Propus neste espaço, há algum tempo atrás, texto acerca das Psicoterapias no Brasil, em face de dois aspectos marcantes em nosso contexto nacional: o primeiro aludia à diversidade de paradigmas acerca do que seja, ou deva ser, um processo psicoterapêutico de qualidade; o segundo comentava a respeito da disputa que ultrapassou o território acadêmico-profissional e chegou ao Congresso Nacional, onde tramita mais de um projeto de lei voltado para estabelecer quais os ofícios profissionais que estariam habilitados a oferecer atendimento psicoterapêutico. Não vou retomar aquela discussão aqui, mas ampliar o debate para um terceiro ponto que igualmente surge com força não só no Brasil, mas no mundo inteiro: o aumento, a meu ver preocupante, da oferta e da procura de serviços de “psicoterapia” por parte de sistemas baseados em inteligência artificial generativa – os robôs (chatbots) psicoterapeutas.
Conforme havia aludido em outros textos desta plataforma, sou psicólogo e formador de psicólogos e psicólogas há mais de 30 anos, e nessa condição recebo frequentemente pedido de ajuda de uns e de outras acerca de quem buscar como psicoterapeuta. É uma situação delicada, uma responsabilidade imensa, que agora se agrava pela questão adicional acerca da pertinência, da viabilidade de se incluírem, nesse rol de potenciais psicoterapeutas a indicar, os chatbots psicoterapeutas, personagens fictícios movidos a poderosos algoritmos de tratamento de linguagem natural que, cada vez mais, têm sido indicados/escolhidos para a escuta e o acolhimento técnico complexo que é a psicoterapia. Pois bem, a essa questão mais recente, e que parece estar na ordem do dia, a minha resposta é claramente NÃO. Considero a oferta de psicoterapia por sistemas de inteligência artificial (IA) generativa, e sua busca e utilização por pessoas autenticamente em busca de ajuda, como algo que comporta uma série de problemas graves. Para muitos, essa minha postura seria assimilável a certo neo-ludismo jurássico, oposição de velho ranheta ao avanço inexorável da tecnologia e da modernidade. Peço, contudo, ao leitor e à leitora que pensem em alguns pontos que selecionei para tratar aqui, mesmo que seja na limitação desse espaço.
Em primeiríssimo lugar, cabe recuperar em que consiste uma escuta psicoterapêutica de qualidade. Para muitos, tratar-se-ia, na linha de outras ofertas de serviços de saúde, de uma escuta que tivesse eficácia. Muito objetivamente, é eficaz o tratamento que traz alívio ou remissão das fontes de desconforto ou sofrimento mental que motivaram o pedido de socorro. A remissão de sintomas, em sua simplicidade e clareza conceituais, não pode ser desprezada, pois a grande maioria das pessoas que procura esse tipo de ajuda quer recuperar a paz interior que julgam ter perdido, sem mergulhar em debates infindáveis acerca de modelos teóricos subjacentes a escolas diversas de psicoterapia.
Discutimos isso em texto anterior: o que se espera de uma terapia em qualquer domínio, o que a define como tal, é sua eficácia para tratar e curar algum tipo de desconforto, sofrimento, mal-estar, doença. Nós, que somos procurados com a demanda aludida acima, de quem indicar para ser buscado(a) como psicoterapeuta, não podemos simplesmente ignorar este ponto, nos termos de uma reflexão crítica teórico-acadêmica, porque o mundo que nos cerca e nos solicita ajuda ultrapassa em muito as barreiras desse mundinho dos debates acadêmicos. Este mundo merece o devido respeito em termos de sua perspectiva e, sobretudo, de seu sofrimento. Então, eficácia, sim, é algo que consideramos ao finalmente indicar uma curta lista de três, quatro opções de nomes de “confiança”.
Atenção, esse ponto está, efetivamente, sujeito a debate importante, mas a bem do foco do problema que se escolhe tratar aqui, vamos deixá-lo, por hora, em stand by. Vamos focar no que interessa aqui, desde a partida: se concordamos (mesmo com as reservas do povo do debate acadêmico das matrizes teóricas da psicologia e da psicoterapia) que eficácia tem importância incontornável, como abordamos a questão acerca da eficácia dos chatbots psicoterapeutas? Os terapeutas IA estão respondendo às demandas de ajuda que têm recebido? Muitos trabalhos sérios de levantamento de produção de pesquisa voltados para este ponto têm trazido dados no sentido de que, na avaliação mesma dos usuários, os chatbots IA têm sido eficazes em ajudá-los a vencer fobias, aperfeiçoar habilidades sociais e relacionais, enfrentar o pânico frente a contextos sociais do dia a dia, tudo isso com rebatimentos importantes sobre várias esferas da vida cotidiana das pessoas de carne e osso – na família, no trabalho, na vida social e relacional, no refazimento da própria autoidentidade. Então, por que não?
Noves fora o fato de que as “curas”, “efeitos positivos” e eficácia da escuta psicoterapêutica proporcionada por IA abarcam uma heterogeneidade que a inspeção mais cuidadosa poderia evidenciar, há riscos graves e importantes a mencionar. É inescapável, aqui, aludirmos aos princípios que estão estruturalmente na base de um sistema de IA generativa que trata demandas humanas, sejam elas quais forem. Quando tais sistemas são acionados, processos poderosos de busca de quantidades descomunais de informações em “nuvens” de armazenamento são acionados, e tratados a partir de sistemas de regras concatenadas a partir de princípios de lógica e estratégias de tratamento da informação (os famosos “algoritmos”).
