O caso do agricultor de Pelotas/RS que foi brutalmente assassinado dentro de casa é uma prova inegável do que acontece. Além da absurda invasão de um domicílio por 18 profissionais da Brigada Militar – prestem atenção, 18 homens armados! – da morte de um cidadão trabalhador, reconhecido na comunidade, torturaram sua esposa e a obrigaram a se ajoelhar em cacos de vidro, enquanto era ofendida. O que falou o comandante-geral da BM para justificar o injustificável? Foi um “grande equívoco”. Uma afirmação banal e irresponsável que acabou ficando como resposta do governo do Estado. Mas em que mundo, ou melhor, em que Estado estamos vivendo? Não foi um grande equívoco! Foi uma tragédia que deixou uma família dilacerada! Os assassinatos tornaram-se cotidianos. Os policiais chegam atirando e é como se nada tivesse acontecido. Vigiar e punir não basta. É preciso reagir, questionar, investigar e educar para que a justiça seja feita amparada na verdade e na ética, não em hipóteses. Como escreveu Thomas Morus, “Um sujeito derrubado por um adversário pode levantar-se outra vez. Um sujeito derrubado pela conformidade fica para sempre no chão”.
Este caso me levou para um texto do escritor Jeferson Tenório, de 27 de fevereiro de 2025, na coluna semanal que assina no UOL – “O show de horrores na segurança pública de São Paulo”. Fiquei impactada quando li. A lucidez de Jeferson me emocionou e acendeu muitas luzes para uma questão que não pode virar propaganda, muito menos ser normalizada. Seguem aqui alguns trechos.
– “A Prefeitura de São Paulo, sob o comando de Ricardo Nunes, inaugurou um painel que vai atualizar, em tempo real e durante 24 horas, o número de prisões realizadas por meio do programa Smart Sampa, um sistema de câmeras para reconhecimento facial, espalhadas pelas ruas da capital, servindo para identificar suspeitos, foragidos e pessoas desaparecidas.”
– “Na verdade, o painel representa um aceno para uma parcela da população que acredita em soluções fáceis para o problema da violência pública: vigiar e punir. Já conhecemos essa história.”
– “Encher prisões é sonho perverso de uma ultradireita que não quer resolver o problema, mas se retroalimentar por meio do medo, do pavor e da punição, dando à sociedade nada mais do que uma falsa sensação de segurança.”
– “Uma grande miragem que diz: olha, estamos prendendo pessoas, estamos fazendo muito pela sua segurança.”
– “Não queremos um painel onde mostre que pessoas estão sendo presas, queremos uma segurança pública com melhores condições para os policiais, por exemplo.”
– “Por que não melhorar os planos de carreira, as condições de trabalho, os salários, proporcionar acompanhamentos psicológicos e investimentos no bem-estar desses profissionais?”
– “Uma política que celebra e espetaculariza o encarceramento já fracassou. E fracassamos como sociedade quando apoiamos.
– “O painel de Nunes é um verniz que quer esconder o show de horrores que virou a segurança pública em São Paulo.”
Os casos de violência são cruéis. Extrapolam todas as medidas, mas não podem se transformar em espetáculo ou propaganda. Uma exposição desnecessária não ajuda em nada.
Em 2025, como já escrevi, tivemos recordes de casos de racismo, mais de nove mil registros, 11% a mais do que em 2024, o que é assustador. E neste ano que recém começou tivemos o episódio lamentável da turista gaúcha no Largo do Pelourinho, em Salvador/Bahia. Além de não aceitar ser atendida por uma pessoa negra e chamá-la de “lixo”, na delegacia ratificou sua conduta racista ao exigir que um delegado branco a atendesse. Foi presa por injúria racial, mas uma atitude com proporções tão agressivas e medíocres é muito mais grave do que pensamos.
Mostra que a Casa Grande ainda mantém suas garras escravagistas e preconceituosas bem afiadas. O episódio provocou muita indignação e a repercussão foi enorme, especialmente porque o cenário foi o Pelourinho, um dos mais reconhecidos símbolos culturais do Brasil. Em um lugar popular, por onde circulam pessoas de todos os gêneros, com opções sexuais diversas, sem restrições, racismo e elitismo se misturaram, ofendendo uma trabalhadora. Ficou evidente que ainda temos um longo caminho a percorrer contra todo tipo de discriminação, em nome das nossas origens, das nossas misturas, da nossa diversidade incontestável e da dignidade do nosso povo.
É um combate que precisa ser cotidiano e firme porque, enquanto alguém se achar superior pela cor da pele, a branca, e pelo poder aquisitivo, o racismo estrutural seguirá repercutindo. Não podemos nos calar!
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