Viajar, para mim, é também ver Porto Alegre no espelho. Gosto de examinar seus reflexos na comparação com outras cidades. Não para fazer concorrência ou classificá-la como melhor ou pior, mas como forma de autoconhecimento. Inevitavelmente, despontam peculiaridades que me fazem pensar.
Pois não é que, dessa vez, voltei de viagem querendo consultar meus amigos psis? O que está acontecendo com Porto Alegre? Será que dá para deitá-la num divã? Percebi que a cidade está com sérios problemas de personalidade. Detectei um ciclo de baixa autoestima grave. Ou será complexo de vira-lata, que se diz? Ela está buscando o raso, o barato, como se não merecesse mais do que isso.
Ano passado, chegou a um extremo. Tentou suicídio. Deixou aberto o sistema de proteção contra enchentes, queria se afogar e quase conseguiu. Até hoje não se restabeleceu de todo. As comportas estão lá, abertas, esperando outra oportunidade. Uma tristeza de se ver. Tão bonita e desse jeito.
Os alertas vinham sendo dados. Na rua da praia, por exemplo, gastaram uma fortuna para trocar um piso de granito de alta qualidade por um de cimento vagabundo e mal colocado. Espalharam essas placas por um tal de quadrilátero para enfeiar todo o Centro Histórico. Justamente ele! Quase mataram o comércio com dois anos de obras que os chineses fariam em dois meses, se tanto. Uma vergonha. Está visto que não é falta de recursos, gastaram onde não precisava. É neurose mesmo, está aí a prova.
Cidade bonita que não se vê como tal. Isso é doença psíquica, não tenho dúvida. Se acha feia e faz força para de fato assim se tornar. Caso de automutilação, coisa grave. Os que vêm de fora a olham de outro modo: uma cidade bonita, formosa! Por que não te cuidas, menina? Eras alegre, orgulhosa de teus encantos. Tão faceira que ganhou Alegre no nome.
Quantas cidades têm uma cadeia de morros de bom tamanho delimitando um sítio ondulado que foi ocupado ao longo de sua história por migrantes de muitos quadrantes do mundo? Gente que dança do samba à polca. E que arquitetura bonita de se ver fizeram ali! Arquitetos talentosos construíram casas, edifícios, fábricas, lojas e prédios públicos de alta qualidade. Belas ruas e avenidas com praças, parques, escadarias e monumentos. Ainda hoje, os de fora dizem: que cidade agradável, densa e verticalizada com seus prédios de altura baixa e média. Não há capital igual no Brasil.
E ainda tem o Guaíba que lhe dá água à vontade, lazer e, dizem ufanistas locais, o mais belo pôr do sol do mundo. O que mais uma cidade precisaria para manter sua autoestima em alta e cuidar de si mesma?
Não quero me aventurar em diagnósticos, mas não é que essa cidade entrou em depressão? Só uma boa análise a salva. Remédios prescritos pelas universidades não toma de jeito nenhum. Busca curandeiros que cobram o céu. E ela paga.
São tantas as automutilações. Vocês já repararam nos semáforos das outras cidades? Eu nunca encontrei uma como a nossa, com fios aéreos ligando um ao outro. Às vezes pesam tanto que o braço da sinaleira, coitado, não se aguenta e verga. Uma cidade que perdeu o prumo e o rumo, é o que se vê.
Não vou falar dos fios elétricos e cabos de internet, que esses já viraram piada. Deixando a fiação de lado, vocês repararam que ao lado de cada parada de ônibus tem um poste e um medidor da CEEE? Tente se lembrar, onde você já viu isso fora daqui? É bonito? Revela capricho? E o que dizer, então, da infestação de vídeos na beira das calçadas, cada um com seu poste para essa mesma finalidade? Não vão me dizer que a prefeitura faz economia para empresas de publicidade. Claro que não, é sintoma.
A prefeitura privatizou a iluminação pública, prometendo melhorias. Me enchi de esperança. Que nada. Trocaram as lâmpadas pelo que tinha de mais barato no mercado. Uma vergonha. As bonitas pétalas da Osvaldo Aranha (a exceção à regra da cidade, os únicos postes de iluminação bonitos) sumiram, trocaram pelo que acharam de mais tosco. Que inveja dos suportes e luminárias bem desenhados, às vezes coloridos, elegantes que outras cidades têm. Em alguns lugares, é verdade, bem cafonas, feios, mas mesmo assim dá para ver dedicação. Aqui nem isso, só desleixo.
Também não vou falar do lixo espalhado pelas sarjetas, das calçadas tropeçantes. O que está me tirando o sono é essa tentativa de suicídio urbanístico. O caso é sério, acho que é caso de internação para segurança da paciente. O secretário que cuida do patrimônio histórico e do meio ambiente disse, ao propor um novo plano diretor para a cidade, algo parecido com “destruam o que sobrou, construam uma Singapura aqui. Se não der, uma Camboriú já serve.” E autorizou a construção de gigantescos edifícios para sufocar a velha Porto Alegre que tanto amamos.
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Foto da Capa: Reprodução de Redes Sociais.

