Nem bem inauguramos 2026 e lá vem eu falando em passado. Não para trombetear um lamento saudosista. É que o nosso lado humanista, progressista, não pode silenciar, pois, como disse o profeta, “se eu me calar, as pedras clamarão” (LCD 19:40). Olhando para as convocações que nos são desveladas pelo ano ainda recém-nascido, debruçado sobre o recente lixo produzido pela nossa política, assustado com os absurdos que assolam o nosso chão brasileiro, sinto-me instado a conclamar o/a amigo/a a não descontrair no desejo de produzirmos no porvir um cenário menos bisonho.
Ao assistir “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho, somos confrontados com uma verdade incômoda: o Recife — de igual modo o Brasil — convive diuturnamente com os fantasmas da ditadura. Não superamos o nosso passado: não metemos na cadeia os generais ditadores e nem os seus fanáticos seguidores. Os fantasmas do autoritarismo continuam entre nós, não como relíquias, mas como agentes militantes de uma sanha assassina, hoje configurada na necropolítica que nos ameaça constantemente e que pode ter tido o seu símbolo mais evidente na tentativa do golpe de janeiro de 2022.
São amedrontadores os sinais que emergem do nosso Congresso Nacional no adormecer de 2025. A modificação das regras de cumprimento da prisão resultante dos crimes cometidos por aqueles que atentaram contra a nossa democracia, com a chamada PL da Dosimetria, que define penas mínimas aos condenados pela justiça, comprometeu escandalosamente as justas penalidades impostas pelo STF. A aprovação, pelo Senado Federal, da PEC que fixa o marco temporal na data da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, veio acirrar a crise entre os dois poderes da República (judiciário e legislativo) no que concerne à questão dos direitos territoriais dos povos indígenas. Além disso, considera-se surpreendente a decisão do Congresso Nacional de derrubar, logo depois da realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 30), 52 vetos do Presidente da República à Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei 15.190 de 2025).
Foi inesperado o adiamento decidido pelo presidente da Câmara dos Deputados de adiar para este ano as votações do projeto de lei Antifacção e da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, duas formulações egressas do governo federal.
Permaneçamos atentos ao cinturão reacionário formado na nossa América por países como Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Chile, alinhados à extrema-direita. Vejamos com cuidados os fenômenos políticos e sociais que acontecem nos cinco continentes, cerceando liberdades, matando gente – ainda de fome – e buscando o enriquecimento a qualquer custo. Nancy Fraser afirma que o capitalismo é “canibal” porque ele devora as bases que sustentam a si mesmo: a natureza, o trabalho reprodutivo (cuidado, família), a democracia e a própria capacidade de reprodução social, gerando crises ecológicas, sociais, políticas e raciais que não são acidentes, mas parte da sua dinâmica interna, revelando a sua voracidade e injustiças estruturais, mas também abrindo brechas para a luta e a transformação.
Parece certo que todos nós almejamos sempre o melhor, um alvorecer sempre exitoso para os dias que virão. Que não nos esmoreça a falta de otimismo e nem nos paralise o medo. Gramsci popularizou a frase “Pessimismo da razão, otimismo da vontade”. Usava-a para descrever a atitude necessária para a luta política em prol da construção de uma nova sociedade. Dessa forma, somos instados a ter uma análise fria e realista (pessimista) das dificuldades e problemas do mundo (a “razão”), mas manter uma atitude esperançosa e combativa (otimista) para agir e buscar a transformação (a “vontade”).
Francisco de Goya (1746-1828), um dos maiores mestres da pintura espanhola, nominou a sua famosa gravura de “O sono da razão produz monstros”. Simbolizando, assim, como a ausência ou o sono da razão, quando a imaginação é abandonada ou dominada pelo fanatismo e ignorância, gera horrores, obscurantismo e as irracionalidades que afligem a sociedade. Enquanto a razão dorme, as obsessões, as crenças sem fundamentos, egoísmos, maldades tomam conta da sociedade, algo como uma possível denúncia ao ato de “nada fazer” frente aos absurdos cotidianos. Enquanto Saturno devora o seu filho, brincamos de faz de contas. Assistimos, às vezes emudecidos, a tantos absurdos e apenas nos declaramos incompetentes. Ninguém jamais acreditou que o homem pudesse optar pelo genocídio. E quantos são os genocídios de ontem e de hoje? Poucos acreditavam que a direita neofascista chegasse ao poder em 2018. E chegou! Fez e aconteceu. Gostou tanto do que fez que tentou aplicar um golpe na democracia.
A direita neofascista no Brasil hoje é um fenômeno complexo, caracterizado por uma mistura de autoritarismo, nacionalismo radical, conservadorismo social e liberalismo econômico (neoliberalismo), com forte uso das redes sociais e articulação internacional, focando numa política de “nós contra eles”, anti-igualitária e com busca por uma “regeneração nacional”, adaptando o fascismo histórico com discursos anti-esquerda e “Deus, Pátria, Família”, e dialogando com capital e movimentos extremistas globais, embora negando o rótulo de fascista. Está sempre atenta e com os seus tentáculos prontos para atacar.
Arendt nos recorda que “a condição humana é a da liberdade”. Aristóteles vê na felicidade o objetivo final da vida. Não queremos entrar nestas temáticas, pois são complexas e controversas. Contudo, ousamos advogar que a escravidão, a miséria, a subalternidade não são nossa condição. Por isso, defendemos o direito de todos a tornarem-se humanos, a uma vida digna e, quiçá, satisfatória. Insistimos que esse agora chamado hoje é produtor do amanhã. E o amanhã não nos vem como dádiva, como mérito individual, como propriedade de pequenos grupos assentados no poder. O amanhã se forja na luta. Olho em 2026! Atenção a um futuro a ser construído sem deixar de mirar o retrovisor. Realismo otimista, fé e razão, força e resistência.
Como disse Darcy Ribeiro: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou resignar-me jamais”. E eu? Eu, de fato, não vou.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: O Agente Secreto / Reprodução

