São 11 horas e 29 minutos de uma desejada manhã translúcida. Um reencontro retardado pela pandemia está prestes a acontecer. Eu e minha esposa caminharemos quilômetros ao longo da jornada. Os sentidos afiados para experimentar as novidades dessa metamorfose contínua. Nós, numa espécie de mimetismo pecilotérmico (risos), vamos andar sem direção, nos misturarmos, vermos – sem sermos vistos – ouvir sons e ruídos dessa cacofonia inebriante. Estamos no outono e estamos em Nova Iorque.
Por termos morado na cidade, a aventura tem, ao mesmo tempo, nuances de reencontro com uma afetiva rotina perdida e a excitação pelo novo de uma cidade impregnada por uma força feérica criativa avassaladora. Queremos ver como as cicatrizes foram curadas. Como esse universo particular seguiu em frente depois do flagelo da Covid-19. O que mudou? O que sumiu? O que surgiu…porque sempre o novo sempre vence.

Já na primeira esquina, Grand Street com a Sexta Avenida, um outdoor publicitário captura meu olhar com intensidade e surpresa. Oblíquo e furtivo, sorrio. Não paro. Sigo. E sigo, sorrindo, reverberando a cena potente estampada naquele anúncio solitário, por certo, eu penso.
Na quadra seguinte, agora, confesso, para minha estupefação, surgem outros anúncios. São vigorosos. São esplêndidos. São iconoclastas. Anúncios que prenunciam. Beleza e poesia. Orgulho e vitória. Sou eu. Minha ancestralidade celebrada. Quase esfrego os olhos, incauto, na expectativa de ver o rosto de meu pai ou o sorriso prudente de minha avó. São pessoas pretas magníficas estampando campanhas publicitárias das marcas mais desejadas do mundo. Prada. Hugo Boss. Yves Saint Laurent. Botega Venetta. Fendi. Chloé…Nova Iorque? Wakanda?
Esse dia é tomado por fotos – eu e minha esposa quase numa competição por essa coleção de imagens de um tempo histórico em curso – e elas se repetem rua após rua. Um caleidoscópio de pluralidade na Meca do consumo e – porque não – da desigualdade social humana.
Antes que meu texto chegue até você como uma ode ao consumo. Antes de você, condescendentemente, me rotular de ingênuo e avocar as leis do mercado publicitário. Ou, quem sabe, falar em tokenização ou “diversity washing”– conceitos absolutamente relevantes e infelizmente recorrentes. Vou ao ponto do porquê do impacto e da surpresa e – sim – inspiração dessa manhã.
Numa sociedade extremamente simbólica; sob a égide de vieses inconscientes lapidados diuturnamente pelas estruturalidades que conservam espaços de privilégio/exclusão; em que há historicamente um “lugar” reservado pela narrativa discriminatória às pessoas pretas; num país ainda dividido pelos ecos de Gettysburg; numa sociedade que avançou das leis Jim Crow ao Black Lives Matter – assassinando ao longo do caminho tantos Malcons, Martins, Floyds e Breonnas; presenciar essa representação pictórica é potência e celebração e prenúncio de que a caminhada segue na direção histórica irrenunciável na velocidade que a pressão de nossos pés impõe ao sistema.
O dia segue. Ele sempre segue. Permito que meu caminho misture passos no chão duro da realidade com os dados nas nuvens de sonhos – numa espécie incurável de nefelibata cínico. Mas, agora, caminhamos, sorriso reticente, elocubrações quânticas na cuca, eu e minha esposa, ao lado de Ella e Louis – sempre eles – cantando em Autumn in New York que aqui sonhadores com mãos vazias suspiram por terras exóticas…eu suspiro pelas lindas terras exóticas de igualdade, diversidade e amor.
*Fabiano Machado da Rosa é advogado, sócio fundador do PMR Advocacia e autor do livro “Compliance Antidiscriminatório – lições práticas para um novo mundo corporativo”