Não há dúvidas de que o Brasil ainda precisa avançar muito no cuidado e na proteção de crianças e adolescentes. Apesar das conquistas alcançadas desde a promulgação da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente, questões como a exploração e a exposição de menores na internet ainda permanecem negligenciadas, exigindo ações mais eficazes e fiscalização rigorosa.
O influenciador Felca publicou, há poucos dias, em suas redes sociais, um vídeo denunciando a adultização e a sexualização de crianças e adolescentes, em sua maioria meninas, mostradas em roupas íntimas, dançando e posando de maneira sensual. A gravação gerou ampla indignação e fez com que muitas pessoas, até então alheias à gravidade do problema, passassem a encará-lo de frente. A discussão evidenciou não apenas a vulnerabilidade dessas crianças, mas também a responsabilidade compartilhada entre famílias, plataformas digitais e sociedade. Chegou-se, inclusive, a propor a criação de uma CPI para investigar a responsabilidade das big techs na proteção dessas crianças.
Sabemos que a erotização de crianças e adolescentes, especialmente meninas, não é um fenômeno recente, mas isso não diminui a gravidade do problema nem deixa de nos causar incômodo. Em uma entrevista, a atriz Mel Lisboa relatou as dificuldades de lidar com a hipersexualização de sua imagem aos 19 anos, quando interpretou a protagonista da minissérie Presença de Anita, exibida pela Rede Globo em 2001. Na trama, Anita protagonizava cenas de sexo nas quais aparecia nua e se envolvia com um homem muito mais velho. Além de ser assediada por grande parte do núcleo masculino da série, a personagem também sofria violência física de Fernando, seu namorado, cuja idade correspondia à de um pai. Embora Anita fosse legalmente maior de idade, seu corpo ainda apresentava traços de menina, despertando interesse não apenas dos personagens, mas também de homens reais, expondo sem rodeios os anseios pedófilos que a produção parecia ignorar.
Inspirada no romance homônimo do escritor brasileiro Mário Donato, publicado em 1948, a minissérie nasce de uma obra que, à época, despertou intensa polêmica entre setores religiosos e a sociedade. Anos depois, o tema ganharia ainda mais notoriedade com Lolita, de Vladimir Nabokov. Ambos os romances expõem costumes infames, então aceitos como normais. Quando a minissérie foi exibida em 2001, poucos se incomodaram com a exposição de um corpo tão jovem, mostrando que, mesmo décadas depois, padrões permissivos ainda influenciavam a percepção social sobre adolescentes. Os resquícios da objetificação sexual imposta nos anos 1990 permaneciam, sem provocar grandes incômodos.
Mais de vinte anos se passaram, e o que realmente mudou? Hoje a televisão é mais regrada, mas a internet, por sua vez, segue como uma terra sem leis, onde qualquer um publica e compartilha o que deseja, muitas vezes ignorando limites ou consequências. E ainda há quem defenda esse tipo de liberdade irrestrita nas redes sociais. Recentemente, um presidente da República chegou a afirmar que “pintou um clima” com meninas venezuelanas durante uma motociata e não sofreu punição, nem mesmo se retratou por suas falas, dando um mau exemplo para os seus seguidores.
Todo cuidado é pouco. Uma imagem publicada pode se espalhar milhões de vezes sem qualquer controle. Um vídeo aparentemente inocente pode acabar em sites de exploração sexual infantil, chegando a pessoas com intenções criminosas. Essa circulação desenfreada não apenas coloca menores em risco, mas também evidencia a urgência de medidas de fiscalização e responsabilização de quem compartilha e, principalmente, lucra com esse tipo de conteúdo. Não podemos mais fechar os olhos para essas práticas, permitindo que a Internet continue sendo um território de impunidade. Precisamos de mais influenciadores corajosos e comprometidos, que usem suas redes para denunciar, e não para explorar os vulneráveis. Talvez assim, com uma indignação coletiva, essa luta se torne mais forte.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.
Foto da Capa: Mel Lisboa na minissérie Presença de Anita / TV Globo

