Por questões burocráticas, quando mudei para Portugal, fiquei quase três anos sem vir ao Brasil. Os motivos pelos quais resolvemos começar nossa vida do zero em outro país eram muito claros na minha cabeça, e meu lugar de origem passou a significar, sobretudo, as partes ruins.
Em 2018, estava saindo da terapia em uma tarde ensolarada, na rua em que morei por mais de quinze anos, quando resolvi ligar para a minha avó, tema da sessão – meu avô havia falecido e eu queria saber como ela estava. Chamada não atendida. Distraída, esperava na faixa de pedestres com o celular na mão quando um motoqueiro de capacete prateado tentou arrancá-lo. Num ímpeto estúpido, claramente sem raciocinar, puxei de volta. Ele seguiu em frente, atravessei a rua e entrei no mercado. Precisava comprar alguns itens, e assim fiz, enquanto xingava o ladrão ao telefone com o Luigi.
Ao sair, ainda revoltada, avisto o mesmo homem na moto, no sentido oposto, voltando, bem devagarinho, olhando para os lados, como se estivesse à procura de alguém. Meu coração dispara. Corro e busco refúgio em uma loja de artigos para casa. Tremendo, chorando, conto o ocorrido para as vendedoras e a uma cliente, que prontamente me oferece carona. Estava a uma quadra da casa do meu pai, que viajava. Ao entrar no carro da senhora, avisto novamente o motoqueiro, no outro sentido. Entro correndo no prédio.
No apartamento, pesco o celular da bolsa: dezoito chamadas perdidas da minha psicóloga. Ela me relata que viu tudo, que o ladrão estava tentando me achar há trinta minutos, dando voltas no quarteirão, e que ela já havia acionado a polícia. Me sinto totalmente impotente e amedrontada. Não sei o que ele queria comigo: talvez estivesse armado e quisesse me matar? Ou simplesmente concluir o serviço? Ou ficou com raiva de uma menina franzina reagir ao assalto? Nunca vou saber.
Esse é um pequeno exemplo, bem tranquilo comparado a muitos outros que poderia relatar – presenciar um assalto com metralhadora no carro da frente aos sete anos, sequestro de uma menina da minha sala por setenta e dois dias quando eu tinha onze anos, tentativa de roubo aos quatorze, um colega baleado na saída da faculdade; e mais inúmeros casos de crimes que me atravessaram ao longo da vida. Mas este, o mais recente, resume o principal motivo pelo qual resolvemos nos mudar para o outro lado do oceano. Mesmo depois de mais alguns anos que passamos no Brasil devido à pandemia – anos maravilhosos, felizes -, quando finalmente partimos, esse sentimento de violência gratuita permaneceu como a marca d’água do país na minha cabeça.
Quando vim pela primeira vez após a mudança, em outubro de 2024, por uma urgência familiar, algo se transformou. Passado o susto, me conectei novamente com tudo o que havia de bom aqui. Eu havia esquecido os sabores, os sons, os cheiros e, principalmente, como eu me sentia bem em solo brasileiro.
Me espantava o tamanho das árvores, imponentes, em meio ao caos urbano. O canto dos passarinhos pela manhã. A gentileza das pessoas, o jeito expansivo de se cumprimentar, a familiaridade nos olhares. As rodas de samba. Tudo. Senti falta do que nem sabia que havia perdido.
Claro que há problemas, os mesmos de sempre, e outros novos. Mas me deixei seduzir de certa forma. Sem ingenuidade, não esquecendo o medo que me fez partir, mas com a consciência de quem reconhece, finalmente, que um lugar pode, e geralmente é, plural: o perigo e o afeto, a violência e a generosidade, o medo e o pertencimento, a natureza e a cidade. E que todas essas coisas coexistem, contraditórias e verdadeiras, neste mesmo país tropical.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

