Já parou para pensar qual é o melhor lugar do mundo para viver? Eu também já me fiz essa pergunta e, quanto mais viajo, mais percebo que a resposta depende menos dos mapas e mais do que levamos dentro.
Visitando a Nova Zelândia e lendo sobre a vida por aqui, descobri que o país está entre os mais seguros e tranquilos do planeta. Em 2025, o ranking dos lugares mais seguros trouxe Islândia, Irlanda, Nova Zelândia, Áustria e Suíça. Mas, se o critério for oportunidades de trabalho e salários mais altos, a lista muda: Luxemburgo, Austrália, Holanda, Irlanda e Canadá. Já quando o assunto é clima agradável, vida ao ar livre e bem-estar, aparecem Panamá, Costa Rica, Portugal, México e Grécia. Percebe? O “melhor lugar” muda conforme o que cada um valoriza.
A Nova Zelândia tem um IDH de 0,937 e figura entre os países menos corruptos do mundo. A economia é baseada em serviços, mas as exportações dependem do agro, que aqui “não é pop”, “é premium!” (baixo volume, alta qualidade e bom nome no mercado internacional). Houve uma desaceleração econômica em 2024 e em 2025 o PIB cresceu apenas 1%. Isso pode ser uma das causas de muitos neozelandeses estarem migrando para a vizinha Austrália (que, convenhamos, nem é tão vizinha assim: são cerca de 2.000 km de distância).
O país é pequeno, com cerca de 5 milhões de habitantes, e três quartos da população vivem na Ilha Norte. Auckland concentra mais de 1,1 milhão de pessoas; Wellington, a capital, tem apenas 150 mil. A Ilha Sul apresenta paisagens deslumbrantes e chuvas frequentes. Foi lá que surgiram muitos dos esportes radicais que conhecemos. Para cruzar de uma ilha a outra, é preciso encarar um ferry de 3,5 horas pelo estreito de Cook.
No zoológico de Wellington, vivi uma experiência que jamais imaginei: alimentar uma girafa com a própria mão. E sim, o famoso diabo-da-tasmânia, o Taz dos desenhos, existe de verdade. Veja tudo isso no nosso vídeo no YouTube.
Mas nem tudo são flores. As estradas são estreitas, cheias de curvas, sem acostamento e com poucas áreas de ultrapassagem. Eu até gosto do desafio… só não gosto de caminhões colados na traseira, buzinando para a gente acelerar ou sair da frente.
Nos campings, conhecemos pessoas do mundo inteiro. Um casal de holandeses nos disse que não visitaria o Brasil porque “é muito perigoso e tem muita favela”. Pronto! Peguei ranço. Brotou em mim um nacionalismo que eu desconhecia. Não aceito que gringo fale mal do Brasil ou dos brasileiros.
Por outro lado, a vida também surpreende pelo lado mais bonito. Em um supermercado, a Grace elogiou a sacola de compras de uma senhora. A mulher nos levou até a prateleira para mostrar onde estavam, mas já tinham acabado. Depois de passar no caixa, ela voltou e nos entregou a sua bolsa de presente, recusando qualquer pagamento. A generosidade existe. A generalização é que engana. Assim é o mundo: em qualquer lugar há pessoas difíceis e gente encantadora.
Passamos dois dias em Mārahau, na costa banhada pelo Mar da Tasmânia, e fizemos uma trilha de 12 km entre praias e montanhas. Ali, a história também se faz presente: o explorador holandês Abel Tasman chegou primeiro por essas águas e deixou seu nome em mares e baías. O próprio nome “Nova Zelândia” vem da região de Zeeland, nos Países Baixos. Depois, o inglês James Cook abriu caminho para a colonização, um processo marcado por conflitos com o povo maori.
Tudo isso faz pensar, talvez o melhor lugar do mundo não seja aquele com o maior salário, o melhor clima ou o mais seguro. Talvez os principais indicadores de qualidade de vida sejam outros: onde os abraços são sinceros, onde se tem com quem conversar e as conversas não têm pressa. Qualidade de vida tem muito a ver com quem está por perto.
Sou da opinião de que criamos os filhos para serem cidadãos do mundo. Eu já morei fora, mas hoje eu escolho viver onde estiverem minha família e meus amigos.
Porque podemos atravessar oceanos, mudar de país, colecionar paisagens e carimbos no passaporte, mas há coisas que não cabem na mala. No fim das contas, o melhor lugar do mundo não é um ponto no mapa. É o lugar onde alguém nos espera.
E onde, ao chegar, a gente sente que finalmente está em casa.
Notas:
1. Assista AQUI ao vídeo dos lugares por onde passamos na última semana.
2. Nossos agradecimentos ao Eduardo Maciel, mais um brasileiro que vive aqui e tem nos ajudado muito com dicas preciosas.
Todos os textos de Luis Felipe Nascimento estão AQUI.
Foto da Capa: Acervo do Autor.

