Durante uma parte literalmente boa da minha infância, eu voltava de carona do Colégio Israelita Brasileiro com o primo Adolfo Goldstein. Meio-dia em ponto, e ele estava lá, invariavelmente, com o seu Aero Willys 1967. Pelo menos, era o que dizia quando a gente perguntava. Aquilo tudo para mim era uma festa. Eu me sentia entrando em uma piscina enorme como a do Clube Campestre, onde o primo Adolfo jogava bocha, sábados à tarde. Durante toda a minha infância, o meu pai teve uma sucessão de fuscas e, quando prosperou economicamente e comprou um TL, eu já era pré-adolescente com veleidades poéticas e não me interessava mais por carros. Portanto, a minha última epifania motora foi com o Aero Willys do primo.
O ritual da volta do Colégio era sempre o mesmo. A prima Doris, filha do Adolfo, sentava-se no banco da frente, ao lado do motorista, mesmo sendo pequena como eu. Naquele tempo, não havia cadeirinha para crianças, nem cinto de segurança, nem freio ABS. Os anjos da guarda ainda trabalhavam, e o primo Adolfo jamais arranhou o seu carro. Eu não me importava de não ir na frente, pois tinha o banco de trás inteiro só para mim. E não foram poucas as vezes em que me deitei, cansado dos estudos do então chamado Jardim de Infância. Eu deitava e rolava no banco sem que o primo Adolfo reclamasse. Pelo contrário: no retrovisor gigante, eu ganhava o seu sorrisão.
Verdade que, na maior parte daquela volta, ele estava concentrado em arguir a filha. A cada rua que cruzávamos, primo Adolfo perguntava o nome. Dona Leonor, Mariante, Francisco Ferrer, Giordano Bruno, e assim por diante e para trás. A prima acertava quase todas, muitas vezes se antecipando à pergunta. Quando errava, por causa de algum desvio da rota ou esquecimento da cabeça, o primo Adolfo, com todo o carinho, pedia para ela repensar. Ela repensava e, na segunda tentativa, pimba! A gente cruzava todas as ruas, desde o Israelita até a Cauduro, onde morávamos; eu, na esquina da Oswaldo Aranha, eles um pouco mais perto da curva do Colégio Anne Frank. A gente se despedia com um sorriso (ou dois) na frente do edifício Vienna, e nem era preciso esperar que o seu Borges me abrisse o portão. Os anjos da guarda estavam firmes em seu trabalho, anos antes de se aposentarem e precisarmos de cadeirinhas, cintos, adultos vigilantes e freios ABS.
Tive toda essa reminiscência, domingo passado, na inauguração do túmulo do primo Adolfo. Enquanto o rabino Marcos entoava a reza, eu pensei no quanto a gente aprende com o outro, depois que a aula termina. Com a prima Doris, por exemplo, eu aprendi o nome das ruas, o que foi bastante útil quando, andando pela cidade, eu me perdia e precisava pedir informação para algum estranho, sob o olhar atento do anjo da guarda. Com o primo Adolfo, eu aprendi o que meu pai certamente já me ensinava, mas, com frequência, precisamos alguma distância, no grau de parentesco, para aprender de verdade.
O primo Adolfo me ensinou a ser carinhoso com uma filha, e eu espero ensinar algo de valor tão elevado para alguém. Assim, poderei continuar vivendo, depois da inauguração do meu túmulo.
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Foto da Capa: Acervo do Autor.

