Ecoa uma conhecida modinha, que “quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente”. Mata não! Fevereiro é mês de catarse. O Rei Momo, uma figura emblemática com raízes na mitologia grega – patrono do sarcasmo e da ironia -, é coroado como o “monarca” dos dias de folia, representando a inversão da ordem, a irreverência e o espírito festivo. Canta uma música das antigas que “a nossa vida é um carnaval”. Marchinhas românticas e bem cadenciadas levam fiéis de Momo aos prantos. Em compensação, foliões fervem ao som frenético do frevo. Carnaval diverso para ritmos e tempos diferenciados. Povo que enlouqueceu nos trios elétricos e gente que se congratula na saudade e melancolia. Além disso, há um bloco aqui na cidade, denominado: “nós sofre, mas nós goza”. No carnaval cabe tudo e mais alguma coisa. É possível que se trate de um dos festejos mais populares e vibrantes do mundo. O carnaval está atravessado por influências europeias, africanas e indígenas, nas quais arcanas tradições se encontram com manifestações hodiernas.
No meu tempo de menino, escutei bastante gente jovem que profetizava: “no carnaval tudo pode”. Porém, as dinâmicas culturais, o trânsito do tempo, as conquistas sociais, o lugar de pertencimento de cada um e cada uma levaram-nos à consciência de que não. Não se pode tudo! Pensava-se pertinente aos mancebos entupidos de testosterona que não havia limite algum para agarrar – e até forçar –, mesmo contra sua vontade, uma moçoila para um efêmero congraçamento em ladeiras e passarelas. Elas começaram a educar-nos a entendermos que “Não, é não”, direcionando nosso olhar para uma virada civilizatória. Moças e rapazes acampavam seus órgãos em plena rua, de acordo com a luz do dia, para verter urina. Legislações específicas, vigilância mais presente e sanitários químicos vieram coibir tal prática; o que implica muito mais que uma simples vedação, pois sinaliza para a percepção da rua como espaço formativo. Adultos usavam e abusavam de infantojuvenis para um abuso de sexo casual. A lei veio em socorro dos vulneráveis, criminalizando essa prática horrível. Poderíamos conceber uma pedagogia carnavalesca? Será que fomos aprendendo alguma coisa ano a ano e melhorando nossos contextos e relações? Sim, podemos – e devemos – refletir sobre o carnaval para além do entretenimento. Entendê-lo como um espaço rico de produção de cultura, conhecimento e resistência, que funciona como um processo educativo não formal, um aprendizado social.
Há uma marchinha carnavalesca, pernambucana, que anuncia que o “carnaval começa no galo da madrugada.” É verdade! O Galo pontifica algazarras no sábado de Zé Pereira. É bem provável que antigamente fosse mesmo o início das celebrações do séquito de momo; entretanto, hoje, o Recife está de folia desde o abrir dos olhos do ano. Ensaios dos mais diferentes blocos tomam conta de sua região metropolitana, congregando multidões de brincantes que aproveitam para adquirir camisas, abadás e adereços. Pode não ser um despropósito aventar que somos enlaçados numa verdadeira e grande religião.
Em minha Veneza, a turma continua saindo, e não só a da Pitombeira. Os bonecos gigantes continuam invadindo as ladeiras da Holanda brasileira. E o Galo? O Galo, não contentando-se com a madrugada, virou o galo do dia todo. E o homem da meia-noite? Esse só aumenta a turba de seguidores. O eterno Dom de Olinda e Recife dizia: “Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de amor por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”
Na semana passada, Brayner (Jornal do Commercio, 10/02/2026), ao abordar a manipulação, a comercialização e o domínio que transformaram as brincadeiras carnavalescas em mercadorias de compra e venda, desabafa, dizendo que não estamos mais a “brincar o carnaval”… Pois é! Um festejo que não trata os filhos de Momo igualmente. Dentro dos cordões, apenas os que compraram os abadás. Nos camarotes, apenas os privilegiados que adquirem, às vezes, caríssimos ingressos. Pacotes turísticos, fantasias e bebidas são vendidos a granel… Tem tudo que a gente quer, parece até a feira de Caruaru. O certo é que o Carnaval no Brasil, mais do que uma festa popular, funciona como um potente motor econômico capitalista, movimentando bilhões de reais, estimativa de R$ 18,6 bilhões para 2026.
Ao aquecer setores como turismo, serviços, transporte e bebidas. Embora gere emprego e renda, o modelo atual reflete tensões, destacando a precarização trabalhista e a comercialização com forte presença de camarotes privados e marcas. O mais estranho é que, em nome do multiculturalismo, parece que há um carnaval para os empobrecidos, confinados em seus bairros; e, outro, para as elites. Este ano, veículos de comunicação denunciaram a farra de cachês excessivamente altos de artistas para o Carnaval. Isso causou controvérsia, principalmente aqui no Nordeste brasileiro. Prefeituras relataram dificuldades em contratar bandas devido à inflação nos preços, com aumentos que superam 100% em comparação a anos anteriores. Noticiou-se que, devido aos custos “exorbitantes”, cidades do Ceará (Tauá, Caucaia, Jaguaretama) e Rio Grande do Norte (Paraú, Santa Luz) cancelaram ou reduziram os dias de folia.
Parece que a vigilância do capital se tornou mais poderosa que os intentos de Momo. É provável que, por isso, Brayner tenha observado que ao brincante restou a obsequiosa adequação. Não podemos negar que dias de assenhoreamento das ruas, de irreverente algazarra e incontida alegria cumprem um papel importante na leveza e na saúde mental de mulheres e homens. Mas, a questão é que depois chegam as águas de março derrubando os barracos, provocando enchentes, causando morte e desemprego, e o carnaval fica somente na lembrança ou na vã esperança de um paraíso que virá após uma vida vivida com altos e baixos.
É muito importante lembrar aos nossos políticos que nossas necessidades superam o encanto de shows e algazarras. Queremos uma alegria que não se afogue no crescente empobrecimento de nossa esperança. Precisamos de políticas públicas permanentes que sustentem a alegria como direito, não como espetáculo sazonal.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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Foto da Capa: Sergio Bernardo/ Prefeitura de Recife

