“Já se disseram mais bobagens sobre vinhos do que sobre qualquer outro assunto, com possível exceção do orgasmo feminino e da vida eterna.”
L.F. Veríssimo
O Dr. Montebelo iniciou sua vida profissional como ginecologista. Médico estudioso e dedicado começou a clinicar e atendia pacientes de quase todos os convênios, os quais pagavam valores irrisórios por procedimentos realizados. Desejando ser conhecido e ser melhor remunerado, Montebelo percebeu que precisava progredir, ver seu nome citado pelos meios de comunicação, pelas revistas científicas e pelas suas clientes.
Ao assistir a uma brilhante palestra de um famoso professor que discorreu sobre câncer de mama, suas causas, consequências e tratamentos, Montebelo resolveu se inscrever num congresso nacional de ginecologia, sua especialidade. Lá viu os luminares da especialidade, expondo suas luminosas teorias a respeito dos vários e variados problemas das patologias femininas.
Viu também o avassalador marquetim da indústria farmacêutica, ganhou brindes e uma pasta contendo um chaveiro e um boné, além de várias revistas coloridas acentuando os benefícios de vários fármacos produzidos pelas empresas. Mas o que mais lhe sensibilizou foi um convite para participar, sem ônus, do faustoso jantar de encerramento do referido congresso.
E a glória maior foi ter sido fotografado ao lado de um professor norte-americano considerado o “Especialista do Século”, foto que seria estampada na capa da revista World Gynecology.
Enfim, o Dr. Montebelo ficou encantado com tudo o que viu, ouviu e sentiu. Era aquilo que ele mais desejava: ser gente famosa, brilhar e ter uma grande clínica. E para isso foi à luta.
Dois anos depois, Dr. Motebelo montou um novo e bem decorado consultório. Tornou-se membro da Sociedade de Ginecologia e até pendurou numa parede a foto do World Gynecology.
Como, para ter sucesso, julgou que devia se especializar cada vez mais, tornou-se sexologista depois de um breve curso na Universidade de Pañuelito Blanco, na Argentina. E aí só dava o Professor Montebelo nos meios de comunicação, deitando falação sobre felação, sexo anal, oral, ejaculação precoce, masturbação tardia e sobre o tema da moda: o Ponto G.
Na sala de espera, moravam revistas da moda e algumas de cunho científico que as clientes liam com curiosidade.
Foi assim que Martinha leu no Gyneconews a seguinte notícia:
“Apesar da crença generalizada da existência do ponto de Grafenberg, o chamado Ponto G, há poucas evidências anatômicas ou comportamentais que provam a existência de tal ponto de acordo com trabalhos recentes publicados no American Journal of Obstetrics and Gynecology.”
Martinha não queria acreditar!!! A notícia lhe despertara de imediato duas dúvidas e uma certeza.
A primeira é a da própria notícia: depois de três anos procurando o Ponto G, agora explode essa revelação impactante. A segunda é a da competência científica de seu sexólogo e a certeza ficou por conta da incompetência coeundi de seu marido que, apesar de instruído pelo Dr. Montebelo nunca conseguiu atingir o ignoto ponto G de Martinha, que chegou a pensar que, como Linda Lovelace, cujo ponto G se localizava no seu deep throat, talvez o seu estivesse localizado em outro local de sua admirável e admirada anatomia. E a partir desses fatos, Martinha passou a lembrar das tão prolongadas quanto dispendiosas sessões de Terapia Sexual às quais se submetera com o Dr. Montebelo. Então aquilo tudo foi por nada? A insistente procura do Ponto G teria sido inútil e demorada como se fora um Santo Graal?
Quase desistindo de tudo e de todos, Martinha, em crise existencial, passou a tentar a Programação Neurolinguística, a tal de PNL que, para os iniciados nessa revolucionária terapia, curava a ejaculação precoce em uma sessão, impotência sexual em duas ou três e mesmo transformava sodomitas em onanistas em seis meses, com seis sessões por semana (inclusive uma realizada aos sábados à noite).
Falei recentemente com Martinha num sinal de trânsito. Baixou o vidro do Rolls Royce prateado e me disse que desistira do Dr. Montebelo e que estava se tratando numa nova clínica: a Women’s Desire, da qual a TV falava muito bem, e lá lhe recitavam florais de Bach, ginkgo biloba, massoterapia, oito tipos de vitaminas e fitoestrogênios. E que estava lendo o livro Onze Minutos do Paulo Coelho e que o achava trilegal.
Quando quis lhe perguntar se já tinha encontrado seu tão encantado ponto G, o sinal abriu, Martinha acelerou sem ao menos se despedir e me responder, mas deu para verificar que ela continua tão radiante e estrogenicamente tão apetitosa como sempre.
PS: OVNI – Objeto Vaginal Não Identificado.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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Foto da Capa: Freepik