A brevíssima descrição se completa com dispositivos eletrônicos cujo poder atingiu um patamar de potência que ajuda a explicar a explosão da IA generativa no tempo atual – os chips, elementos fundamentais da máquina, assimilados metaforicamente a neurônios do cérebro humano. Em outras palavras, quando tais sistemas são acionados por uma demanda qualquer, informações acumuladas são percorridas a partir de regras de tratamento que inclusive são capazes de autoaperfeiçoamento (donde mais uma metáfora aqui: a “aprendizagem das máquinas”…). Tais sistemas não fazem pouco: eles interpretam a demanda (para evitar interpretações estapafúrdias), buscam casos equivalentes guardados de outras consultas, calculam (isso mesmo – sem aspas) as probabilidades de respostas plausíveis, escolhem aquela mais forte estocasticamente, e finalmente respondem ao demandante.
E convém acrescentar que tudo isso ocorre em lapsos de tempo crescentemente menores, com gastos imensos de energia elétrica e água para resfriamento, para os monstros responsáveis pelo processamento de dados. A resposta vem, portanto, com provável plausibilidade, e envolta no papel presente de uma voz humana masculina ou feminina (à escolha do usuário), ou uma voz e o(a) dono(a) da voz – tudo digitalmente criado. Os defensores dessa modernidade acrescentam: sistemas que estão disponíveis 24 horas por dia, que jamais recusam atendimento, e que são imunes a misérias humanas como o preconceito (há controvérsias aqui!…), a inveja, o interesse sexual proibido num(a) terapeuta, e por aí vai.
Já que aludimos a humanos, pensemos no que ocorre, do lado dessas estruturas de antigamente, quando recebem a mesma demanda aludida acima – pedido de acolhimento psicoterapêutico. Eles podem, semelhantemente, varrer seu acervo de casuística; podem buscar informações oriundas das respectivas formações profissionais (mesmo que em extensão muitíssimo inferior ao acervo das nuvens varridas pelos algoritmos de IA). Podem considerar possibilidades diagnósticas, refletir sobre elas, juntamente com o encaminhamento a dar, e darem algum tipo de retorno à demanda recebida.
Até aqui, os pontos de semelhança humanos-máquinas (guardadas as diferenças em termos de força informacional bruta) estão claramente postos. Mas há UMA diferença marcante, da qual surgirão, em cascata, outras diferenças: o psicoterapeuta humano tem consciência de si (como gente, como profissional, como pertencente a uma identidade de gênero, de raça, de faixa etária, de peso corporal, como alguém que tem suas próprias demandas mal resolvidas a tratar, como alguém com umas dorezinhas preocupantes, como alguém…); tem consciência do Outro (com o famoso “O” maiúsculo proposital aqui…) que se posta diante dele, às vezes especularmente, ocasionalmente como objeto de desejo a manejar; tem uma representação social do contexto (“setting terapêutico”) em que estão – ele/ela e demandante/cliente/paciente.
Ora, essa diferença fala a favor ou contra o psicoterapeuta humano? Esse pode vir a ser assunto para outro texto – por hora, vamos marotamente dizer que podemos ir em ambas as direções. Já sabíamos, antes da IA generativa, o tanto de riscos envolvidos na má escolha de um/a psicoterapeuta humano/a. A humanidade do interlocutor não é, nessa linha de raciocínio, garantia de efetividade. Determinados riscos, assimiláveis ao dossiê familiar dos abusos e dos assédios, continuam presentes no ecossistema de relações humano-humano. Então, por que essa oposição com cara de conservadora, ranzinza, retrógrada em relação aos chatbots psicoterapeutas?
NÃO a esses dispositivos dos tempos modernos por conta da impossibilidade estrutural dos mesmos de empatizarem conosco. Mesmo que mimetizem isso de forma bem convincente. São farsas baseadas em cálculos e bancos de dados que jamais serão capazes de compreensão (no sentido etimológico, mesmo, da palavra). “Mas por que diabos eu preciso de um sistema de ajuda que me compreenda? Preciso de um interlocutor que me entenda, me aconselhe, me informe, me oriente”. Dramaticamente pertinente. Nessa mesma linha de raciocínio, há quem defenda com unhas e dentes a maravilha que são as bonecas infláveis de última geração, para o sexo com robôs. “Que nem compreendem, e nem enchem o saco demandando ser compreendidas…”. Mas se o fim último da psicoterapia, mais que a remissão de sintomas, for o desenvolvimento humano, o chatbot psicoterapêutico é um embuste. Assim como a boneca inflável comprada a peso de euros jamais possibilitará um encontro com outra pessoa – no máximo, o encontro com outra pessoa idealizada e projetada num artefato destinado a eludir a trágica impotência do usuário em sair de seu ensimesmamento. Um embuste, uma ilusão lamentável.
A busca da saúde mental via chatbots terapêuticos é algo estruturalmente adoecedor. Não que estejamos livres disso pelo fato de recorrer a humanos – aqui, os riscos persistem enormes. Mas, no caso da interação com máquinas, não há a contrapartida de nenhum encontro possível. A não ser em termos de fantasias projetivas infantis e narcísicas. Não há desenvolvimento real sem encontro, sem dialogia.

Inteligência Artificial
Criativa como uma pianola mecânica, eficaz como um forno micro-ondas, onipresente e imprescindível como um telefone celular, familiar como um Frankenstein.
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Foto da Capa: Freepik

