Sinto que minha geração não será a que conseguirá deixar tantas heranças patrimoniais à próxima que chega. Com a idade da minha filha, meu pai já tinha levado eu e meu irmão à terra do tio Sam e outras viagens internacionais chegariam em seguida: Europa, mais EUA, Israel. A realidade econômica do país não tem contribuído muito para que uma profissional liberal da área da saúde como eu, mesmo privilegiada como sou, faça um patrimônio robusto que me permita muitos luxos, especialmente em termos de terras ou imóveis. Viagens ainda estou apostando que em breve consiga uma ou outra, mas nem é sobre isso que eu quero falar hoje.
Há tempos venho pensando que, em termos materiais, o grande patrimônio que vou deixar à minha filha é minha biblioteca, são meus livros. Mais do que eles propriamente ditos, meus livros riscados, sublinhados, orelhas dobradas, notas de rodapé, asteriscos, pontos de exclamação e corações entusiasmados desenhados ao longo das páginas. Fico imaginando minha filha adulta percorrendo minha biblioteca, selecionando os que ela vai querer ficar – esperando que sejam muitos – e folheando as páginas, procurando-me nelas depois que eu partir, reencontrando a mãe que ela pôde ter, conhecendo outra que talvez ela não conseguiu ver ou eu não fui capaz de mostrar e ser. Descobrindo possibilidades em si que esses escritos poderão revelar.
Talvez isso seja idealista, e eu esteja sendo ingênua ou sonhadora demais. Pode ser que ela doe todos os livros ou venda para um sebo. Tudo bem. Mas queria imaginá-la entendendo que essa herança é bem maior que a literatura que fica e sempre ficará. Eu tenho saudades da letra da minha mãe. Tenho saudades de lembrar quem ela era e, então, poder sanar essa saudade consultando seu livro preferido. Eu nunca soube se minha mãe tinha um livro ou um poema preferido. O lance dela sempre foi a música. As músicas favoritas eu sei (de cor), mas livros, não.
Eu quero que minha filha saiba meu poema favorito, o poema que me fez poesia e me fez poeta. Acho que ela só vai ser capaz de compreendê-lo depois de adulta – da mesma forma que eu só o entendi depois, bem depois. Já falei sobre ele em alguma dessas redes sociais.
Ele é meu poema, o poema que me poema. Qual é o seu? Não deixe que as pessoas fiquem sem saber o poema da sua vida, a música da sua vida. Essa é a herança, o patrimônio mais valioso que se herda. O meu se chama “Terceira elegia” da poeta russa Anna Akhmátova (obrigada por essa, professor Charles Kiefer):
Terceira
Eu, como um rio,
fui desviada por estes duros tempos.
Deram-me uma vida interina. E ela pôs-se a fluir
num curso diferente, passando pela minha outra vida,
e eu já não reconhecia mais minhas próprias margens.
Oh, quantos espetáculos perdi,
quantas vezes o pano ergueu-se
e caiu sem mim. Quantos de meus amigos
nunca encontrei uma só vez em toda a minha vida,
e quantas paisagens de cidades
poderiam ter-me arrancado lágrimas dos olhos;
mas só conheço uma cidade neste mundo
embora nela fosse capaz de achar meu caminho até
dormindo;
e quantos poemas nunca cheguei a escrever,
e seus refrãos misteriosos pairam à minha volta
e, talvez, de algum jeito, acabem por
me estrangular…
Estão claros, para mim, o começo e o fim,
e a vida depois do fim, e mais algumas coisas
de que não tenho de me lembrar por enquanto.
Uma outra mulher ocupou
o lugar especialmente reservado para mim
e usa o meu nome,
deixando para mim só o apelido, com o qual
fiz, provavelmente, tudo que havia para ser feito.
Não me deitarei, ai de mim, em meu próprio túmulo.
Mas, às vezes, o vento brincalhão da primavera,
ou certas combinações de palavras em um livro,
ou o sorriso de alguém suscita em mim,
de repente, essa vida que nunca aconteceu.
Neste ano, houve tais e tais coisas,
naquele ano, aquelas outras: viajar, ver, pensar
e lembrar, e entrar em um novo amor
como dentro de um espelho, com a leve consciência
da traição e de que, ontem, ainda não estava ali
aquela ruga.
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Mas se eu pudesse observar de fora
a pessoa que hoje sou,
aí sim, aprenderia finalmente o que é a inveja.
2/9/1945
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Foto da Capa: Pexels

