O texto escrito é meu ambiente de trabalho e de ócio, de tarefas e de lazeres. Desta forma, a linguagem escrita é para mim um lugar seguro; donde decorre que as modificações nesse ambiente mexem comigo.
No início da minha jornada de vida, o texto impresso no papel era o chão das vivências. Todavia, o tempo passou… Chegaram os arquivos de fácil portabilidade, aqueles que podemos enviar por meio digital, o formato que transformou o livro nos Portable Document Format, o nosso agora íntimo PDF.
Confesso que, sem maiores dores de consciência, praticamente abandonei o chamado livro físico, expressão que uso com ressalvas, pois sugere que essa coisa de texto em PDF, aparecendo na tela de meus aparelhos, também não seja uma realidade física. A praticidade e o custo me venceram: tenho conjunto de obras de diversos autores aqui comigo, neste aparelho no qual digito este texto. Quase tudo que publiquei e boa parte do que já escrevi andam agora comigo. Tudo isso é muito bacana.
Todavia, o insólito está chegando e tenho a impressão de que já está mexendo nesse ambiente maior de minha segurança: a escritura.
Observem os indícios, não há mais cartão postal e não há mais cartão de fim de ano: temos post. Alguém pode dizer que têm palavras escritas ali? Tem. Porém, me parece que são meros adjutórios às imagens que, na maioria das vezes, são o sinal que recebe a maior intenção da mensagem.
Ainda recebi e enviei cartas pelo correio, comprando selo e envelope. Contudo, para além das missivas em geral e dos postais, há um gênero que, infelizmente, com muito pesar, constato seu falecimento: as cartas de amor. Detecto que essas, assim como pode ocorrer com amores destinados, foram sucedidas: chegou o e-mail, inicialmente, depois, sacramentando o traspasse, temos os aplicativos de mensagens.
Não me tenham por exagerado, mas acho o perecimento de letras mensageiras de profundo afeto um péssimo sinal para o fado da humanidade. Recebo como trágica artimanha de nosso destino o fato de que o dissolvimento do texto escrito dê seus primeiros passos com o desaparecer das cartas de amor. O coração fica atribulado quando penso o que será que vai acontecer com quem está entrando na puberdade sem levar para a vida adulta a curtição do espírito propiciada pelas ansiedades envolvidas com o postar, o receber e, principalmente, o ler-escrever uma carta de amor.
Obviamente, não estou aqui já vaticinando o fim do romance. Deixo claro: é a escrita destinada a quem se devota o sentimento que vejo fenecer. Remessas de áudios, fotos, vídeos, bilhetes digitais ou mesmo um PDF (substituindo o papel por pixel) podem, sim, comunicar afetos e paixão, contudo, até por serem tão imediatos, não substituem cartas de amor.
Reitero, não acho que seja o bem-querer que esteja em perigo. Quem realmente sai ferida é quem se nutria de distância e tempo: a saudade.
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