Eu me senti plenamente feliz na minha infância e início da adolescência.
Quando meu corpo começou a anunciar, de forma abrupta e nada sutil, que ali habitava uma mulher, e bonita hoje reconheço, provoquei outra mulher.
Essa mulher se ressentiu de ver que perdia algo que eu acabara de ganhar: juventude fresca, brilho na pele, nos cabelos, nos olhos e nas curvas.
Mas antes disso tínhamos viagens e festas em família, praia no verão, Natal com primos, tios e Papai Noel com rosto assustador e rígido, mostrando olhos de gente atrás de buracos que mais pareciam a entrada para o inferno.
E tinha aquelas coisas certas que enchiam o meu coração de conforto e alegria.
Esses Natais na minha casa, com a família inteira, e o Ano Novo na casa dos meus tios, com todos de branco, inclusive os sorrisos.
O veraneio em Torres, com a pele bronzeada, os cabelos queimados do sol, os amigos da alma, o mar com bandeira amarela oferecendo mergulho em marolas transparentes.
Califórnia como casa, com esses mesmos tios e primos.
E, assim de repente, um adulto servindo de corpo para a minha alma.
Deixando a criança ainda espiar o mundo lá fora, mas não muito, buscar consolo em outras crianças, no sol e nas plantas que continuam os mesmos, vendo beleza que só criança é capaz de enxergar.
E, assim também, de repente, a alma criança do meu primo adulto resolveu ir brincar e gargalhar em um lugar menos doído, menos violento, complicado e assustador.
Aquele lugar que possui todas as belezas da terra, mas sem feiúra para machucar.
Como acontece bastante, a morte ensina quem está prestes a partir e quem está prestes a partir ensina quem vai ficar.
O coração, quase desistindo de pulsar, abranda e todos os ressentimentos viram perdão, todas as dores flutuam para longe, como nuvens pesadas arrastadas pelo vento.
Deus passa a existir dentro de quem não tinha espaço para Ele.
E foi assim com o meu primo, que encarou com leveza a finitude do seu corpo, continuou bem-humorado, sereno e em paz.
Foi tocar a sua gaita de boca e fazer sorrir os anjos, foi surfar em águas sem perigos, foi encontrar o seu grande herói, o meu pai, e a sua doce e forte mãe.
E a morte veio nos contar que ela não é má.
É apenas uma forma de viajar.
Mesmo para aquele que acredita que com ela tudo acaba, tudo irá modificar quando ela finalmente chegar.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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Foto da Capa: Freepik

