Preciso falar mais uma vez da discriminação que, além de escancarada nos olhares cotidianos, é reforçada pela escrita e pela fala de articulistas e comentaristas de jornais e canais de televisão por meio do uso pejorativo de algumas palavras. Sob o ponto de vista ético e humanista, é desolador constatar que a palavra nanismo agora também é usada para adjetivar situações que envolvem corrupção. E, sob essa perspectiva preconceituosa, é citada em críticas relacionadas à atuação de políticos de tamanho normal, que não se comprometem com o país. A falta de acervo vocabular de alguns colunistas, que usam e abusam da expressão, ganhou recentemente mais um aliado. Foi o que senti ao me deparar com o artigo de Rogério Mendelski no Correio do Povo do dia 29 de agosto deste ano com o título: “Nanismo diplomático”. Já evitamos a palavra “anão” de tão contaminada que ficou pelos usos inadequados. E agora apelam para a palavra nanismo. Volto a dizer que nanismo é uma condição física e que o uso inadequado escancara a ignorância. É chocante ver um jornalista que não está conectado com as mudanças vitais do século 21, como o combate vigoroso ao preconceito aliado ao incentivo à diversidade e à inclusão!
Volto, então, a um texto que escrevi em 2022.
Esses usos indevidos já respingaram e ainda respingam muito na minha vida. É o caso de expressões como “O ano ou um anão?” (artigo de Flávio Tavares publicado no jornal Zero Hora no final de dezembro de 2019, referência ao ano considerado medíocre). “Salário com perna de anão” (referência ao salário baixo). “Anão moral” (Ciro Gomes sobre Michel Temer na época do golpe). “Anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty, em julho de 2014). “Anões do orçamento” (grupo de deputados envolvidos em fraudes no final dos anos 1980). Ou seja, a corrupção de políticos no poder é vinculada diretamente à estatura das pessoas com nanismo. Não dá para aceitar!
Mas o uso preconceituoso de certas palavras está tão entranhado no inconsciente coletivo que poucos estranham. E quem sofre são as pessoas com deficiência, negros, indígenas, grupos LGBTQI+, entre outros. Esses seres “imperfeitos” incomodam e causam constrangimento porque apontam para uma diversidade de condições e comportamentos humanos libertários ainda não compreendidos como deveriam ser. É fundamental contestar tais usos porque são assimilados sem críticas e reforçam a discriminação. São pontos de vista do senso comum que ofendem e alimentam a rejeição que as pessoas com nanismo, por exemplo, já sofrem desde os tempos medievais, passando pelos regimes fascistas, quando a recomendação era que fossem eliminadas.
Por mais que sejamos ouvidos hoje e tenhamos leis e entidades para a nossa defesa, nossas vidas vão continuar frágeis se o preconceito que se desnuda sem freios na palavra não for combatido. Até porque se transformam em barreiras que estão nas entrelinhas de um texto ou em vozes que repercutem o que ouvem sem contestar. E assim segregam quem não corresponde ao padrão de normalidade instituído e assimilado socialmente. A segregação se manifesta em comentários grotescos de comunicadores inescrupulosos de programas de televisão, em artigos de jornais e em piadas vulgares que tumultuam as redes sociais. Apelar para a estatura de pessoas que não têm nada a ver com a crítica que está sendo feita é de uma pobreza vocabular lamentável e absurda, além de escancarar a superficialidade, o desconhecimento e a discriminação.
O que me cabe neste contexto, mais uma vez, é pedir respeito, sem medo da minha diferença e das dificuldades que vêm com ela. E este pedido vem ancorado em uma canção de Nelson Cavaquinho, G. Brito e A. Caminha: “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Porque dói! E muito!
E mais: “Não queremos apenas atrapalhar o trânsito, ‘feito um pacote tímido’, como diz a linda canção de Chico Buarque. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como seres humanos com direito à vida plena”, frase que encerra a primeira edição do meu livro “E fomos ser gauche na vida” (Pubblicato Editora, 2020).
Releitura de um texto que escrevi em 11 de julho de 2022
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
Foto da Capa: Pexels.

