No sé si la luna está sobre Porto Alegre
O si Porto Alegre está sobre la luna
Kevin Johansen
Será que somos um tanto feitos pelos mapas que percorremos ao longo da vida? E como nos impactam os lugares que nunca passamos?
É certo que também temos mapas imaginários conosco. Alguns outros são reais, mas paralelos. O mapa que carrego no peito tem Porto Alegre bem assinalada. Confesso que minha relação com a cidade é conflitiva e apaixonada. Vivendo fora pela terceira vez, cada eventual retorno me faz reavivar as sensações da infância, adolescência e de boa parte da vida adulta.
No entanto, aqui longe, penso muito em Porto Alegre desde que estou esperando bebê. Nasci na cidade. Minha passagem à atmosfera foi feita no hospital Fêmina, aparelho público, apesar de estar situado no coração de um dos bairros mais elitizados da cidade.
Vivi na periferia – no bairro Humaitá – até meus 17, mas sempre trotei por toda parte. Meus avós moravam na zona sul, então, a cidade começou para mim marcada pelos mais de 15km de distância entre os dois locais principais da vida.
Em geral, a minha contravenção era matar aula para passear. Desde muito cedo, ia ao ballet, ao inglês e onde mais fosse preciso de ônibus. Assim, solita mesmo. Tinha inveja das coleguinhas levadas de carro pra lá e pra cá, mas eu também gostava muito dessa independência e desse saber rueiro que ia constituindo. Ainda gosto. Os nomes e percursos das linhas dos ônibus, saber sobre as ruas por nome, apelido e sobrenome. Escutar meus mais velhos dizendo: “Ah, isso era lá na Faixa Preta”. E devanear depois se aí tinha alguma resistência cultural… Na verdade, eu não sei por que a Av. Dr. Campos Velho, que já foi Avenida dos Imigrantes, é ainda conhecida como Faixa Preta. Como pretos, acho que o nome nos era mais atrativo, além de ser um antigo endereço familiar.
Saí rumo a Rosario, na Argentina, para concluir o doutorado, mas cheia de inquietação, principalmente por não suportar o bolsonarismo e a lógica de ter que se forrar de dinheiro e de trabalho para sentir minimamente validada a existência de mulher negra. Ironicamente, cheguei na Argentina um pouco antes do Milei se eleger. É azar, sim, mas também é a expansão dessa imundice de extrema-direita pelo mundo. Quatro meses depois, mudei para Santa Fé por amor – onde, aliás, o libertário foi heroicamente mal-recebido no último fim de semana. Aqui fiquei por família, mas não se apaga esse mapa que tenho dentro do peito, essa POA.
Se olho para o alto, a lua funciona como uma ligação. Olhar para o mesmo ponto é estar junto, talvez. Ainda não sei como apresentar Porto Alegre para a minha pequena. Acho que vou esperar pelo olhar dela para ver o que ela me apresenta.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

