do tempo. Entre as muitas coisas que moveram as minhas sinapses enquanto eu lia a Odisseia, de Homero, com seus, sei lá, 13 mil versos, é de que em quase todos os lugares em que Odisseu foi, havia porqueiros, ou melhor, divinos porqueiros, os encarregados de cuidar dos de quatro patas e dos com duas que seriam transformados em carne e gordura por uma deusa vingativa assim que lá chegassem.
Eu não sou vingativa, pelo menos não ao extremo. Meu espírito de vingança é tropical ou subtropical. Não é da escala que derrete os polos norte e sul ou que cobiça a Groenlândia. Não gosto de dividir a terra redonda em partes mais e menos valiosas. Adoraria que o planeta pertencesse a todos em uma nacionalidade única, apesar de todas as culturas e idiomas. Mas somos uma espécie competitiva, por vezes, mesquinha, que precisa de rachaduras, cortes, cercas para se sentir menos insignificante e impressionar não sei a quem.
A quem interessam tantos antagonismos e conflitos, vivo me perguntando. De onde vêm os rótulos e modelos de toda ordem e serventia? Porcos servem super bem a segundas, terceiras, infinitas intenções e perversões. Eu cresci brincando no chiqueiro que havia no campo dos meus pais. A gente chamava de sítio, mas era uma fazenda. Aqui neste estado esnobe em que vivo, nas outras regiões, o pessoal que tem terra gosta de dizer: estância, propriedade ou fazenda, como eu disse, mas sítio não, porque sítio não cheira à riqueza. Os porcos do chiqueiro dos meus pais cheiravam a almoço, a jantar e à ceia de Natal.
De cima, sentada sobre uma divisória de madeira quase podre, eu os observava nas épocas em que estavam para ser carneados. Não por muito tempo. Só até o meu pai ou algum adulto se dar conta de que eu estava por conta e risco lá no lamaçal. São perigosos, minha filha, o pai dizia. Não se deve dar pérolas aos porcos, dizia a mãe. Em um livro da Dorothy Parker, não lembro se em sua biografia ou se no Big Loira e Outras Histórias de Nova York, tem um trecho em que ela, já senhora, e amigos se deparam, diante de uma porta giratória, com duas ou três jovens. Uma delas, querendo se passar por boazinha, dentro de sua perversidade juvenil, cede a passagem, mas diz: primeiro, as velhas. Ao que Parker responde, sem pestanejar, primeiro, as pérolas, depois as porcas.
Eu adoro essa frase. Quando a li, eu era jovem. Hoje, sou a senhora, com a diferença de que estou no século 21. Parker teve de enfrentar o 20 com suas duas grandes guerras. Não que agora seja muito melhor. A porcolândia segue solta mundo afora com seus drones e abordagens antidireitos humanos. O mundo nem parece moderno. Outro dia, em uma festa do tipo ‘todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite’, dei de cara com um estuprador, um entre os muitos que andam livres, leves e empapados de perfume pela cidade, e que saiu, como saem também quase todos, impune de sua violência porque nenhuma de suas vítimas se sentiu segura para fazer um B.O. e ir à justiça.
Eu não sei o que faria se tivesse caído na pocilga de sua lábia. Tenho tido sorte. Estuprador não vem com legenda na testa. Esse, do sábado à noite, é para inglês ver. Superengana a torcida. Minha mãe, minha avó, toda a fileira de antepassadas o colocaria na lista dos bons partidos. Eu não faço mais a mínima ideia do que é isso, mesmo porque o conceito foi sofrendo mutações, se alinhando ao capitalismo e se direcionando para um perfil de mulher com o qual não me identifico.
Nunca, em momento algum da minha existência, a conta bancária de um fulano ou de sua família determinou o meu afeto. Mas há as que o condicionam aos cartões de crédito. Não ‘investem’, é essa a palavra que usam, seu tempo e estima em quem não puder ou quiser arcar sempre com suas despesas, mesmo que elas tenham o próprio dinheiro e não exista entre o casal o mínimo desequilíbrio financeiro, dentro de uma lógica distorcida de que gentileza tem de ser obrigação. Uma coisa muito porca, eu penso, exploração gratuita do interesse e sentimentos de outra pessoa, porquice que não serve para nada. Talvez para transformar o feminismo em bobagem, bacon e banha.
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