Às vezes, eu me pego buscando a eloquência da juventude, aquele ímpeto febril de viver cada segundo como se fosse o último, suspirando por motivos que hoje me pareceriam banais. Sinto falta dos dias em que a adolescência me atravessava como um raio, fazendo tudo doer mais, brilhar mais, pesar mais. Naquela época, tudo era profundo. Os dias pareciam se arrastar com uma intensidade quase insuportável, e os anos demoravam a passar como se o tempo tivesse receio de seguir adiante.
Na adolescência, os sentimentos vinham sem freios e havia uma urgência absurda em viver, em sentir, em pertencer. As escolhas pareciam eternas… até que surgisse algo melhor. As paixões vinham com promessas de “para sempre” e, quando acabavam, levavam o mundo junto no desabamento. Ainda assim, a vida seguia. Mas o que se vive nesse tempo deixa marcas. Como o dia em que terminei no plantão médico, sufocada por uma rejeição amorosa. Ou a noite em que chorei em silêncio porque meus pais não me deixaram ir àquela festa que parecia a mais importante da minha vida. Na adolescência, briguei com meus pais, sonhei em fugir de casa e houve momentos em que pensei em morrer. Não porque eu realmente quisesse deixar o mundo, mas porque não sabia ainda como habitá-lo.
Assim agem os adolescentes com os nervos à flor da pele e o coração em descompasso. Eles vivem tudo pela primeira vez e como se fosse a última. Vejo no dia-a-dia do meu filho de dezesseis anos a necessidade de que as coisas sejam para ontem. Se tarda, perde o sentido. Isso vale para festas, encontros, mensagens, amores. Ao mesmo tempo, aquilo que não acontece pode doer fundo, gerar um desconforto difícil de nomear, uma frustração que parece insuportável. Adolescer é abandonar a criança que se despede, cedendo lugar ao adulto que chega. Por isso não é fácil; e por isso, a adolescência dói.
Não é à toa que o número de suicídios nessa fase da vida seja tão elevado. O adolescente ainda não sabe que as feridas cicatrizam. Não acredita que a dor vai passar, que aquele amor vai se apagar, que um dia ele mesmo vai rir do drama que agora o consome. Para ele, tudo é definitivo: o abandono, o não, a crítica, o silêncio.
O escritor hamburguense Henrique Schneider, em seu livro O tempo quase, aborda com cuidado a depressão e o suicídio na adolescência. Contando a história de Martina, que tenta acabar com a própria vida depois de tomar todos os calmantes da mãe, Schneider também nos leva a conhecer as causas que levaram a essa decisão. “Mãe e pai: briguei com o Eduardo e ele não quer mais ficar comigo. Disse que não quer me ver nunca mais. Então, ele não vai me ver nunca mais mesmo. Eu não consigo viver sem ele, é melhor não viver. Ninguém tem culpa de nada (nem ele). Amo vocês. Muito. Martina.” Essas são as palavras deixadas por Martina para justificar a sua atitude. Os pais, no entanto, sequer imaginavam que a filha pudesse estar passando por algum problema. Era uma menina estudiosa, namorava o mesmo menino há quase dois anos, não dava nenhum sinal de descontentamento com a vida. No entanto, após a conversa com o psicólogo do hospital, uma nova realidade se impõe: havia sinais, sim. Pequenos, discretos, talvez até silenciosos, mas estavam lá. E não foram percebidos.
O caso de Martina escancara o abismo que pode existir entre pais e filhos, mesmo em lares amorosos. A dor, quando não tem nome, se esconde em gestos pequenos: no silêncio prolongado, na falta de apetite ou no excesso de comida, no olhar perdido, na sonolência exagerada. É difícil enxergar o que não se conhece, e talvez por isso tantos adultos não saibam interpretar os sinais que seus filhos dão. Por isso, falar sobre saúde mental na adolescência é urgente. Precisamos romper o tabu de que tristeza é drama, de que sofrimento juvenil é exagero.
Os adolescentes de hoje crescem sob pressões que nós, adultos, talvez nunca tenhamos enfrentado da mesma forma. A exposição constante nas redes sociais, a cobrança por desempenho, a sensação de não pertencimento, o medo do fracasso. Tudo isso compõe um cenário em que o peso da vida pode parecer insuportável. E quando não encontram espaços seguros para expressar suas dores, muitos se calam, outros gritam, e alguns desistem.
Livros como O tempo quase são importantes porque nos ajudam a despertar para a escuta e sensibilização. Falar sobre suicídio não é estimular o ato. É, ao contrário, abrir caminhos para a prevenção. E talvez isso, no fim das contas, já seja um começo. Se a adolescência dói, que essa dor possa ser amparada. E que nenhum jovem precise atravessar sozinho as noites mais escuras do seu tempo quase.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

