Além do contato com o mar e do prazer quase meditativo de caminhar na areia, uma das coisas de que mais gosto na praia são as relações de proximidade que surgem quase sem esforço nas cidades litorâneas. E, sem dúvida alguma, o sorvete no final da tarde.
No litoral, baixamos a guarda. Desconfiamos menos uns dos outros. Às vezes, até cumprimentamos desconhecidos quando a rua ou a faixa de areia está vazia demais pelo horário. Para quem vive nas grandes cidades, isso soa quase como um luxo: caminhar sem sobressaltos, sem a obrigação de estar impecável, sem ajeitar o cabelo ou, principalmente, sem esconder o celular. Patinetes, bicicletas, gente correndo, tudo convive com um trânsito mais lento — em algumas ruas, quase inexistente.
Gosto de ser uma observadora silenciosa da vida cotidiana, e a praia é um prato cheio. Coleciono histórias dos tempos em que ia sozinha à beira do mar e me divertia com os relatos que surgiam ao redor: noitadas exageradas, mancadas amorosas, separações, novos amores, viagens improváveis. O ser humano e suas questões — difícil pensar em algo mais interessante.
Outro dia, por acaso, no silêncio concentrado de um sorvete de chocolate com amêndoas, foi impossível não ouvir, na mesa ao lado, a alegria de uma avó, cercada pelo neto e por amigas, contando a aventura do filho e da nora que viajavam para o Japão, com escala em Frankfurt, onde foram surpreendidos por uma nevasca e obrigados a permanecer na cidade. Mostrava fotos no celular e dava para ver que vivia, à distância, cada detalhe da jornada narrada pelo WhatsApp.
De súbito, fui interrompida por uma mulher de roupas simples, acompanhada de uma criança pequena. Queria me entregar um papel com algo escrito. Sem jeito, com as mãos ocupadas, pedi desculpas e disse que naquele momento não poderia ajudar. Foi um ato reflexo aprendido na cidade grande — quando a realidade invade e rompe a bolha confortável do meu instante particular.
Mas bolhas furam. Sempre furam. O prazer infantil de ser feliz com um sorvete recaiu sobre aquela mulher, aparentemente habituada a receber “nãos” da vida. Ela não se abalou com a minha negativa e seguiu até a mesa ao lado.
O que me entristece nessa cena é lembrar, como afirma Zygmunt Bauman — um dos filósofos contemporâneos que mais me instigam — “vivemos em um sistema sustentado pela desigualdade, pela escassez artificial e pela concentração de poder. A desigualdade não é uma falha: é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado”. E é fato. O tão vendido sonho da qualidade de vida americana, exibido nos filmes, só vale para alguns. Se valesse para todos, não haveria planeta suficiente, nem a quem explorar. A pobreza, nesse modelo, é funcional: sustenta o conforto dos mais ricos. Ambientalmente, é um modelo impossível, um estilo de vida que precisaria de pelo menos sete planetas.
Mesmo os países europeus, que por mais tempo mantiveram certo equilíbrio social — e que hoje já mostram fissuras evidentes — o fizeram exportando seus conterrâneos mais pobres: nossos bisavós, avós, pais. Orgulhamo-nos deles porque, apesar das adversidades, conseguiram avançar. Naquele contexto, os desafios dependiam mais do esforço individual, e o Brasil se apresentava como terra de oportunidades.
Hoje, em um mundo mais complexo, mais populoso, mais competitivo, cada vez mais pessoas ficam completamente à margem do sistema, entregues ao desamparo. Já não basta trabalho braçal. É preciso acesso ao conhecimento, à tecnologia, a redes, a credenciais. E, independentemente do tipo de trabalho, a tudo isso soma-se a aparência — pode ter certeza. Roupa, cabelo, dentes, endereço, referências: tudo é avaliado antes mesmo da primeira palavra. Talvez isso explique por que ninguém na sorveteria sequer leu o papel que era entregue por aquela mulher.
O sorvete acaba entre pensamentos, sem que eu perceba.
Na mesa da viagem, a resposta à mulher foi curta e definitiva: “Não, querida!”. Assim que ela se afastou, veio o comentário que me atravessou como um estalo: “Fazendo faxina, ganharia trezentos, facilmente”. Ninguém retrucou. A frase serviu para virar a página, para ignorar a cena, para destruir, em segundos, toda a reflexão que se formava em mim — transferindo a culpa, com eficiência, para quem já carrega o peso da exclusão. Simples assim.
Entendo o quanto seria mais confortável viver em um mundo sem pessoas vulnerabilizadas ao nosso redor. Mas a realidade é ruidosa e não se resolve com frases prontas. O número de marginalizados cresce diariamente. Estão nas grandes cidades, nas zonas turísticas e, cada vez mais, nas cidades médias. Será mesmo que há uma epidemia de preguiça? Ou será que faltam oportunidades reais dentro de um sistema excludente?
No Brasil, 85% das matrículas do ensino fundamental e médio estão no ensino público. Ainda assim, apenas 19% das escolas públicas possuem os equipamentos considerados essenciais, segundo o Censo Escolar. Soma-se a isso o déficit habitacional: pelo menos 25% dos brasileiros vivem em moradias pouco adequadas para estudar, trabalhar ou simplesmente descansar. E há um dado que ainda assombra — 1,2 milhão de brasileiros não têm banheiro em casa.
No nosso país, menos de 20% da população possui ensino superior e somente 7,6% da população ganha acima de 5 salários mínimos. A estes poucos privilegiados cabe, ao menos, não interpretar o mundo por uma ótica simplificada, perpetuando a indiferença frente à crescente desigualdade. Essa mazela afeta várias áreas e não nos permite avançar. Eu mesma estudei, me especializei, para compreender como melhorar o ambiente urbano, a qualidade das cidades, sua vitalidade, tornando-as mais acolhedoras, mais convidativas, melhores de habitar. Mas como pensar a forma da cidade sem encará-la com o reflexo direto da realidade do país?
Na praia, o sorvete derrete rápido. As perguntas, não.
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Foto da Capa: Gerada por IA

