
Os alemães têm um termo que traduz a vergonha alheia: Fremdschämen. É uma reação cada vez mais frequente e compreensível, dados tantos fatos contemporâneos. Já a alegria pelo sucesso alheio parece mais rara. Um neologismo, geralmente usado no contexto da psicologia positiva, descreve o sentimento de prazer — até mesmo orgulho — pelas realizações e pela boa sorte de outra pessoa: Freudenfreude. Podemos compará-lo à palavra Mudita, conceito budista que guarda esse sentimento de felicidade ao ver o próximo realizado e próspero, isento de inveja. Requer generosidade e altruísmo.
Seja o que for — alegria, orgulho ou felicidade —, foram muitas as emoções vividas no final da manhã de 12 de março de 2026, na Sala dos Conselhos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Um pouco por ser minha casa de origem, onde me formei, e no mesmo andar do salão onde, em uma época em que reviveram os lendários bailes da Reitoria, houve um em que pediram “permissão” para usar uma frase de uma crônica minha, Doce Nostalgia. Surpresa não apenas pela referência, mas pelo respeito a um jovem autor desconhecido.
Mas a ocasião agora era outra e bem vívida: a concessão, pela UFRGS e por proposição da Faculdade de Arquitetura, do título de Professora Emérita a Wrana Maria Panizzi. Merecidíssima homenagem, testemunhada por amigos, colegas, servidores de diversos setores, docentes e muitos alunos. Tudo sob o olhar de silenciosa aprovação das figuras emblemáticas pintadas por Locatelli, no grandioso mural que domina o ambiente. Nele, reconheci o velho Sarmento Leite, o “professor dos médicos”, patrono da Faculdade de Medicina.
No discurso de saudação, uma curiosidade acolhida: Wrana recebeu esse nome em referência aos personagens de Tolstói, Conde Wronsky e Anna Karenina. O nome foi escolhido pela mãe, também professora, junto a um grupo de leitura entre amigas.
A menina Wrana fez do mundo acadêmico a sua aldeia. Desde cedo, mostrou disposição e engajamento em debates na esfera das políticas públicas e dos direitos humanos. Na Universidade de Passo Fundo, graduou-se em Filosofia (1970) e em Direito (1972). Obteve o título de mestre em Planejamento Urbano e Regional na UFRGS (1977). Concluiu pós-graduação na França (1979), com a especialização em Urbanisme et Aménagement. Também em solo francês, tornou-se Docteur de 3ème Cycle en Urbanisme et Aménagement pela Universidade de Paris XII (1984) e obteve um segundo doutorado, em Science Sociale, pela Universidade de Paris 1, Panthéon-Sorbonne (1988).
Seus dois mandatos como primeira reitora da UFRGS (1996-2004) foram apenas uma fração de cinco décadas de uma relação pautada pela excelência acadêmica, pelo compromisso social e pela liderança institucional. À frente da Reitoria, demonstrou preocupação como gestora tanto na defesa do patrimônio e na recuperação dos prédios históricos quanto no senso de responsabilidade para com a comunidade. Um pequeno detalhe dá a dimensão de sua entrega pessoal: Wrana compareceu a 522 formaturas de graduação durante suas gestões.
Sua trajetória como professora, pesquisadora, articuladora combativa e gestora exemplar contou com o reconhecimento de muitas premiações no país e no exterior. Sua produção intelectual, caracterizada pelo comprometimento e pela defesa da “universidade pública, gratuita e de qualidade” — uma espécie de legenda de suas gestões e sua profissão de fé —, pode ser conferida em diversos livros e artigos.
“Magnífica emérita”, assim a atual reitora, Marcia Barbosa, a saudou. Mais do que o vocativo cerimonioso, percebia-se a admiração de quem sabe dimensionar a coragem necessária a quem soube ser liderança e resistência em um dos períodos mais duros para o ensino superior federal. A luta continua: no preconceito que persiste e teme o poder de mulheres “magníficas”, e na voracidade do sistema político que prioriza emendas parlamentares em detrimento de recursos para saúde e educação.
Em seu discurso, Wrana reafirmou: “Quem aqui está é uma professora. “Professora que fui e professora que sou.” Lembrou o quanto foi feliz na UFRGS, “casa que a acolheu por mais de 50 anos” e que agora lhe prestava “a maior homenagem que pode ser dada a um docente em sua instituição”.
Ela se equivocou. Mais do que o título de Emérita, o convite da professora Marcia à professora Wrana, para lutarem juntas pelo sonho de “constituir um novo orçamento digno para as universidades federais”, é uma homenagem ainda maior.
O poeta espanhol Antonio Machado Ruiz (1875-1939) ensinou em seus versos: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar…”. A professora Wrana responde à chamada. Ela está presente e segue caminhando por uma universidade pública, gratuita e de qualidade.
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