Conheci meu querido amigo Jacob Klintowitz através do Sergio Faraco, outro amigo muito especial, nosso contista maior. Jacob escreveu cerca de uma centena de livros de arte extraordinários, que comecei a ler desde 2009. Logo soube que sua mulher, Raïssa Cavalcanti, também era uma escritora inspirada. Identifiquei-me de imediato, pois ela era psicoterapeuta junguiana – desde os meus 20 anos, aprendera a amar o Jung. Li, então, alguns livros da Raïssa: Mitos da água, as imagens da alma no seu caminho evolutivo; O casamento do sol com a lua: um estudo simbólico do masculino e do feminino e Os símbolos do centro, a imagem do Self. São livros de enorme riqueza espiritual e sensibilidade, que ecoam em mim até hoje. Frequentemente volto a eles, em especial a Os símbolos do centro, pois na época da primeira leitura, me desencadeou uma sequência de sonhos – foi logo depois do capítulo 6, A montanha: o eixo do mundo:
“Considerado o símbolo do centro por excelência, a montanha reúne em torno de seu simbolismo os mais complexos significados, tornando-se, assim, investida de um forte poder numinoso. As mais diversas representações do centro estão, frequentemente, associadas a uma montanha sagrada, cuja imagem está presente na mitologia de todos os povos. (…) Significa tanto a origem da criação quanto o momento da transformação final, o encerramento do processo, o início e o fim, equivale ao Omphalós, o Umbigo do Mundo, o ponto inicial criativo, o centro primordial da criação. (…) A montanha simboliza o caminho iniciático que todo o indivíduo deveria percorrer, no seu processo crescente de discriminação entre aquilo que é ilusório e o que é real. A subida da montanha tanto marca o começo quanto o encerramento de um processo, é, portanto, o caminho natural da subida dos mortos, o lugar de transformação, de passagem e de transcendência. (…) Não é necessária a morte física para realizar o processo de ascensão, mas sim morrer simbolicamente, para um tipo de vida, de percepção, que impedem o desenvolvimento, a transformação e a transcendência da consciência.” (páginas 73 a 83)
Sonho 1
Estou subindo uma montanha densa de vegetação, floresta, procuro por meu espírito (me sinto fraca) e pergunto repetidamente: “Onde perdi o meu espírito?” Chego ao cume, com meu gato no colo, também debilitado, e chamo: “Pai, criador, ajuda-me a encontrar o meu espírito”. Ouço um farfalhar nas folhagens, surge um pequeno gato preto e tenho a certeza, imediata, de que ele traz o meu espírito direto da Rosa dos Ventos.
Nosso espirito é nossa consciência, nossa essência eterna, seiva, Self. Não se pode perder o espírito, ele é o nosso Ser, mas na experiência material muitas vezes nos sentimos perdidos, debilitados, sem conexão com o espírito. Estou fraca no sonho e preciso me reconectar. O meu gato no colo é o meu instinto que me guia, mesmo fraco também, está comigo, junto ao peito, ao coração, eu ainda o tenho e ele me faz subir a montanha. Nomeio Deus como Pai e criador, com essa conexão fortíssima na natureza (God sive natura, Spinoza), que é o meu lugar ideal desde criança. O gato preto me traz a imagem da Rosa dos Ventos, meu Norte é uma direção de amor e coragem pra mudar, transcender.
Adoro a imagem dos gatos pretos, protetores que têm forte vínculo com a natureza, limpam as energias ao nosso redor e nos incentivam a buscar companhias que agreguem à nossa vida. Seu carinho por nós é verdadeiro, mas não são dependentes, os gatos pretos seguem seu caminho e permitem que sigamos os nossos; com eles, aprendemos o significado do verdadeiro amor, que não deseja possuir, e sim compartilhar.
A Rosa dos Ventos tem origem muito antiga e é um símbolo de orientação, o domínio do espaço, conhecimento da luz e do vento, associa-se a força no rumo espiritual, sorte nas novas direções da vida, coragem de mudar. Como instrumento para a navegação geográfica, auxilia na localização de determinado corpo ou objeto em relação a outro. Também simboliza a unidade dos elementos do universo: a terra, a água, o ar e o fogo, o seco, o úmido, o frio e o quente.
Sonho 2
Estamos em 7 pessoas (desconheço todos) e nos preparando para subir a montanha. Carregamos mochilas grandes, todas pretas, bem cheias de coisas. Consideramo-nos abastecidos e prontos para a jornada.
Sempre tive predileção pelo número 7 (só recentemente me apaixonei também pelo número 4). Na alquimia, o 7 é associado à perfeição, pois, com ele, eram realizadas as magias mais poderosas. Além da alquimia, diversos segmentos consideram este número como perfeito, pois ele representa a harmonia, o equilíbrio e a totalidade. É um número que está relacionado a ciclos, a tudo o que representa um caminho completo, a finalização de um ciclo, principalmente quando falamos da evolução de um ser humano. O sonho brinda o estar em grupo, pronta para uma jornada coletiva, com o Outro, em liberdade. A cor preta é obtida quando ocorre a absorção de todas as radiações do espectro solar. Também relacionada à morte, no sonho a morte simbólica ao subir a montanha.
Sonho 3
Vou beber na fonte de Nossa Senhora de Fátima…
Não lembro detalhe algum deste sonho, mas essa imagem é muito forte, como um fecho da sequência. Nas aparições de Fátima não brotou água, como em Lourdes. O terreno calcáreo e muito poroso da Cova da Iria e arredores não tinha umidade. Em 1921, foi aberto um poço no fundo da Cova, no lugar onde os pastorinhos estiveram na primeira aparição de Fátima (viram uma luz brilhante, julgando ser um relâmpago e, depois do segundo clarão, viram, em cima da pequena azinheira, uma “Senhora mais brilhante que o sol”). Os operários abriram uma valeta a poucos passos da azinheira sagrada e ali brotou a água cristalina e abundante. Outros dois poços foram cavados a poucos metros e a água brotou em abundância novamente. Nunca mais faltou água nas fontes.
Acredito que estes sonhos, numa sequência de três noites, me mostraram que eu precisava elaborar minha trajetória do Self. Encontrar meu Norte, onde me fortalecer para direcionar esforço à tentativa de descobrir uma fonte sagrada e abundante para mim e para todos. Pra mim, isso significa estudar mais e mais e escrever com toda a dedicação, amor, muito trabalho e energia para contribuir na jornada coletiva. Sou profundamente grata a todos os escritores que me inspiram diariamente nessa jornada e me fazem sonhar.
Referência:
Os símbolos do centro, a imagem do Self, de Raïssa Cavalcanti – Editora Perspectiva, 2008.
Todos os textos de Vera Moreira estão AQUI.
Foto da capa: Hans / Pixabay

