
Ao ler a coluna Recuo de jardim, de Flávio Kiefer, aqui na Sler, quis reler Ebenezer Howard (1850 – 1928), que fez nascer o movimento das cidades-jardins. Planejador urbano inglês, ele refletia sobre questões sociais e a maneira como as cidades modernas se desenvolveram. Londres se tornara a maior cidade do mundo nas primeiras décadas do século XIX, com um salto da população de cerca de 1 milhão para mais de 4 milhões de pessoas. O crescimento vertiginoso desencadeou sérios problemas, como as epidemias de cólera e febre tifoide. Os cidadãos comuns não tinham mais acesso a espaços abertos e ar puro. Foi quando a cidade investiu em mudanças na infraestrutura e no planejamento e começaram a ser criados parques e playgrounds verdes. No final do século, Howard passou a defender que as pessoas deveriam viver em lugares que combinassem aspectos da cidade e do campo. “Não existem, na realidade, como costumeiramente se assume, duas alternativas – morar no campo ou morar na cidade –, mas uma terceira alternativa, na qual as vantagens da maior energia e atividades da cidade, com a beleza e o deleite da vida do campo, podem estar em perfeita sintonia. A sociedade humana e a beleza natural são entendidas para se gozar juntas”, escreveu.*
As ideias de Howard atraíram bastante atenção e fomentaram a construção da cidade-jardim de Letchworth, no subúrbio norte de Londres, em 1903. Uma segunda cidade-jardim, Welwyn, foi iniciada após a Primeira Guerra Mundial. Suas ideias já tinham influenciado também outros planejadores urbanos. O que Howard conseguira provar é que as famílias poderiam possuir uma casa em meio ao verde, perto do trabalho e do centro da cidade; que era viável a construção de cidades novas com indústrias e jardins, que se poderia obter cidades com boa qualidade ambiental.
Mas o século XX acabou avançando implacável, com a concepção de cidades voltadas ao uso do automóvel no mundo todo. Mesmo que alguma resistência tenha se levantado, como na década de 80, nos Estados Unidos, com o movimento batizado de Novo Urbanismo** – clamava pelo resgate da qualidade de vida perdida, buscando melhorar o relacionamento do homem com a sua cidade para um desenvolvimento de longo prazo, sustentável, com atenção para o social, o ambiental e o econômico -, se impôs a era do clamor desenvolvimentista, com ênfase para áreas metropolitanas também ligadas por rodovias. Foi o boom das construções rodoviárias. O mundo se loteou com cidades inchadas e asfaltadas, cada vez mais desumanizadas. Neste século XXI, é urgente reverter essa lógica, porque planejamento urbano também diz respeito à saúde pública e, agora, ainda mais, à concepção de uma nova ordem para o planeta.
Os ingleses ainda podem servir de exemplo, pois até hoje idolatram seus jardins. O aprendizado da nomenclatura das plantas e de técnicas de cultivo faz parte do currículo das escolas e feiras e eventos de jardinagem são tão concorridos quanto shows de rock. Em Londres, há centenas de áreas verdes abertas ao público e muitas também cuidadosamente mantidas em praças cercadas. Há ainda áreas verdes fechadas para moradores dos bairros onde se localizam, que podem levar convidados. Aqui no Sul do Brasil, temos as cidades turísticas da Serra Gaúcha, que, sob influência europeia, expõem vistosos jardins nas residências e nas ruas, um grande atrativo para os visitantes.
Quando mudei de São Paulo para Gramado, em 1999, a primeira vez que saí para caminhar na avenida que leva do bairro Curva da Farinha ao Centro, presenciei uma cena que mais parecia um sonho: bombeiros andavam entre os canteiros centrais regando as flores com as longas mangueiras do caminhão vermelho, com as sirenes repousadas. Fiquei em Gramado nove anos, com a minha pousada Raposa Vermelha e o bistrô Alecrim, localizada em uma área de mata nativa e no alto, perto do pórtico. Da pequena varanda da biblioteca, eu avistava as montanhas e, muitas vezes, a luz do final do dia me comovia profundamente. Foi o período mais feliz da minha vida, pois conexão com a natureza definitivamente é fundamental. Só mudei para Porto Alegre porque me casara, tivemos um filho e nosso bebê amado não reagia bem ao frio rigoroso e úmido do inverno em Gramado, sendo necessário o uso contínuo de antibióticos e isso eu não podia admitir. Hoje o filhote tem 21 anos e estou me organizando para voltar a morar na Serra, em um recanto onde imperam xaxins gigantes.
Acho que Ebenezer Howard foi visionário, pois o verdadeiro luxo é viver em cidades com ruas ajardinadas e paisagem verde. Canela, apesar do turismo de consumo já preocupante, preserva a beleza natural também com suas araucárias e matas nativas. Gramado ainda tem ruas ajardinadas, mas perdeu muito do encanto para um turismo todo voltado ao consumo, sendo preciso se afastar por quilômetros da área central para vivenciar a natureza. Fiz um “ensaio fotográfico” no centro de Canela para dividir com vocês um pouco do luxo das flores, muito maior do que o das vitrines com sua profusão de objetos inanimados.
*Garden Cities of To-morrow, de Ebenezer Howard, Swan Sonnenschein & Co., Ltd. EUA, 1902.
**A Carta do Novo Urbanismo Norte-americano, por Adilson Costa Macedo
Fotos: Acervo da Autora.
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