a) Quando eu era pequena, chamei uma das minhas irmãs para ver a maravilhosa lesma que eu havia encontrado no quintal de nossa casa, e ela, minha irmã, com uma machadinha de verdade do meu irmão mais velho, a partiu ao meio com um único golpe. Foi a primeira vez que vi a vida desaparecer em um segundo, ou em um átimo, como costumava escrever o Fernando Mantelli, um dos meus escritores favoritos, em seus contos nos tempos em que éramos colegas de literatura e, com bom humor, submetíamos as nossas produções a leituras críticas. Leitura crítica para quem ainda não acredita, fique sabendo, qualifica imensamente, mil vezes imensamente, imensamente ao cubo e ao infinito um texto. Os livros pelos quais tenho paixão foram reescritos antes de irem para a gráfica. Tudo, até o melhor, fica mais que melhor, se for trabalhado à exaustão.
b) Quando eu era ainda menina, mas já nem tão pequena, uma colega de escola, um ou dois anos mais velha que eu, me convidou para sair à noite com ela e uns guris. De carro, preciso dizer, o que, para mim, que andava com a gurizada das bicicletas, pareceu, desde o início, bastante imprudente. A ideia era eu sair escondida, porque, obviamente, os meus pais, assim como os dela, não me dariam permissão. E, para tanto, se fosse necessário, ela me aconselhou a colocar um sonífero na jarra de limonada que abasteceria o jantar, coisa que eu não saberia fazer por uma série de razões, começando pelo medo terrível de que eu pudesse matá-los. Por mais que eu tenha sentido raiva de um ou de outro em algum momento e até praguejado um ‘tomara que você morra’, nunca quis que isso de fato acontecesse. Quando a mãe morreu, morri de dor. Quando o pai morreu, morri de novo. Sempre que morre alguém que estimo, me sinto trucidada ou cortada ao meio como a lesma que uma das minhas irmãs matou.
c) Ainda sobre o item b, tenho de infelizmente dizer que a minha amiga que me convidou para sair com ela e uns guris motorizados morreu naquela noite. Todos eles morreram. No meio da madrugada, meu pai foi chamado para o hospital, tamanha a brutalidade em que se encontravam os corpos. Imagino que vários médicos tenham sido. Meu pai foi o primeiro a vê-la morta. Por ironia do destino, ele havia feito o parto em que ela nascera. E, sem ironia do destino, foi ele quem me contou que ela havia morrido e que me levou até a porta da funerária. Até então, eu nunca tinha estado em um velório. Odiei o velório. Detesto todos. Não estarei nem no meu porque já escrevi instruções para a minha despedida. E a ordem básica é que eu seja colocada em um caixão e imediatamente cremada. Meu filho, que tem bom senso de humor, diz que eu estou me cremando viva de tanto que me besunto com hidratantes e óleos, mas isso é outra história que não tem nada a ver com este texto.
d) Estou entre a raiva e a super-raiva desde a sexta-feira, 13, em que um novo conflito bélico começou. Não me interessa agora falar entre quem e nem os porquês, tampouco julgar quem tem ou não razão, se é que é possível ter alguma em uma guerra. Mas me interessa falar sobre os que são varridos, em um átimo, do planeta, sejam eles boas ou más pessoas, como a lesma que uma das minhas irmãs partiu ao meio, porque, querendo ou não, gostando ou não, eles são parte do que sou enquanto humanidade. E aqui abro um parêntese para colocar algo bonito escrito por outro ser humano que não eu, essa criatura tomada de revolta. Provavelmente, você, que me lê e chegou até aqui, conhece o potente trecho retirado de uma das meditações do John Donne, portanto sabe que vale a pena ler de novo:
“Nenhum homem é uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da terra. Se um Pequeno Torrão carregado pelo Mar deixa menor a Europa, como se todo um Promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”.
e) E como dobram! De acordo com o site Worldometers, que traz estatísticas em tempo real sobre nascimentos e óbitos no mundo, os nascimentos, neste ano de 2025 e neste momento em que escrevo, estão em torno de 60.495.333 e as mortes em 28.505.879. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo menos 2 milhões de falecimentos ocorrem por ano, no planeta, devido ao consumo de álcool, principalmente entre os homens. Entre eles há mais mortes violentas que entre as mulheres. E se esses homens estiverem na ativa no serviço militar e houver um conflito, o número de óbitos sobe muito. Na Segunda Guerra Mundial, cerca de 25 milhões de soldados morreram. Logo, cerca de 25 milhões de mães perderam seus filhos. É tão complexo gerar uma vida. Se os homens passassem por essa experiência, talvez dessem mais valor a ela.
f) F de força. De fraqueza. De fome. De fé. De felicidade. De fim. A vida, pelo menos como a conhecemos, é uma só. Independentemente da religião, é impossível contestar que todos os corpos se desintegram. Ainda que exista alguma continuação, depois da nossa existência na Terra, tudo o que foi, do jeito que era, nunca mais será.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

