Ao nascerem, sem a gente, eles não sobrevivem. A espécie humana é incrivelmente inteligente (mesmo considerando que estamos cavando nosso próprio fim). Mas, comparados a outros animais, além de termos o eficiente polegar opositor, ainda somos capazes de construir cidades e até de explorar o espaço. Mas os bebês humanos são, entre os animais, os mais dependentes quando nascem. Afinal, um filhote de cavalo consegue andar horas após o nascimento, filhotes de macacos (primatas como nós) nascem e já se penduram nas mães, enquanto os nenéns humanos não conseguem nem sustentar a própria cabeça… Para comerem sozinhos, levará meses; tomar banho com autonomia levará alguns anos.
Nesse tempo, nosso papel, para que esses seres se sustentem, está muito claro: alimentar, limpar, educar, oferecer suporte emocional e afetivo, bancar financeiramente até estarem aptos ou, como diriam os mais velhos, “se encaminharem pra vida”.
Na infância, sabemos que, por causa deles e para exercer uma parentalidade minimamente responsável, precisaremos renunciar parte do nosso tempo, para que possam receber o que é necessário para seu adequado crescimento. Com o avançar dos anos, esse investimento de tempo vai diminuindo, até que, na adolescência, a impressão é a de que nos tornamos uma presença necessária, mas incômoda, já que as amizades vão adquirindo uma importância cada vez maior. O que está dentro do esperado no desenvolvimento psicossocial padrão.
Claro que, como pais, estaremos atentos e fortes para dar uma puxada pro “caminho” sempre que preciso. Mas é um tempo em que a gente precisa aprender a lidar com esse natural afastamento, confiando no que ofereceu até ali.
Aí, como regra geral, finalmente os filhos passam a se sustentar ao sair da adolescência. Muitos dizem que aí é que começa a vida adulta. Alguns tomam seu rumo, saem de casa. Outros não, continuam no mesmo teto, mas como estivessem fora.
Nessa saída dos filhos de casa, a relação entre os pais e a deles com os filhos passa por um “momento da verdade”. Quando é possível descobrir o quanto esses laços foram construídos a partir de conexões reais ou não.
Quando os filhos saem de casa, fica o vazio, a espera pela visita. Onde ficou o barulho? A visita dos amigos, a correria pra ir pra faculdade. Os encontros no café da manhã, almoço e/ou jantar, agora já moços, sem a mesma frequência, mas ainda existentes. A folia com a reunião dos amigos pra se arrumarem antes das festas. A preocupação com a hora da volta da festa.
Os casais podem viver o tal “ninho vazio”, o que é possível vir a ser um divisor de água. Alguns vão descobrir que os filhos eram a única conexão, mas conseguirão se redescobrir e seguir adiante. Para outros, a saída para redescoberta será a separação.
Particularmente, esse foi um momento desafiador. O papel de mãe sempre foi uma prioridade para mim. Foi importante eu sempre ter participado de muitos grupos e projetos com causas nas quais acredito, ter uma rede de amigas com quem fazia encontros regulares, estar envolvida com o trabalho. Mesmo assim, ainda sentia uma parte de mim vazia com a saída das filhas debaixo das minhas asas. Será que ainda seria próxima para elas?
Com o passar do tempo, fui compreendendo que distância e distanciamento são conceitos distintos. Que estarmos quilômetros longe umas das outras não significava nos distanciarmos em carinho, intimidade e amorosidade.
Para isso, é preciso cuidado e investimento na relação. Contar os detalhes da rotina, pois neles convivem a intimidade. Expressar o que e como sente, as desimportâncias da vida. Compartilhar as pequenas e grandes conquistas. Chorar as perdas e os fracassos. Rir de si mesma e da vida. E também haverá discussões. Então, fazer as pazes. Escutar e falar. Dar colo, acolher, aconselhar, amar.
Como neta e filha, lembro dos muitos e diferentes momentos da vida como adulta que já passei, que corri para minha Vó Lila, minha Mãe, minhas tias, para compartilhar as tantas coisas boas da minha vida, fazer desabafos, pedir colo e conselhos. E como elas sempre representaram bússola, alívio e respiro nessas horas.
Há pouco tempo me mudei e mexi em caixas nas quais pude reler algumas cartas escritas pela minha mãe em diferentes fases da vida. Que delícia! Contando sobre o que estava fazendo, seus projetos, dando notícias sobre meus irmãos, vizinhos e parentes, mandando conselhos, boas energias e receitas. Registros dessas conexões de outros tempos, concretas, que ficaram.
Com as filhas, a gente se resolve com as plataformas de vídeo e WhatsApp. Outros tempos, outras maneiras de se fazer a mesma coisa: manter o coração perto.
Todos os textos de Karen Farias estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

